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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

«A UNIÃO CONJUGAL» - (´L'UNION DES ÉPOUX`) - MARC ORAISON



«A UNIÃO CONJUGAL»
    MARC ORAISON
TRADUÇÃO: Maria Isabel Tamen
CIRCULO DO HUMANISMO CRISTÃO
LIVRARIA MORAIS EDITORA
LISBOA - 1962
Título Original: ´L'UNION DES ÉPOUX`
Librairie Arthème Fayard
Paris, 1956


Como já foi referido, a Tese de Doutoramento em Teologia apresentada e defendida em 1951 por MARC ORAISON no INSTITUTO CATÓLICO DE PARIS tendo obtido a mais alta distinção, foi condenada pelo ´SANTO OFÍCIO`, ao ser publicada em 1952! Intitulava-se, ´VIDA CRISTÃ E PROBLEMAS DA SEXUALIDADE` ! Uma das razões da condenação que quase lhe acarretou a ´excomunhão` , residiu no
facto de o Autor mencionar duas vezes a famosa obra de SIMONE de BEAUVOIR ´Le deuxième sexe`.

MARC ORAISON ao apresentar a obra referida neste ´post`  afirma:

«O autor apresenta ao público esta obra, em grande parte para corrigir os erros que um anterior livro poderia conter, contra sua intenção. Esse livro foi objecto duma medida da Sagrada Congregação do Santo Ofício.
Nele, o autor não tomara, com efeito, suficientemente em conta a doutrina tradicional a respeito dos actos humanos.
Certos leitores poderiam - aliás erradamente - ter tirado dele uma conclusão segundo a qual se poderia pecar formalmente por malícia, nunca por fraqueza. Esta conclusão é contrária ao pensamento do autor, e se ele pôde levar a essa interpretação errónea e contrária ao ensino tradicional, pede desculpa.
Espera ele que o presente livro irá acalmar as dúvidas que a sua outra obra poderia ter suscitado.»

E na INTRODUÇÃO, continua a sua ´auto-crítica` (estou a pensar na similitude com ´O Zero e o Infinito`:
...
«Existe, em primeiro lugar, uma tomada de consciência, impulsionada pelo Magistério da Igreja, da importância moral de que o exercício da sexualidade se reveste. Parece, na verdade, que o fim do séc. XIX
e o princípio do séc. XX tinham mais ou menos perdido de vista esta importância. Sob a capa da ´boa educação` e da ´reserva`, o pensamento médio vulgar evitava olhar de frente para certos problemas e não
reflectia suficientemente sobre eles. Erros de juízo, por vezes grosseiros, tinham-se instalado como verdades
indiscutíveis (´deve gozar-se a juventude`, ´o homem deve ter feito várias experiência antes de se casar`, etc.). De resto e simultaneamente, uma determinada concepção da mulher - contra a qual protesta muito
mal, embora com razão, Simone de Beauvoir - dirigia, mais ou menos secretamente, as relações conjugais e sociais.» ...
...
Sou de opinião que MARC ORAISON agiu bem, tal como GALILEU...desta vez frente a outros
Cardeais, OTTAVIANI e PIZZARDO, pois assim o Médico, Psicólogo, Teólogo e Padre, pôde
continuar a sua obra e, finalmente, com a extinção do ´INDEX` pelo ´CONCÍLIO do VATICANO II`
conseguir entrar num novo patamar do modo como a IGREJA pensa as ´REALIDADES TERRESTRES`!

http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,836269-1,00.html

Le deuxième sexe de Simone de Beauvoir - Resultado da pesquisa de livros do Google

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

«JESUS CRISTO, O MORTO VIVO» - Marc Oraison




«JESUS CRISTO, O MORTO VIVO»
   Marc Oraison
Tradução de Armando Puga,
revista pelos Serviços Editoriais Arcádia
Revisão Tipográfica: José Luis Torres
Colecção: Biblioteca Arcádia / Religião
Capa e Plano Gráfico: Manuel Dias / Atelier Arcádia
Editora Arcádia S. A. R. L.
Lisboa - 1975
178 págs.
Nº de edição - 620
Título original: 
´Jésus Christ, ce Mort Vivant
Éditions Grasset  & Fasquelle
Paris- 1973


Certos movimentos ´hippies` , ´Godspel` , ´Jesus Christ SuperStar` são algumas das manifestações de um fenómeno novo, inesperado: neste mundo em crise, que o homem tenta compreender fora dos quadros tradicionais das ´Igrejas` , ressuscita-se Jesus de Nazaré.
Mas será ainda possível libertar de superstruturas, mais ou menos míticas, essa figura histórica e o fundamental da sua mensagem?
MARC ORAISON - sacerdote, médico e psicólogo - tenta uma resposta. Numa perspectiva crítica, independente de ´teologias`, sem concessões a mitologias fáceis. Com clareza e vivacidade.


Desde o início das manifestações juvenis de protesto, o que interessava nos protestos
dos ´hippies` era a afirmação de um certo estilo. Cabelos compridos, barba, vestuário
pobre e sujo, essa ´moda` ultrapassou as fronteiras da América. Os ´provos`da Holanda, levaram-na ao exagero. Qualquer que seja o aspecto utópico, ou até quimérico, destas atitudes, elas existiram e numa larga escala; o seu verdadeiro significado reside no facto mesmo de ter existido!





terça-feira, 28 de dezembro de 2010

MARC ORAISON, médico e padre católico - um Homem de grande coerência e coragem!





