Número total de visualizações de página

Os meus blogues

Os meus blogues...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

«A Irrupação do Maio de 68 ou o Pentecostes sem o ´Espírito Santo` »






«A CRISE FRANCESA DE MAIO-JUNHO DE 1968»

Alberto Castro Ferreira


´Sem a presença do Espírito Santo o Pentecostes não passa de uma vagabundagem intelectual,
um delírio que se transforma em fantasmas ou ainda como conto de fadas que perdeu a inocência`

Georges Gusdorf
´La Pentecôte sans l'esprit saint` , 1968, pág. 189



A década de 60 presenciou a che gada do homem à Lua. a celebração do Concílio Vaticano I I, a idolatria e o assassinato dos irmãos Kennedy, a Guerra do Vienam e do Médio Oriente, a invasão da Checoslo- váquia e as barricadas do Maio de 68 em Paris. Pensar que tudo isso aconteceria deixando indiferente toda uma geração de jovens, que pôde ver tudo nos seus televisores e para a qual tudo isso era mais do que notícias ou dados, porque componente das suas vidas em flor teria sido pedir o impossível!

Mas talvez todas as causas não bastem para explicar o que provavelmente a História registará como o fenómeno mais importante da década: a maior revolução juvenil de todos os tempos, ou, pelo menos, a mais séria crise da consciência geracional!...

Vejamos alguns dados concretos. Nos E.U.A., o número de graduados do High School (equivalente ao nosso ensino secundário ou médio), na população compreendida entre 25 e 29 anos, era em 1920 da ordem dos 20%; em 1930 de 27%; em 1940, de 38%; em 1950, de 52%; em 1960, de 61%; em 1965, de 70%. Nas estatísticas de meados dos anos 60, verifica-se que o número de matrimónios, cujos contraentes têm menos de vinte anos, é mais de seis vezes superior ao dos anos 40. Destes matrimónios, 50% produzem-se com gravidez prévia, e 50% também terminam em divórcio. E essas uniões juvenis são 50% de todas as celebradas nos E.U.A..

No mundo económico, surgiu um mercado especificamente juvenil, com um poder aquisitivo crescente e que, à medida que na moda predomina a pro­cura vertiginosa do novo, é determinado pela juventude que impõe os seus gostos e modas a outros grupos etários.

Mas, acima de tudo, a juventude (e sobretudo, a estudantil) lançou-se, como poucas vezes acontecera, a mudar tudo. É algo profundameme revolucionário, sem limites precisos nem fronteiras, que rejeita urna configuração filosófica como o Iluminismo, ou económico -sociológica como o Marxismo. Mais que uma ideologia, é um fenómeno de sensibilidade; talvez como na era romântica. Tudo está implicado: os dogmas religiosos, os principias éticos, os costumes vitais, o trajo e o cabelo; há uma vontade decidida de recusar o que existe, de o substituir por algo diferente, de esclarecer uma nova era e sobretudo uma nova vida.

Algo foi reconhecido por muitos: a juventude, e na vanguarda a juventude universitária, é o motor principal da mudança social e política, enquanto outros grupos, outrora dinâmicos, se foram integrando na sociedade urbana e de massas.

Um facto é certo: durante a década de 60, os jovens, e em particular os universitários, lançaram-se numa série de acções directas contra as sociedades estabelecidas, em países muito diversos. Muito se escreveu sobre o tema. Muitos dos factos prévios às grandes explosões passaram sem deixar rasto nos arquivos; os adultos tinham a propensão para pensar que eram coisas de rapazes, e a ideologia ainda dominante, a marxista, pretendeu tirar-lhes importância, porque não condizia com a sua convicção do proletariado como único motor revolucionário. Para os partidos comu­nistas, sem que fosse impeditivo de os utilizar ocasionalmente, tratava-se de fenómenos pequeno-burgueses, ou de desvios esquerdistas ou anarquizantes.

