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sábado, 23 de outubro de 2010

«REFLEXÕES SOBRE A CRISE CONTEMPORÂNEA» - J. RANVIL - Prefácio do Dr. Sant'Anna Dionísio - SEARA NOVA, 1951



«REFLEXÕES SOBRE A CRISE CONTEMPORÂNEA»
              J. RANVIL
Prefácio do Dr. Sant'Anna Dionísio
SEARA NOVA, 1951


Do ´PREFÁCIO`


Quis a isenção e largueza de espírito do autor deste livro que lhe déssemos algumas palavras como proémio das suas reflexões. A tarefa é-nos grata. E sentimo-nos
perfeitamente à vontade, tanto para dizer todo o bem que o livro merece como para exprimir as restrições que, com sinceridade, julgarmos dever apontar. É claro que se-
remos breve e o mais possível discreto, tanto no encómio como na crítica restritiva, pois seria igualmente quebra de decoro fazer às claras, o elogio de uma pessoa em
sua própria casa, assim como aproveitar a sua confiança para a contrariar e aborrecer
com descabidas rasuras.
Num prefácio não é lícito fazer ostensivos panegíricos nem ofício de cardeal diabo.
Dito isto, tentemos esclarecer o que importa.


No primeiro relance se vê claramente que estamos em presença de um livro juvenil; portanto, profundamente sério. Com efeito, muito mais do que na velhice, - o homem é sério na sua juventude. Na velhice, a chamada experiência da vida dá em regra uma visão demasiado cautelosa das coisas e dos homens-, enquanto que, no limiar da idade adulta, ainda sobrevivem muitas das virtudes espirituais da infância e da adolescência: o coração é puro, o olhar comovido, a alma simples, a inteligência ingénua, mas vigorosa, nos seus voos rápidos. Por isso nessa idade se realizam as mais belas obras do espírito.
Impressionado com as linhas de discórdia, ameaçadoras, que se cruzam na época em que vivemos, o autor juvenil deste livro tenta transferir, em uma centena de meditações
breves mas relativamente estruturadas, as angústias e esperanças que o tremendo
espectáculo do mundo moderno faz perpassar pelo seu espírito.
Um ou outro leitor poderá iludir-se pelo acento melancólico e por vezes acentuada-
mente doloroso da obra e supor que se trata de uma refracção de alma profundamen-
te pessimista. Será porém enganosa essa impressão. No íntimo, no espírito do Autor
lateja uma reflectida esperança que, logo no limiar da sua obra, sobriamente se exprime nestes termos: «Cremos que tudo se encaminhará para o mesmo fim. Espera-
mos que suceda à crise um ciclo de relações harmoniosas, logo que se haja comple-
tado o imprescindível reajustamento entre as diversas tendências.»
Em súmula, parece-nos que o seu pensamento poderia assim exprimir-se:
A Humanidade atinge no nosso tempo um instante decisivo e como nunca dramático. Tudo freme. Os valores tradicionais, sacudidos por uma crise sísmica, somem-se e são necessários novos valores para substituir os que se submergem.


.......




Ainda que de fôlego breve (propositadamente breve, estamos em crer) estas ´Reflexões sobre a crise contemporânea` oferecem inestimáveis sugestões sobre as raízes longínquas da velha doença e da possível convalescença do Homem. A leitura de algumas dezenas de páginas dedicadas à auscultação do mundo antigo, tranquilamente feita à luz do pensamento dos mais representativos filósofos dessa idade (Platão e Aristóteles), será seguramente um  dos prazeres mais vivos do leitor  que tiver olhos para ver o que há de tónico neste livro discreto e sério. E o mesmo poderíamos dizer daqueles passos, tão certeiros e sóbrios,
em que o Autor analisa os sintomas de desagregação dos tempos modernos. Em dois traços breves, J. Ranvil dá-nos, por exemplo, logo no limiar do livro, o justo apontamento do significado dos desvios e abastardamentos de duas expressões de Arte: a pintura e a música, esta, aqui e além, transformada em pura
´nevrose do ruído`, prevertida pelo furor mecânico da vida contemporânea, aquela representando, nas suas criações irracionais e teratológicas, ´a angústia que dilacera a alma da Humanidade.`


(Excertos do Prefácio da autoria do Dr. Sant'Anna Dionísio)


Nota: 
Tive a honra e o privilégio de conviver na cidade do Porto com o grande Homem
que foi o saudoso Dr. Sant'Anna Dionísio, porém só em Lisboa e há poucos anos 
tive a oportunidade de adquirir a obra, aqui referida, num ´alfarrabista`; entretanto
o eminente prefaciador, discípulo de LEONARDO COIMBRA e muito independente nas
ideias, em relação aos amigos e antigos colegas, tinha falecido...
Eis a razão de referir uma obra de rico conteúdo, mas cujo autor J. RANVIL des-
conheço e assim, num momento de recuperação de problemas da minha saúde que
praticamente me afastaram da NET, aqui fica o pedido a quem tenha conhecimento
do Autor das ´Reflexões...` de nos esclarecer!
Desde já o meu agradecimento!





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