Autor de imensa e polémica obra, MARC ORAISON, nascido em 1914 em Ambarès, doutorado em Medicina e antigo interno dos hospitais de Bordéus, decidiu  matricular-se no Instituto Católico de Paris, onde alcançou em 1951 o Doutoramento em Teologia, com uma ousada Tese!
Este francês foi ordenado Presbítero e a ele se aplica a célebre frase de G. K. Chesterton: ´A Igreja pede-me para tirar o chapéu à entrada do Templo, mas posso manter a cabeça!
Teólogo interessado pelas questões que dizem respeito ao homem e à sociedade, por pouco conseguiu não ser ´excomungado` por PIO XII, em virtude das suas posições arrojadas; conseguiu escapar devido à intervenção de muitos teólogos de nomeada que acorreram em sua defesa!
A quando da promulgação da Encíclica ´HUMANAE VITAE` , em 1968, pelo Eminente PAPA PAULO VI e dado se querer dar ao seu conteúdo contra a contracepção um carácter de ´Infalibilidade` , opôs-se com tenacidade ao que seria um ´Dogma`, defendendo o direito à prevenção da natalidade através do uso da pílula!
Deixou imensa obra, alguma em colaboração com outros autores e faleceu em 1979, vitimado por um cancro!
Quer em Portugal, quer no Brasil, muitos dos seus livros foram traduzidos e publicados!


OBRA NO ORIGINAL (Sem levar em conta obras em colaboração):



L'union des époux / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1956 (Édition postérieur corrigé)
Une morale pour notre temps / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1964
Savoir aimer : pour une claire information sexuelle / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1964
 Le célibat : aspect négatif, réalités positives / Marc Oraison / Paris : Ed. du Centurion - 1966
 Le Mystère humain de la sexualité / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1966
Etre avec... La relation à autrui / Marc Oraison / Paris : Ed. du Centurion - 1968
La mort... et puis après? / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1968
 Psychologie et sens du péché / Marc Oraison / Paris : Desclée de Brouwer - 1968
Actualités : Vietnam, Israël, Prague, l'argent, les greffes, l'amour, les groupes / Marc Oraison / Paris : 
Arthème Fayard - 1969
Tête dure / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1969
Une morale pour notre temps / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1970
  Pour une éducation morale dynamique : changement d'optique nécessaire / Marc Oraison / Paris : 
Arthème Fayard - 1970
  La transhumance / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1970
 Vocation : phénomène humain / Marc Oraison / Paris : Desclée de Brouwer – 1970
Le hasard et la vie / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1971
Dépasser la peur / Marc Oraison / Paris : Desclée De Bouwer - 1972
 Vie chrétienne et problèmes de la sexualité / Marc Oraison / Paris : Lethielleux - 1972
Jésus-Christ ce mort vivant / Marc Oraison / Paris : Grasset - 1973
Le temps des alibis / Marc Oraison / Paris : Seuil - 1973
  La culpabilité / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1974
 La question homosexuelle / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1975
 Au point où j'en suis... / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1978
La prostitution... et alors? / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1979
Ce qu'un homme a cru voir, mémoires posthumes / Marc Oraison / Paris : Robert Laffont - 1980

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

«O TEMPO DOS ALIBIS» - Marc Oraison - (´Le Temps des Alibis`)



«O TEMPO DOS ALIBIS»
  MARC ORAISON
TRADUÇÃO:
ANTÓNIO CARLOS MURTEIRA
ORIENTAÇÃO GRÁFICA:
JOÃO MACHADO

LIVRARIA TELOS
PORTO-1973
TÍTULO ORIGINAL:
´LE TEMPS DES ALIBIS`
SEUIL - PARIS - 1973


Uma lenda - persistente como todas as lendas - diz que o avestruz esconde a cabeça na areia para não ver o perigo. É uma ilusão. Mas chama-se a isto a ´política de avestruz`...
O autor pergunta-se, neste ensaio sobre a sociedade moderna, se o homem de hoje não estará iludido na sua política de avestruz: iludido com as suas lendas, antigas ou modernas.
Chegou o momento em que os alibis se desfazem um  após outro. Já não se pode fugir à realidade. O homem vê-se confrontado com a sua nudez essencial. Tem de aceitar a sua condição de fragilidade. Os alibis, sejam eles os do progresso, da política ou outros, cada vez se mostram menos seguros como refúgio da ´boa consciência` .





                                                       CAPA DA EDIÇÃO ORIGINAL


......


- Não, senhor Juiz, não fui eu que matei. O crime foi cometido na noite de 16 para 17; ora, nesse dia, eu estava em casa duns amigos de ... dos quais vos participei o endereço. Não podeis acusar-me do assassínio: eu estava ´noutro lado`.
          Alibi...
Na realidade o alibi é isto: estar noutro lado. E está relacionado, duma maneira ou doutra com uma culpabilidade; é a fuga precipitada. O que se teme essencialmente
é ser acusado de alguma coisa que se fez. Foge-se; procura-se uma justificação. Busca-se exorcizar a todo o custo essa angústia fundamental e sempre a despontar que caracteriza o mais profundo da interrogação humana: a culpabilidade. Há momentos em que se impõe a necessidade de de fazer acreditar, ou de se acreditar que se está noutro lado, e não ´aí onde a questão se põe.`
Mas é insuportável que não haja culpado quando se dá um drama! É a contradição mais insuportável!...
Mas chega o momento em que a segurança do alibi se quebra. Apertando o inquérito,
o juiz de instrução demonstra ao réu que ele cometeu na realidade o crime de que se suspeita, conseguindo que a morte se desse no momento em que ele podia provar que estava noutro lado.
Se tentarmos tomar consciência de como vive a sociedade do nosso tempo, podemos perguntar se não se tratará do momento dramático em que o alibi de toda uma civilização está prestes a ruir, provocando a busca desesperada e incoerente de tudo que possa enganar, camuflar, ignorar esse abismo que se abre sob os seus passos.



sábado, 11 de dezembro de 2010

AGOSTINHO DA SILVA E TIMOR-LESTE - Entrevista a APOLINÁRIO GUTERRES



Como conheci o Prof. Agostinho da Silva?
Conheci o Prof. Agostinho da Silva por volta do ano de 1986 através de uma professora, amiga dos timorenses, que residia em Linda-A-Velha.
Em vários fins de semana, em geral, aos sábados, o Prof. Agostinho da Silva descia com a professora até a Quinta do Balteiro, Vale do Jamor, onde viviam os refugiados timorenses desde Setembro/Outubro de 1976, para conversarmos sobre Timor e os timorenses. Como vivem, o que fazem e o que esperam do futuro.