É uma realidade histórica que os estudantes e outros grupos juvenis tiveram ( e têm ) um papel importante, em certas ocasiões decisivas, na política de países tão diferentes como o Japão, Coreia, Sudão, Marrocos, Egipto, América La tina, França, Polónia, Hungria, Checoslováquia, Jugoslávia. etc. A sua par ticipação foi relevante na queda de Perón (1955) e Pérez Jimenez (1958). Na de Diem, no Vietnam, ( em 1963 ), na de Sukarno, em 1966. Os movimentos da Polónia e da Hungria, em 1956, e a Primavera de Praga em 1968, tiveram-nos como protagonistas. Em Maio de 1968, na França de De Gaulle os estudantes ocuparam a Sorbonne durante 34 dias, conseguiram da C.G.T. a greve geral, exigiram a defenestração dos Ministros, provocaram a dissolução da Assembleia Nacional e, criaram em definitivo, uma
emergência nacional que fará sair do poder o próprio De Gaulle, um ano depois.

E não adianta dizer que se trata de países subdesenvolvidos, ou de regimes totalitários ou autoritários. Repare-se no caso dos E.U.A. , a mais antiga das democracias modernas e a sociedade que fez um esforço maior em matéria de educação, Seymour Martln Lipset, o autor de «Political Man», que era um dos que estava convencido de que as sociedades industriais iam a caminho da desideologização e da desaparição das lutas sociais ensinava em 1964 na Universidade de Berkeley. Nesse ano estalou a revolta em Berkeley; Lipset dedicar-Ihe-ia um livro ( 1 ), mas perderia a sua Cátedra, varrido pela intransigência estudantil, e não apoiado, pela cobardia dos seus colegas. Desde finais de 1964, o movimento estendeu-se às principais Universidades americanas (sem excluir Harvard e Columbia), pressionou constantemente a Casa Branca, o Capitólio e o Pentágono, e aquelas grandes «multiversities» , que pareciam o modelo do futuro, foram na realidade o modelo da subversão estudantil mundial.

É claro que o fenómeno da contestação juvenil não é um fenómeno isolado; insere-se numa outra série de reacções paralelas contra a Grande Sociedade burocrática na qual nos coube viver. Viram-se após os anos «60», greves de médicos, de funcionários, de empregados da banca, de políticos e até de sacerdotes. Mas mesmo aqui poderia verificar-se uma influência da subversão juvenil: claro «sinal dos tempos». Enquanto os partidos socialistas e mesmo os comunistas, perderam dinamismo e garra, vemos por todo o lado juventudes contestatárias, guerrilhas urbanas de jovens e outros focos semelhantes. C. Wright Mills ( 2 )depois de observar o andamento das coisas em Cuba e nos EUA, assinalou, pouco antes de morrer em 1962, que não seriam os proletários, mas os estudantes e intelectuais, os principais iniciadores de novas mudanças históricas.

Mas o interessante, como já foi referido, é que a subversão político-social, na juventude, não é em princípio. algo autónomo ou separado do resto. Não existe distinção entre vida pública e vida privada. Não há o reflexo de uma Filosofia, como no século das Luzes. ou de uma mera ideologia, como no século XIX. Há uma nova sensibilidade, uma nova estética, novos comportamentos. uma nova maneira de entender a comunidade humana. Existe uma verdadeira mutação vital na juventude; demasiados impactos de bombas atómicas, de viagens espaciais, de notícias espalhafatosas explicam-no de sobejo.

Os jovens de 60 nem sempre leram Marcuse ou os seus intérpretes, e quando se meteram a escrever a sua doutrina, como os irmãos Cohn-Bendit ( 3 ), não produziram nada importante. E, sem dúvida. pressentem para onde vão; envolvem-no numa estética que lhes é própria, desenvolveram um novo sentido de comunidade. Quem quer que tenha visto representar "Hair" ou haja assistido a um festival de música «pop» sabe o que se quer dizer!...

Sem desprezar nenhum factor, parece que nos encontramos ante um sintoma de uma crIse mais profunda. Há que recordar os movimentos místicos do Oriente que comoveram a tessitura social da Grécia e de Roma, e que também utilizavam a música e o ritmo como elementos básicos de participação. Já Platão adverte que ´deve ter-se cuidado com a mudança para um novo género musical, que pode pôr tudo em risco. É que nunca se abalam os géneros musicais sem abalar as mais altas leis da cidade` ( 5 ).

Os 400.000 jovens que se reuniram no grande festival de «Woodstock», em Agosto de 1969, como de seguida em outros locais, gigantescas massas, em plena liberdade de álcool, de sexo, de droga, de palavra, estavam unidos por esses ritmos hipnóticos e obsessivos, que voltam a unir os jovens modernos como acontecia nas tribos primitivas. São um sinal dos tempos, como as colónias «hippies» do Nepal e de Formentera.



Cerca dos anos 66-67, produz-se uma renovação mundial da música. O mundo começa a povoar-se de discotecas, mais ou menos elaboradas, nas quais a música amplificada e controlada electronicamente, cria um ambiente psicológico novo. Uma estranha combinação de linhas melódicas ( procedentes. em parte, dos «blues», dos «spirituals» e de cantos tradicionais, mais ou menos «camp», de ritmos obcecantes ( a música «rock» ), e de baladas ou canções de intervenção crítica da opressão do pobre ou do negro, etc. fundam uma experiência colectiva de muito «alta voltagem». Grupos inteiros e não pessoas ou famílias, com uma clara personalidade, participam nesse ambiente, modelam nele uma energia colectiva, unem-se na rejeição do mundo exterior.

Canções como «We shall overcome», nascida nas lutas de Berkeley , deram a volta ao mundo. Surge um novo tipo de rapsodos como Pete Seeger, como Joan Baez, como Glenn Chendler, como Bob Dylan. A música rock'n folk, síntese do ritmo agressivo e do tema social, conseguiu interessar e preocupar. «Rock + Folk + Protest» = an empting new sound. Alguns títulos como «Eve of Destruction» e «Like a rolling stone», converteram-se em cânticos de guerra universais.

Os Beatles intentaram uma fiilosofia ateia, e até pretenderam fundar uma nova religião, com a ajuda de Maharishi seu Guru privado. Derek Taylor, o seu agente de imprensa, disse certa vez: «Eu sou anti-Cristo, mas eles são tão anti -Cristo que me escandalizam, o que não é coisa fácil» É pouco conhecido o livro de John Lennon, que, como se sabe, teve um fim trágico: ´A Spaniard in the Works' . Aí surge Jesus o Pfico, um espanhol que come alho, molengão, pequeno e gordo, nitidamente representado de modo blasfemo.

Os novos jovens setentem-se gregários entre si e entendem o trabalho como uma realidade entre outras e não um dever ou uma maldição para toda a vida (6). A condição de solidariedade, de estar juntos ( together, togetherness) é muito importante; trata-se de compartiIhar a incompreensão, os trabalhos, de sentir a experiência das mesmas coisas, de fazê-las do mesmo modo, enfim, de algo, que sublinha a comunhão e a comunicação. Isso produz-se em grande parte em um «event», um acontecimenco entre muitos; mas tem propensão para a permanência, para a comuna ou colónia de vida em comum. Estamos na época do Living Theatre e do Happening (7).

Georges Gusdorf, ob. cit. pág. 167, a propósico dos grupúsculos de estudan­tes da Primavera de 1968, em França, diz-nos: "Basta evocar aqui o filme de Godard, ´La Chinoise` ( `A maoista` ), que passou nas telas muito antes da revolução de Maio. « Aí se via alguns estudantes de Nanterre, confinados num quarto alto e que viviam segundo modalidades rituais da sua invenção, uma espécie de vida comunitária sob a invocação e intercessão do messias Mao. As sagradas escrituras, na forma do pequeno livro vermelho (8) forram as paredes e são objecto de leituras regulamentadas e de comentários respeitosos. O fervor destes jovens, a sua exaltação contínua, testemunham a espera escatológica da transfiguração do mundo ( ... ) a maioria dos grupúsculos ( ... ) tentaram constituir a Igreja unida da adolescência universitária. Mas uma Igreja, se é que quer durar, não pode construir-se sobre as areias movediças da anarquia. A Igreja das barricadas teve o seu Cohn-Bendit; porém, não teve S. Paulo. De resto, devido aos seus preconceitos doutrinários, teria visto em S. Paulo um perigoso tecno-burocrata, prestes a cristalizar a inspiração em

instituição, e por conseguinte sujeito à ordem burguesa ou ao partido comunista, o que, aos olhos dos profetas de Maio, era a mesma coisa."