Quem era o Prof. Agostinho da Silva?
A partir desse primeiro encontro procurei conhecer mais o Prof. Agostinho da Silva. Soube depois que tinha estado no Brasil para onde se exilara por um longo tempo durante a ditadura em Portugal, porque era uma pessoa que defendia a liberdade de pensamento e de opinião e fora afastado do ensino. Que no Brasil fundara Centros de Estudos e Universidades. Era um pensador, um sábio.
No trato era uma pessoa simples, entusiasta, transparente e amigo. No falar cadenciado, reflexivo, apresentava o seu pensamento com uma visão ampla e projectada para o futuro. Sentia-se feliz, seus olhos brilhavam na sua venerável moldura de ancião, e ria-se de satisfação, quando nas conversas os nossos pensamentos e raciocínios convergiam e se completavam.
O Prof. Agostinho da Silva falava do devir, do futuro que se deveria ir construindo do melhor jeito possível para se atingir o que se pretende. Falava do futuro de Timor, da futura era do divino Espírito Santo. O senhor Padre Jorge Barros Duarte, timorense, natural de Same e residente em Lisboa, que também o conhecia, dizia-me que o Prof. Agostinho da Silva era um poço de sabedoria. Assim, quando me era possível, ia assistir às conferências e encontros do Professor. A partir de então, regularmente, enviava-me também a mim com a um dos seus amigos as suas conhecidas cartas para deste modo partilhar as suas ideias e pensamentos. Recebia ainda dele algumas breves cartas pessoais. Gravei as conversas que com ele tive no Príncipe Real. Tenho pena de não ter agora à mão alguma documentação pessoal para este nosso encontro de homenagem ao Prof. Agostinho da Silva, na comemoração do centenário do seu nascimento.


O que o Prof. Agostinho da Silva encontrou no Vale do Jamor?
O Prof. Agostinho da Silva nas suas idas ao Vale do Jamor, aí viu e contactou com a realidade timorense. Reconheceu aí Timor e os timorenses que vira e conhecera pela primeira vez no ano de 1963, na própria terra de Santa Cruz. Descobriu, porém, algo mais de especial. Ficou a conhecer e a sentir que o Vale do Jamor, em Portugal, era um recanto de Timor, distante e sempre próximo, onde as gentes de Timor, também cidadãos portugueses, viviam esse espírito de luta de resistência contra a invasão e ocupação estrangeiras do seu território. Território e povo para os quais e para outros territórios ultramarinos a Pátria Lusa de 25 de Abril quis que, em chegado o momento, se emancipassem e se tornassem países livres e independentes.
O processo de Timor para a descolonização estava interrompido e atrasado pela invasão e ocupação indonésias do território timorense. Contra elas os timorenses lutam e resistem heroicamente com o sacrifício de centenas de milhares de vidas. A força que lhes vem de Deus em quem acreditam, a força da razão e a lembrança do espírito dos seus antepassados aswa’ins, guerreiros, os sustentam na luta desigual, certos de que mais tarde ou mais cedo hão-de conseguir a liberdade e a independência.
O Professor ficou inteirado de que os timorenses no Vale do Jamor estavam organizados para defenderem os seus interesses sociais, económicos, desportivos, políticos, culturais e religiosos. A Comissão dos Refugiados de Timor, posteriormente, institucionalizado como um IPSS (Instituto Particular de Solidariedade Social) com o nome de COMUNIDADE DOS REFUGIADOS DE TIMOR, era a interlocutora directa junto dos vários organismos oficiais, nacionais e estrangeiros, para os acima referidos interesses dos timorenses. Como tal organizava cursos de formação profissional apoiados pelo IARN (Instituto de Apoio aos Retornos Nacionais), pelo Ministério dos Assuntos Sociais, Instituto de Emprego e Formação Profissional e pelo Fundo Social Europeu. Através dos seus grupos desportivos, Kablake, Samaruça, Sporting, Académico, os timorenses não só praticavam o desporto, mas também participavam nos torneios desportivos locais e inter-grupos. Os seus grupos artísticos Tebe-Tebedai e Bidu, Coro Misto e Coro Infantil Lorosa’e, e outros, eram conhecidos e actuavam no país e no estrangeiro como em França e Espanha. O Centro de Cultura de Timor com os objectivos de estudo, divulgação e defesa da cultura timorense, reunia vários investigadores nas áreas da História, Antropologia, Sociologia e Linguística.
O Centro de Acolhimento Colectivo do Vale do Jamor para os retornados e refugiados nacionais vindos dos antigos territórios ultramarinos, assistido e apoiado nos primeiros anos da sua existência pela Cruz Vermelha Portuguesa, era para os timorenses uma frente avançada da luta no exterior. Era rai lulik, terra sagrada, um ponto estratégico de resistência, de comunicação e divulgação da Questão de Timor. Ao Vale do Jamor afluíam políticos, jornalistas nacionais e estrangeiros, amigos e benfeitores, solidariedades e personalidades, de entre os quais se contam a Princesa Grace de Mónaco, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António ribeiro, D. Hélder da Câmara do Brasil, D. Duarte Pio de Bragança, embaixadores, deputados, representantes diplomáticos estrangeiros, artistas portugueses, estudantes e professores universitários e, no número destes, o próprio Prof. Agostinho da Silva.


O que o Prof. Agostinho da Silva queria para os timorenses no Vale do Jamor?
O Prof. Agostinho da Silva queria ter um pequeno grupo com quem pudesse encontrar-se regularmente para falar de Fernando Pessoa, de Portugal de Orlando Ribeiro, de Timor e de outras coisas mais. Não se realizou esta ideia no Vale do Jamor, mas sabendo que os timorenses tinham uma organização cultural, denominada CENTRO DE CULTURA DE TIMOR, cujos objectivos eram o estudo, a divulgação e a defesa da identidade cultural timorense no seu contexto geocultural e histórico e do qual eu era o presidente, o Prof. Agostinho da Silva escreveu-me a pedir a sua admissão no referido Centro. Foi com muita honra e satisfação que o admitimos como membro do mesmo Centro de Cultura de Timor. Assim, o Professor já tinha de facto um espaço onde pudesse falar para um grupo de amigos de Timor e timorenses que procuram estudar e reflectir juntos sobre a realidade social e cultural do povo timorense no momento dramático da sua história, frente a um genocídio físico e cultural, então, em curso.