A juventude foi sempre um período de tomada de consciência própria e, por isso mesmo, de rebeldia. Agora porém, um conjunto de factores contribuiu para que tenham fracassado os mecanismos próprios de adaptação que tradicionalmente eram utilizados pelas sociedades.

Os três mecanismos mais importantes eram a família, a escola, e a Igreja. Este é sem dúvida um momento de perda simultânea da autoridade: do pai, do mestre e do sacerdote. Para o Professor Feuer, os motivos psico-éticos são factores de mudança social tão importantes como as forças económi­cas(9). Ainda segundo Feuer o equilíbrio geracional rompeu-se. Quanto à Igreja, os grupos religiosos têm propensão a adoptar uma atitude profética e não conformista.

Na escola o problema atinge; a sua máxima tensão. Nas Universidades, grupos massivos de estudantes quase sem contacto com os professores vêem prolongar-se cada vez mais o seu período de estudos. São socialmente irresponsáveis, mas sentem-se excepcionalmente comprometidos, com uma visão idealista de um mundo que não lhes agrada. Entregam-se generosamente a causas gerais: os negros, os pobres, os vietnamitas, a Humanidade.

Os intelectuais, os jovens clérigos, o professorado intermédio, etc., aderem a essas causas enquanto que, em geral, os dirigentes políticos e sindicais as olham com receio. Neste aspecto, como em muitos outros, contrapõem-se a Nova Esquerda e a Velha Esquerda. Falando de Maio de 68, disse Jean Ferniot: «A esquerda matou a revolução. Mas a revolução matou uma certa esquerda (10).

Convém ter em conta que, nas sociedades actuais, faz falta uma série de derivativos ao excesso de vitalidade juvenil. A eliminação quase total da guerra criou, nas grandes sociedades industriais, uma série de vazios psicológicos e institucionais. O aumento da criminalidade, da violência, têm a ver com isso. André Fontaine falou a esse respeito de uma situação de guerra civil fria, correspondente à guerra fria internacional (11). Tudo isso coincidiu com grandes aumentos demográficos e da educação: esses estudantes massificados, sem ocasiões de lutar, com uma política burocratizada, e cujo futuro profissional não se vê com clareza, convertem-se em contestatários(12). Um fenómeno muito interessante são as lutas entre bandos de jovens, numa manifestação irracional; lutas sem motivo, como de rebeldes sem causa. James Dean, precisamente, foi um dos protagonistas, em meados dos anos 50, do filme «Rebel without a cause» que em Portugal passou com o nome «Fúria de viver».

Provavelmente desde o período neolítico não houve um caso tão grave de rejeição de um ritual de iniciação, através de uma violência premeditada, como a da geração destes jovens, que se opõe em bloco à tradição, aos limites, à consciência, à integração.(13). ´A contestação é precisamente, a rejeiçâo da integraçâo. a rejeição total, inteira, das alienações pressentidas ou ressentidas' (14). Frente à hipocrisia da ordem dada enfrentam a provocação ( «provos» ) é o nome que tomaram, na Holanda).

Além disso há uma influência ( à rebours ) da revolução cultural chinesa, gerada como se sabe pela luta pelo poder dentro do partido comunista (15). A revolução cultural do Ocideme ataca sobretudo o niilismo de uma sociedade que só pensa no crescimemo económico. E, logicamente, os jovens tomam consciência face ao facto do poder. Daí o conceito de poder estudantil, de poder juvenil, paralelo ao de poder negro, etc. . A rebelião estudantil e juvenil desemboca numa acção política, mais ou menos coerente.

Ora bem, a reacção contra o velho, contra os pais conservadores, pode tomar as mais diversas fórmulas políticas, e isso porque ainda não encontrou a sua própria fórmula. Pode produzir comunistas, anarquistas, fascistas, peronistas, etc.

Nada seria mais errado que ver, no fundo de toda esta agitação juvenil, uma única causalidade, à maneira marxista. Um momento houve em que pareceu que a juventude ia encontrar ideais renovadores, a partir da ordem estabelecida.

Foi a época dos Kennedy no Ocidente, a da «Primavera de Praga» do outro lado. Os Kennedy foram assassinados, Jacqueline casou-se com Onassis, de quem ficou viúva, o outro Kennedy caiu em desgraça depois do escândalo que deu. Praga acabou como Budapeste. Então ficaram de sobra à juventude, Mao e a sua «revolução cultural», que também iriam ter um fim.

O tema político passou à escala mundial. Em todas as partes houve problemas. Na Alemanha começaram a agravar-se com a visita do Xá da Pérsia a Berlim, em 1967, no subsequente confronto com a cadeia de jornais Springer ( 1968 ); na tentativa frustada de assassinar Rudi Dutschke, dirigente do Socialisticher Deutscher Studenbund ( S.D.S. ) - Liga dos Estudantes Socialistas Alemães ( não confundir com Studenrs for a Democratic Society - S.D.S. ) dos E.U.A , que apoiou a ´tentativa` de candidatura do radical Eugene Mc Carthy, pelo Partido Democrático à presidência dos E.U.A. em 1968. Apesar de forte votação nas primárias, quem conseguiu a nomeação fui H. H. Humphrey, que nas eleições, foi derrotado por R. Nixon ). Fala-se na influência de H. Marcuse nos dirigentes estudantis. Sem dúvida, Rudi Dutschke era quem o conhecia melhor (16)!

Em França, todo o mundo seguiu com assombro as jornadas de Maio de 1968, onde, segundo alguns, tudo correu fora dos partidos, dos sindicatos, dos programas e das estratégias (17 ). Há razões para pensar que aquele movimento de incrível amplitude, fracassou por falta de consciência da sua própria força e também de preparação política (18). Há que recordar os incríveis debates do Teatro Odéon e do grande anfiteatro da Sorbonne (19), as excelentes reportagens fotográficas de Philippe Labro (20), para compreender a gravidade da rebelião estudantil, que não se deteve na Universidade, mas antes chegou aos rapazes de 15 e 18 anos, nos Liceus, onde se organizaram, e continuaram a existir e a dar problemas ao governo francês: os Comités de Acção nos Liceus ( C.A.L. ).

A sociedade americana, pouco tempo antes destes acontecimentos, parecia a muitos homens um sonho: o ´American Dream`. E, de repente, tudo muda. Os americanos perdem a fé em si mesmos; descobrem o problema racial, inteiram-se de que em todos os lados surge o anti-americanismo, enfrentam-se com uma grande guerra de tipo colonial(21). A juventude subleva-se.

Qual a explicação de tudo isto? É bem conhecida a de Herbert Marcuse(22), de ampla circulação, se bem que dele pode dizer-se que o que nele há de novo, não é bom, e o que há de bom não é novo(23). Para Marcuse, a racionalidade tecnológica produz a existência pacificada, e esta a racionalidade política, como domínio sistemática da natureza, da sociedade e da cultura. A classe operária aceitou o domínio com satisfação, a troco do consumo. A Ciência tecnificou-se, e a guerra fria substituiu o velho imperialismo, como motor externo, de superação de conflitos interiores, e de promoção técnica económica. Nesta sociedade, dominada e burocratizada, plena de alienações, que até se permite uma falsa tolerância, a única esperança cai sobre a juventude, para voltar a pôr de acordo o Eros e o Logos, se necessário pela violência. Para uma refutação global de Marcuse, cf. M. Bedoya, ´Marcuse y el Socialismo`, Madrid, 1970.

Nos EU.A., dizem-nos os críticos radicais, teoricamente, a Administração é técnica e neutral; praticamente, sem dúvida, acontece ser conservadora e favorável aos interesses criados. O controlo democrático funciona mal: a) por faIta de opções (p. ex. os dois candidatos, Humphrey e Nixon, defenderam a continuação da guerra no Viernam) ; b) por falta de informação adequada ( o que foi comprovado logo em seguida pelos documentos Mac Namara). Roberr Paul Wolff confirma este ponto: a liber­dade efectiva está tão organizada que muitos não a alcançam. Deste modo, será que os grandes Sindicatos representam verdadeiramente todos os trabalhadores? Nas eleições de 1973 o poderoso dirigente sindical George Meany referia, com uma frase insultuosa que não se pode reproduzir aqui, que nunca apoiaria Mac Govern. E assim foi; pela primeira vez na História, o candidato pelo partido Democrático à presi dência dos E.U.A., não contou com o poderoso apoio da AFL-CIO. O Estado Organização é assim autónomo, não submetido a verdadeiro controlo social (24). São cada vez mais os cidadãos que se submetem ou se resignam. É o que Arthur Miller chamou, em 1967, a ´Idade da Abdicaçâo`.