Qual a visão, de então, do Prof. Agostinho da Silva sobre o futuro de Timor?
Não me lembro, nem durante as nossas conversas no Vale do Jamor, nem no encontro propositado que com ele tive na sua residência no Príncipe Real, de alguma opinião negativa ou pessimista do Prof. Agostinho da Silva em relação ao futuro de Timor, então, invadido, ocupado e martirizado pelas Forças Armadas da Indonésia. Antes pelo contrário, falava de Timor como sendo, uma realidade na sua visão, um futuro país livre e independente, por que, então, os timorenses ainda lutavam denodadamente e Portugal, cumprindo as suas obrigações morais, constitucionais e históricas, se esforçava nos areópagos internacionais para encontrar uma solução digna, justa e honrosa para a Questão de Timor. Assim, numa das últimas comemorações do aniversário do Centro de Cultura de Timor em Pedrouços, Belém, na sua intervenção nessa sessão comemorativa perante os membros e convidados reunidos, o Prof. Agostinho da Silva disse que no futuro Timor seria o ponto de convergência onde se encontrariam os falantes da língua portuguesa e castelhana, pois foi da Península Ibérica que os os povos iberos se expandiram para os oceanos e iniciaram e realizaram através da Epopeia dos Descobrimentos o estabelecimento do contacto de culturas e as ligações entre os povos de além-mar. E na imensidão das ilhas e oceanos do Pacífico e da Oceânia, Timor de facto é esse ponto único de convergência. O Prof. Agostinho da Silva, um profeta? Olhemos agora para o nosso Timor-Leste, país soberano, livre e independente, a construir-se com os apoios necessários vindos de vários países, inclusive, Portugal, apoios financeiros e de recursos humanos internacionais, e tiremos as nossas conclusões, anotando que ainda é apenas o início de uma caminhada.


O que era Timor para o Prof. Agostinho da Silva?
O Prof. Agostinho da Silva contara-me que tinha conhecido Timor nos anos sessenta e sentira-se muito ligado a Timor e às suas gentes. E o seu maior desejo era voltar a Timor, ir viver para Tutuala e lá depois morrer. Morreu, porém, em Lisboa no dia 3 de Abril de 1994. Quando ia para visitá-lo ao hospital, faleceu. Concelebrei na Missa Exequial do seu funeral e com mais outro colega sacerdote realizámos o seu enterro no Cemitério do Alto de São João. Paz à sua alma, ora liberta das limitações e contingências que ele no seu viver, agir e pensar quis sempre superar.


Conclusão.
Como se afirma na Lusa de 13 de Fevereiro de 2006, o Prof. Agostinho da Silva continua a ser um pensador controverso e enigmático, ou no dizer do ensaista Eduardo Lourenço, ele ‘não era parecido com ninguém, excepto com ele próprio’ e o mesmo lamentou que a sua obra ainda esteja ‘pouco estudada’. Estudando a sua obra conhecê-lo-emos mais e melhor e descobriremos os percursos da riqueza do seu pensamento.
O Prof. Agostinho da Silva não regressou a Timor para viver em Tutuala e lá morrer. É verdade. Mas, o Prof. Agostinho da Silva está hoje presente em Timor e nesta sala e nesta sessão comemorativa do centenário do seu nascimento. Está presente na nossa memória e nos nossos corações e a sua profecia está a cumprir-se.


NOTA: o Dr João Aparício,adido para a educação,é irmão do Padre Apolinário Guterres

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

«A DEMOCRACIA AMERICANA» - ´Teoria e Prática` - Arthur A. Ekirch Jr. (´The American Democratic Tradition: A History`)




«A DEMOCRACIA AMERICANA»
      ´TEORIA E PRÁTICA`
ARTHUR A. EKIRCH Jr. (1915-2000)
Tradução de Álvaro Cabral e Constantino Paleólogo
da 1ª edição, 1963.
ZAHAR EDITORES 
RIO DE JANEIRO - 1965


Título original:
´THE AMERICAN DEMOCRATIC TRADITION: A HISTORY`
The Macmillan Company
NEW YORK
USA (1963)


O credo democrático, formulado pela primeira vez em Atenas, há quase três mil anos, continua sendo um artigo de fé moderno, constantemente revitalizado por novas interpretações, redefinições e críticas.
Não é necessário salientar a importância da democracia americana no mundo actual, havendo a respeito uma extensa literatura publicada, que vai dos manuais escolares às eruditas indagações sobre teoria e filosofia política.
Contudo até à publicação da presente obra, nenhuma outra havia ainda tentado investigar e analisar tanto a ideia quanto a prática da democracia em toda a  extensão da história americana. Destinou-se esta obra a satisfazer a necessidade de uma história da democracia americana considerada em termos de teoria e ideias sociais bem como de prática e realidade políticas.
A despeito das suas limitadas proporções, este livro apresenta  um sumário razoavelmente completo (e por que não ´premonitório` ?) da história da tradição democrática americana. Essa tradição não tem sido estática, mas, antes, dinâmica, afirmação que talvez seja ainda mais verdadeira no que concerne à relação com os
anos recentes, com o realce crescente dado até há poucos anos à democracia social e económica.
Apesar do indiscutível progresso da democracia, muitos problemas - alguns já seculares - permanecem sem solução. A dificuldade de realizar a democracia na prática em sua plenitude não deve, contudo, implicar a nossa renúncia quer no que respeita ao passado, quer às esperanças no futuro.