Perante esta resignação, os jovens não aceitam a neutralidade: ´Join Us` proclamam - participem todos - , em lugar de continuar o jogo da perpétua concorrência. O seu apelo é para um grande happening, ou acontecimento comunitário. De qualquer modo: ´Take Sides`: - não sejas mero espectador do que fazemos ou intentamos!

O Professor Chades Reich interpreta com optimismo tudo o que aconteceu. Enquanto outros falam de decadência, ele vê um reverdescer da América: Para um dos que estavam quase convencidos de que era necessário aceitar a fealdade e o mal, que era necessário ser um indigente de sonhos, é um convite para chorar ou rir. Para quem pensara que o mundo estava irremediavelmente incrustado em metal, em plástico, ou em pedra estéril, parece um verdadeiro ´reverdescer da América` (25).

Os anos 60 iniciaram-se em França sob o signo da luta, que quase atingiu a guerra civil, entre partidários da Argéiia francesa e partidários da sua independência. Quando em 1962 o General De Gaulle, que em 1958 foi reconduzido ao poder para manter a Argélia ligada à Franca, aceitou negociar em Évian com a Frente de Libertação Nacional da Argélia (F.L.N.A.) a independência da Argélia, sem dúvida uma página da história se virou face à incredulidade e indignação de muitos franceses (26). Daqui vai resultar o regresso de 1 .000.000 de franceses da Argélia a França, bem como a acção da Organização do Exército Secreto (O.A.S.) que tentará liquidar o general.

De Gaulle vai opor-se ao «Kennedy Round», tentativa do Presidente J. F. Kennedy de ligar os E.U.A. à economia europeia, nomeadamente à do Mercado Comum, o que de facto significava uma interferência com implicações políticas, procedimento que os americanos sempre tentaram desde o Plano Marshall e também no âmbito do «General Agreement on Tarifs and Trade (G.A.T.T.). Tudo isto culmina com a célebre declaração que De Gaulle pronunciou em 14 de Janeiro de 1963, na qual vetava a entrada do Reino Unido na C.E.E (27).

Porém, De Gaulle não se ficou por aqui. Em 22 de Janeiro de 1963 e contra a opinião de grande parte da esquerda, assina com Adenauer, Chanceler da R.F.A . , o Tratado de Amizade entre ambos os paises, destinado a fomentar a cooperação franco-alemã, o que "de facto" encerra as hostilidades iniciadas em 1939. A França não irá assinar o Acordo de Moscovo sobre a proibição dos ensaios com armas nucleares de 5 de Agosto de 1963, no que será acompanhada pela R. P. da China. De Gaulle, quer desenvolver a sua "force de frappe", pois no exílio de Londres aprendeu a desconfiar dos anglo-saxões.

Face à escalada americana no Vietname, De Gaulle vai mostrar-se desin­teressado e mesmo hostil, não esquecendo o comportamemo dos E.U.A. quando da guerra da lndochina, que conduziu ao desastre de Dien-Bien-Phu em 1954, bem como do veto e ameaça dos E.U.A. em 1956, durante as hostilidades com o Egipto de Nasser, a propósito da nacionalização declarada nesse ano do Canal do Suez, que lesava interesses franceses e britânicos.

No decurso de 1966 a França declarará o propósito de sair (até 1 de Julho de 1966 ) da integração militar da N.A.T.O., já que ela significava uma subordinação; os quarteis generais da N.A.T.O. terão de ser transferidos para fora da França até 1 de Julho de 1967. Em 27 de Novembro de 1966, De Gaulle reafirma a Wilson o mesmo que dissera a Mac Millan: incompatibilidade existente entre as estruturas económicas da Grã-Bretanha e a sua candidatura ao Mercado Comum!