ARTHUR A. EKRICH Jr. , escreveu dez livros, dezenas de artigos, e mais de cem resenhas de livros!

http://skocky-alcyone.blogspot.com/2010/07/reflexoes-sobre-revolucao-de-nossa.html

http://www.independent.org/aboutus/person_detail.asp?id=1373
http://www.historians.org/perspectives/issues/2000/0005/0005mem1.cfm

«A REPÚBLICA AMERICANA» - RAYMOND LÉOPOLD BRUCKBERGER



«A REPÚBLICA AMERICANA»
  R. L. BRUCKBERGER
Tradução de Mercedes Zilda Cobas Felgueiras
EDITORA FUNDO DE CULTURA
RIO DE JANEIRO - 1960


Traduzido do original francês:
´LA RÉPUBLIQUE AMÉRICAINE
COL. PROBLÈMES ET DOCUMENTS
GALLIMARD
PARIS - 1958


O Autor é um Padre Dominicano que é um ícone da cultura e da ´RESISTÊNCIA`, ocupando um lugar único na História da França do século XX ( viveu entre 1907 e 1998). Condecorado com as mais altas distinções devido à sua luta contra o invasor nazi, arrostando com a  prisão pela ´GESTAPO` e os sacrifícios da luta como um dos dirigentes do ´Maquis`!
O PADRE R. L. BRUCKBERGER foi co-siganatário do saneamento dos homens de letras colaboracionistas, ao lado de ALBERT CAMUS, MICHEL LEIRIS, GABRIEL MARCEL, FRANÇOIS MAURIAC, JEAN-PAUL SARTRE, PAUL VALÉRY, entre outros!
Dado o facto do CARDEAL SUHARD, ARCEBISPO DE PARIS, ter recebido na CATEDRAL DE NOSSA SENHORA DE PARIS, o Marechal PÉTAIN e o Comandante alemão de Paris, opôs-se veementemente ao desejo do General DE GAULLE na escolha da referida Catedral para celebrar em  26 de Agosto de 1944, a Libertação de França do jugo NAZI-FASCISTA! Achava que a celebração deveria ter lugar na Catedral de NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS...porém a sua vontade não foi respeitada!


A presente obra foi dividida pelo Autor em duas partes, ambas sob o tema da Revolução Política americana, a quando da sua independência. O Autor compara-a à Revolução Francesa, quase contemporânea. A segunda parte dedica-a à Revolução Industrial e Social, iniciada fazia 50 anos na América e que modificou 
profundamente toda a estrutura da sociedade. O Autor mantém na análise o seu método analógico e na segunda parte intenta uma comparação entre a Revolução Americana e a Revolução Bolchevista, no que concerne aos aspectos industrial e social.


Este alto dirigente da Resistência Francesa, distinguiu-se como homem de letras e pensador vigoroso da França do século XX. Podemos estar certos que a obra aqui apresentada não é, decididamente uma obra comum. BRUCKBERGER mantém-se fiel a uma tradição que vem de longe- a de Alexis De Toqueville e de James Bryce. Este livro é a análise da civilização norte-americana, no que tem de original e no que tem em comum com a Europa.
A obra é fruto de muitas viagens e leituras, de encontros e estudos pessoais através do continente americano.
Na introdução afirma o Autor: ´Estou convencido que os Estados Unidos resolveram, na essência, alguns dos problemas que mais atormentam a consciência europeia. A essa herança ocidental trazem eles uma contribuição positiva, a sua fecunda diferença, como, em outras épocas, a Inglaterra, a França ou a Espanha trouxeram suas contribuições e suas diferenças. Essa contribuição americana, como todas as outras, só difere porque é viva, e se não vemos desde logo como fazer concordar essa contribuição com a herança comum, é porque ainda não desenvolvemos suficientes esforços nesse sentido. Parecendo-me a descoberta desse país infinito ser de importância, tentei pelo menos compreendê-lo`.






´IMAGES OF AMERICA`
Tradução em língua inglesa de C. G. PAULDING e VIRGILIA PETERSON
e Introdução de DANIEL MAHONEY
1960


                                      PADRE RAYMOND LÉOPLD BRUCKBERG (1907-1998)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

«MEMÓRIAS DA MINHA JUVENTUDE» - WINSTON S. CHURCHILL ( ´MY EARLY LIFE`)




«MEMÓRIAS DA MINHA JUVENTUDE»
      WINSTON S. CHURCHILL


Tradução de Leopoldo Nunes
EDITORIAL- SÉCULO
LISBOA - s/d (1941?)


Título Original:
´MY EARLY LIFE`
Thornton Butterworth
London, 1930


PREFÁCIO DO AUTOR:


Tendo aparecido já, várias vezes, diversas narrativas sobre as minhas aventuras de mocidade e tendo eu próprio publicado, há trinta anos, vários relatos das numerosas expedições em que tomei parte e das quais, de resto, descrevi mais tarde certos episódios, pensei reunir tudo, desde o início da minha vida, numa obra única. Em obediência a este critério, apelei para a minha memória e verifiquei, cuidadosamente, todos os factos a que me refiro em documentos que possuo. Tentei, além disso, durante o quarto de século que corresponde a esta narrativa, mostrar sucessivamente os pontos de vista relativos primeiro ao garoto que eu era então; e, mais tarde, ao estudante, ao aluno da Escola Militar, ao oficial subalterno, ao correspondente
de guerra e, finalmente, ao jovem político. Se estas opiniões diferem daquelas que hoje são geralmente aceites, devem ser consideradas apenas como a expressão de um período da minha juventude e nunca, a menos que o contexto o indique, como profissões de fé com carácter de actualidade. 
Ao reler, de novo, esta obra, apercebi-me de que pintei, de facto, o quadro duma época desaparecida.
A sociedade, as bases da política e os métodos da guerra tudo mudou de tal modo que eu antes nunca teria julgado possível essa transformação sem sentir uma violenta revolta íntima. Não quero, no entanto, ter pretensão de afirmar que essa transformação foi para melhor. Eu era um produto da era vitoriana quando os alicerces do nosso país pareciam firmemente assentes, quando a sua situação no comércio e nos mares não tinha rival e quando se consolidava, todos os dias, a grandeza do nosso Império e se afirmava o dever de a salvaguardar.
Nesse tempo as forças predominantes na Grã-Bretanha sabiam o que queriam e tinham a sua doutrina. Pensavam que podiam ensinar ao Mundo a arte de governar e a ciência da economia. Estavam convencidas da sua supremacia nos mares e, por consequência, sentiam-se tranquílas em  sua casa. Repousavam, pois, na certeza do seu poder e da sua segurança. Os tempos ansiosos e perturbados em que vivemos são muito diferentes. O leitor benévolo deve ter em conta esta diferença.
Parecendo-me que podia ter interesse para as novas gerações conhecer a história da mocidade dum homem que pertence ao passado, por isso contei co a maior simplicidade as minhas aventuras pessoais.


                                                                 WINSTON SPENCER CHURCHILL


´A necessidade de se exprimir pela palavra - escreveu um dia a mais categorizada biógrafa de Winston Churchill ( à época da edição portuguesa) - corresponde a um imperativo invencível da sua própria natureza física. As impressões que agem sobre o aparelho ultra-sensível do seu cérebro, desencadeiam forças e reacções que movimentam a palavra ´churchiliana`. Só depois dessas forçasse terem descarregado na ordenação dos seus pensamentos, formulados por escrito, ele regressa à paz e ao equilíbrio interiores indispensáveis à meditação e à acção. Por isso os seus discursos e os seus livros surgem esmaltados de análises das próprias sensações e dos sentimentos excitados do seu espírito privilegiado como pela acção
de um aguilhão`.
´Falando ou escrevendo - diz Lewis Broad - é sempre de maneira épica que ele se exprime. A palavra é para Winston Churchill a expressão mais animada e calorosa da vida. Pode dizer-se mesmo que é a própria vida`.
Esta verdade pode ser constatada mesmo num exame superficial da obra vastíssima que lega à posteridade. A variedade e a multiplicidade dessa obra literária, o romance, o ensaio, a história, a sátira, o panfleto, não exclui, de maneira nenhuma, a unidade de pensamento e a harmonia incomparável que constituem o seu traço predominante.
Se fosse legítimo escolher nessa obra um exemplo típico e definitivo do génio pessoalíssimo do homem que, 
mais do que qualquer outro, soube simbolizar e valorizar a época em que viveu, a escolha recairia, nestas
´MEMÓRIAS DA MINHA JUVENTUDE` , de uma frescura, de uma ternura e de um poder de comunicação para que dificilmente se encontrá paralelo em qualquer outra literatura do Mundo. De todas as revelações auto-biográficas que Churchill lega aos vindouros, e algumas revestem-se  do valor de um testemunho histórico e humano de incomparável significação, estas são, certamente as mais entusiásticas,
as mais francas e as mais sinceras.





                             O ´SÉCULO ILUSTRADO` anuncia o lançamento da presente obra






                                                         Capa da edição original





domingo, 28 de novembro de 2010

«O PROCESSO DAS TRÊS MARIAS» - ´DEFESA DE MARIA ISABEL BARRENO` - DUARTE VIDAL



«O PROCESSO DAS TRÊS MARIAS» 

´DEFESA DE MARIA ISABEL BARRENO`

DUARTE VIDAL

FUTURA 
PANFLETO
Panfleto nº 1
1974

«Não, a mulher não é nosso irmão; pela preguiça e pela corrupção fizemos dela um ser à parte, desconhecido, tendo somente o sexo como arma, o que não é apenas a guerra perpétua mas ainda uma arma que não é de guerra leal - adorando ou odiando, mas não companheiro franco, um ser que forma legião com
espírito de corporação, de maçonaria - mas de desconfiança de eterno pequeno escravo.»

Muitos homens subscreveriam ainda essas palavras de Jules Laforgue; muitos pensam que entre os dois sexos haverá sempre ´briga` e ´disputa` e jamais a fraternidade será possível entre ambos. O facto é que nem  
os homens nem as mulheres se acham hoje satisfeitos uns com os outros. Mas a questão é saber se há uma maldição original que os condena a entredilacerar ou se os conflitos que os opõem exprimem apenas um momento transitório da história humana».

Simone de Beauvoir, ´O Segundo Sexo`,
2º volume, edição brasileira, pág. 485.

«Vous avez raison Françoise, il ne faut pas écouter les faux prophètes qui disent aux femmes: ´Attention! Le jour où vous aurez les mêmes prérogatives que les hommes, vous déviendrez la femme-à-barbe.`
Ceux.lá ne savent pas que, pour aimer vraiment une femme, láimer dans tous les sens du terme, il faut la respecter et la tenir pour égale à soi.»

James de Coquet, in Figaro Litéraire, 13 Avril 1974

 -«E o que faremos, Madre Abadessa, que faremos?
-«Não houve pão para nós à mesa dos homens.»

Novas Cartas Portuguesas, 1ª edição, pág 80


                    A perseguição criminal das três autoras e do pretenso responsável pela edição de ´Novas Cartas Portuguesas` foi uma das últimas e das mais ridículas manifestações do espírito obscurantista que sempre caracterizou, em termos de feroz intransigência, o regime ditatorial derrubado a 25 de Abril de 1974!

A presente obra referente à defesa de Maria Isabel Barrento, além das alegações, é enriquecida com os depoimentos de Maria Lamas, José Gomes Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Augusto Abelaira, NatáliaCorreia, Natália Nunes, José Manuel Tengarrinha, de entre outros! 


                                                   Da esquerda para a direita:
                        Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa


              ...Os censores portugueses, com o maquiavelismo próprio das suas sinistras consciências,     remeteram as três escritoras, como autoras de um livro pornográfico, ´Novas Cartas Portuguesas`, para a Polícia encarregada da averiguação, dos delitos comuns.


       Tal actuação por pornografia e ofensa à moral pública, não foi mais do que um pretexto que escondia as
verdadeiras causas da perseguição criminal promovida, que eram, essencialmente, de natureza política.

sábado, 13 de novembro de 2010

«OS 60 DIAS TRÁGICOS DA FRANÇA» - RICHARD LEWINSOHN - 2ª edição




«OS 60 DIAS TRÁGICOS DA FRANÇA»
RICHARD LEWINSOHN
2ª Edição
PARCERIA ANTÓNIO MARIA PEREIRA
LISBOA-1941


Os 60 dias trágicos da França não é um relatório nem um folhetim: é uma bela narrativa, um estudo objectivo dos factos, vistos, efectivamente, de um dos lados da refrega, mas apresentados com toda a serenidade por
quem tudo observou e compreendeu e deles nos dá uma interpretação em que o maior mérito, evidentemente  o interesse não deixa que toda a verdade seja mais do que meia verdade, este livro é o primeiro que se publica, em qualquer língua, descrevendo-nos a impressionante série de factos que decorreram desde a invasão da Bélgica e da Holanda até à sessão extraordinária do Parlamento francês, em Vichy, durante a qual
o marechal Pétain recebeu o encargo de operar a reforma constitucional da França. O ambiente político e social, o aparelho militar dos beligerantes, o esboço geral da acção diplomática, os homens e os factos são apresentados em termos tais e com um paralelismo tão metódico e inteligente que o leitor formará sem dificuldade o seu próprio juízo, sem ter sido massacrado pela hecatombe dos documentos ou pretensamente influenciado pela retórica do autor.
Richard Lewinsohn, que assina este trabalho e que foi colaborador técnico de Paul Reynaud, foi um nome internacionalmente conhecido e consagrado, autor de obras disputadas pelos melhores editores de todo o mundo. As suas obras, quase todas escritas em francês, estão traduzidas em quinze línguas, destacando-se entre elas, ´L'histoire de la crise` e a sua famosa biografia do rei dos armamentos, ´Zahrof, l'européen mistérieux` . não estamos, por certo na presença de um romancista - nem de um historiador no conceito em que quase sempre se toma esta palavra, Mas estamos, por certo, em presença de um extraordinário e lúcido intérprete dos grandes fenómenos sociais, homem viajado e culto - porventura um verdadeiro polígrafo. No entanto, a sua predilecção pelos temas de natureza económica revela-se no último capítulo desta obra, em que o dr. Richard Lewinsohn nos traça  a sua curiosa tese sobre a primeira lição a extrair da guerra que se prolongava ainda - mas cuja primeira fase se encerra com a queda militar e política da França.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

«O DRAMA DE NUREMBERG» - CARLOS FERRÃO - EDITORIAL-SÉCULO - LISBOA - 1946




«O DRAMA DE NUREMBERG»
CARLOS FERRÃO (1898-1979)
EDITORIAL-SÉCULO
LISBOA-1946


´Enquanto estivemos a ser julgados,
pairaram na sala deste Tribunal os 
espectros de milhões de inocentes
sacrificados à nossa loucura e à
nossa ambição. Hão-de passar
milhares de anos até que se des-
vaneça, na memória dos homens,
a lembrança dos crimes que pra-
ticamos.`
                 
                        HANS FRANK


Durante mais de dez meses, na sala das sessões do Tribunal de Nuremberg foram julgados vinte e quatro indivíduos que o mundo se habituou a conhecer pela designação de ´grandes criminosos de guerra` . Esta era a aparência por detrás da qual se ocultava uma realidade profunda de cujo verdadeiro significado nem
todos se aperceberam de imediato. Mais do que os crimes praticados por duas dúzias de responsáveis foi o próprio crime de guerra que esteve a ser julgado e foi condenado em Nurmberg.
Autores conscientes da morte de milhões de inocentes, esses homens foram os comparsas de um drama a cuja representação a humanidade apavorada assistiu durante seis anos. A condenação dos comparsas foi o primeiro passo para a condenação do crime.
Tal é a lição de Nuremberg, que este livro de CARLOS FERRÃO, se propôs divulgar entre o público português.
Com os vinte e quatro réus de Nuremberg foram julgadas as seis organizações consideradas criminosas que contribuiram decisivamente para que o nazismo pudesse impor-se no Reich e alargar depois, através da guerra, a sua influência e o seu predomínio à quase totalidade da Europa. Essas organizações constituiam
o coração e o cérebro do regime que durante doze anos, encheu o mundo de terror e de espanto. Quem leu este livro encontrou a descrição da sua actividade e a prova objectiva feita contra elas a qual conduziu à condenação de algumas e levará depois ao julgamento dos seus filiados. Ler esta obra permitiu conhecer um dos aspectos mais impressionantes e esclarecedores da vida do Reich hitleriano e compreender as verdadeiras causa da 2ª Guerra Mundial.


NOTA: Pela primeira vez constituiu-se um Tribunal de Justiça Internacional para julgar actos deste tipo. O julgamento de Nuremberg teve uma importância e uma significação que excederam os limites do episódio sangrento que liquidou e transcendem os limites da época histórica em que se localizou. O jornalista americano Walter Lippman afirmou que os princípios jurídicos e morais que o regeram ficarão na linha
ascencional do esforço humano para submeter o instinto às regras do Direito, como um complemento indispensável da Magna Carta, do Habeas Corpus e da Decaração do Direitos do Homem. A semente lançada em Nuremberg vai afectar profundamente a resolução do problema crucial dos direitos e da paz.
Mais profundas do que as que resultaram do Pacto da Sociedade das Nações. Abrem caminho à Carta das Nações Unidas!...
Doravante impõe-se uma regra que liga indistintamente todos os seres humanos! Essa regra constitui o fundamento indispensável do novo Direito Penal Internacional!...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

«JEAN JAURÈS» - EMÍLIO COSTA - COLECÇÃO ´HOMENS E IDEIAS` Nº II





          «JEAN JAURÈS»
COLECÇÃO ´HOMENS E IDEIAS` - II
EMÍLIO COSTA
LIVRARIA PENINSULAR EDITORA
LISBOA - 1931


 ´UM DIA VIRÁ , TALVEZ, EM QUE SEREMOS
ABATIDOS PRECISAMENTE POR UM DAQUE-
LES QUE QUEREMOS EMANCIPAR. MAS QUE
IMPORTA, AFINAL! O ESSENCIAL, NÃO É QUE
ATRAVÉS DOS INÚMEROS ACIDENTES DA VIDA
E DAS AGITAÇÕES DA HISTÓRIA, SEJAMOS 
POUPADOS PELO FAVOR DOS HOMENS OU
POR GRAÇA DAS COISAS. O ESSENCIAL É QUE 
PROCEDAMOS SEGUNDO O NOSSO IDEAL,
QUE DEMOS A NOSSA FORÇA EFÉMERA AO
QUE JULGAMOS SER A JUSTIÇA E QUE FAÇA-
MOS OBRA DE HOMENS, ENQUANTO, NÃO 
VEM A HORA DO REPOUSO ETERNO, NO
SILÊNCIO E NA NOITE.
                                             JEAN JAURÈS



HOMENAGEM DEVIDA


A primeira vez que vi Jaurès e o ouvi falar, foi na grande sala de festas da ´Casa do Povo`, de Bruxelas. Tinha-se realizado uma conferência do ´Bureau Socialiste International`, para se discutirem vários assuntos, entre eles o da atitude dos socialistas em caso de guerra, Foi em março de1906, há um quarto de século. Muitas vezes depois, os socialistas de todas as cores haviam de discutir a mesma grave questão, e sempre com o mesmo resultado prático: o da impotência, no campo do impedimento da guerra. Àquela reunião assistiram as principais figuras do socialismo europeu, como Bebel, Vaillant, Kautsky, Keir Hardy, Hindman, etc.
Lembro-me muito bem do discurso de Jaurès me ter produzido uma forte impressão, tanto mais, quanto se estabelecia uma comparação com outros que também falaram, e que lhe eram manifestamente inferiores. Mau grado meu, sentira-me abalado pela eloquência e pela lógica que passava através das palavras daquele formidável orador: e era talvez esse abalo, o que, no fundo, irritava um pouco o meu amor próprio de
adversário de tendências, de Jaurès. E então, numa pequena crónica que enviei para um jornal operário de Lisboa, ´A Obra`, (bons tempos!) como que me vinguei do abalo sofrido, embora rendendo justiça à eloquência persuasiva do orador. numa forma com pretensões a humorística. E dizia: «Falou a seguir Jaurès. Que canário, meus amigos! Quem não estiver prevenido e tiver ainda algumas ilusões sobre políticos e parlamentares, cai-lhe no papo, pela certa. O que ele disse dos financeiros, de Marrocos, da guerra e do socialismo! E o mais bonito é que eram verdades como punhos; mas ele é político e como tal tem duas personalidades: uma para a massa e outra para os ´bureaus` e parlamentos». Chôco humorismo, como se vê,
a encobrir despeito pelo abalo sofrido; mas era preciso afirmar a ideologia contrária, não se fosse julgar que pertencíamos ao número dos iludidos e desprevenidos! Arrogância da mocidade e da inexperiência: tempo que custa muito a admitir a perfeita sinceridade, a boa fé, o idealismo dos adversários, mesmo quando eles
se chamam Jaurès!
Depois, mais algumas vezes o ouvi no Parlamento e em reuniões populares. A impressão da eloquência era sempre profunda; e como os anos iam passando, ia-se modificando o primeiro sentimento, o de despeito, substituído por uma admiração pelo tribuno e um respeito pelo idealista, não disfarçados, que nunca tiveram 
ocasião de se desmentir, antes, com os anos e a experiência que eles trazem, só se têm fortalecido.
Hoje, entre tantos grandes nomes que a ideia socialista conta, considero Jaurès como pertencendo às cinco ou seis maiores figuras, com Karl Marx, Reclus, Bebel, Kropotkine e Lenine. E se tive dúvidas em transcrever aqueles pobres palavras de crítica de há 25 anos, é com prazer que transcrevo as seguintes , que publiquei na revista ´Germinal`, em 1916, dois anos depois da sua morte, palavras mais serenas e harmónicas com o sentimento, ainda que continuasse sendo, como fora antes e sou ainda, contrário à orientação política que Jaurès seguia:
«Jaurès vivo, não teria evitado a  guerra nem lhe teria mudado o rumo; mas Jaurès morto, é uma grande força que se perdeu, em favor da paz; da democracia, do internacionalismo. Não há homens insubstituíveis, mas há homens que fazem muita falta e Jaurès é desse número. Estas nossas palavras são tanto mais insuspeitas, quanto Jaurès seguia uma orientação bem diferente, na luta social, da que nós seguimos. Mas é que faz sempre falta um homem cuja sinceridade é servida pelo saber e pelo talento. E há tão pouco disso!»
Se apesar da diferença de orientação, eu coloco Jaurès tão alto, é porque, mais do que um profundo espírito filosófico, mais do que um grande orador, mais do que um incansável propagandista e excepcional trabalhador, ele foi uma natureza essencialmente ´humana` , dentro do seu ideal socialista, profundamente
sentido. Jaurès era a ´Simpatia social` feita homem. Ninguém, que eu saiba, dentro dos servidores do socialismo, elevou mais alto esse dom de descobrir as relações de simpatia entre as várias correntes duma ideia, vendo o ideal no conjunto delas, ligando-se umas às outras, numa ascensão contínua do todo para o fim, que brilha lá no alto e ao qual todos aspiramos. E é bom adoptar por divisa o célebre ´Homo sum; humani nihil a me alienam puto` (´sou homem` ; e nada do que é humano é para mim estranho) é muito mmelhor, como Jaurès, senti-lo e praticá-lo.


                                                                                                         EMÍLIO COSTA




NOTA: É com espírito de ´serviço humilde` que transcrevo e digitalizo textos de grandes autores!
Por esse facto, só por necessidade citarei informações gerais que nada significam!... Citarei, sim, aquilo que o meu discernimento de estudioso erudito (desprovido de auxílio na digitalização e fazendo-o com grande dificuldade e ´pena`)...
Interrogo-me sobre a razão de ao pesquisar um item, ser enviado para generalidades ocas, que são úteis ao grande público e a omissão, decerto sem intenção, de
artigos em que esse item é citado, especialmente quando é algo que é ´seu`...


De grande segurança e isenção: JOÃO ARSÉNIO NUNES!


https://estudossobrecomunismo2.wordpress.com/category/coloquios-conferencias-debates/page/2/
http://www.ocomuneiro.com/nr9_10_angelo.html



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