Como é evideme, De Gaulle e o gaullismo não param de fazer inimigos! A seguir à guerra dos Seis Dias, De Gaulle anuncia o carácter anexionista da acção israelita desde 6 de Junho e mantém o embargo de armas para o Médio Oriente que, no fundo, se destina a atingir o estado judaico. Em Janeiro de 1969 reafirma o embargo de armas. As Forças Armadas e os Serviços Secretos de Israel infligirão à França a enorme humilhação das vedetas da base naval de Cherburgo. Mordechai Citrenbaum, à frente de comandos israelitas, consegue entrar na base de Cherburgo disfarçado de Almirante francês, o Almiratee Limon, que se faz acompanhar de imensa comitiva. Depois dá-se o que toda a imprensa noticiou: os Israelitas levam para Israel as vedetas embargadas, mas já pagas!

Contudo, De Gaulle em 1966 impede que se reaiizem em Paris as sessões, parciais ou totais, do chamado «Tribunal Russell» que vai julgar em 1966 e 1967 os crimes de guerra no Viemam. O presidente de honra é Bertrand Russell e o presidente do executivo é Jean-Paul Sartre. Em virtude da recusa de De Gaulle, o tribunal reunirá em Estocolmo(28). Mas por toda a França se organizam os Comités Vietnam de Base que vão permirir uma grande agitação e propaganda anti-americanas e servirão para fomentar a subversão nas Universidades e Liceus de França.

A decisão de estabelecer relações com a R. P. da China dada a conhecer em comunicado conjunto, datado de 27 de Janeiro de 1964, levantou dúvidas da parte da U.R.S.S. e protestos enérgicos da parte dos E.U.A. (29). Quanto à U .R.S.S. não se esqueça que era já do domínio público a sua luta ideológica, que disfarçava interesses de Estado, com a China. A U.R.S.S. via com apreensão o peso que, necessariamente, este reconhecimento dava ao Maoísmo, num país onde os russos tinham, pode dizer-se, duas representações diplomáticas: a normal e o P.C.F ...

Estava criado o ambiente para a desestabilização da sociedade francesa e para a irrupção de Maio de 1968!...
Alguns observadores e analistas sugeriram que só foi possível atingir o ambiente criado e atrás descrito, pela intervenção dos Serviços Secretos de Informação de certos países, que cotinuaram a actuar para a desestabilização da sociedade francesa, com discreção como é seu lema mas, decerto com eficácia!...

O ambiente universitário em França ia de mal a pior (30). As reformas" Rueff-Armand " (1959), «Christian Fouchet» (1962-1967) e «Alain Peyrefitte» (1967-1968) abalaram a Universidade ao pretender adaptar o ensino superior às necessidades da nova tecnologia. Nos E.U.A. essa adaptação fez-se naturalmente ao longo dos anos. Em França, diz-nos Touraine " o molde, já velho, não aguentou com a carga; e não foi substituído por um molde novo, apesar de um certo número de modificações parciais ". E logo a seguir diz que não se dispõe de análises e explicações para este fenómeno. Porem, afirma que «A crise da Universidade e a rigidez do sistema de decisão política e administrativa explicam a agitação, a revolta, a ruptura ( ... ) ". Logo acrescenta que isto nâo basta para explicar a formação dum movimento social que, além da Universidade e por meio dela, põe em causa o regime social e político no seu conjunto, como veio a acontecer.

A perplexidade de Touraine é partilhada e até empolada por Raymond Aron que dedicou um livro expressamente dirigido e dedicado à revolta estudantil : La Revolution introuvable, Paris, 1968, ( trad.
portuguesa A Revolução inexistente, Lisboa, 1969 ). Até ao fim da vida, R. Aron afirmou que havia factores misteriosos que escapavam a qualquer leitura (31). Na primeira obra citada na nota anterior diz na pag.
399 : " ( ... ) Hoje ainda, toda a tentativa de explicação, em termos de causa e de efeito, deixa um resíduo - um resíduo considerável. Consegue-se, quando muito, compreender - sugerindo esta palavra que se consegue, por um esforço de simpatia, " reviver " o clima destas jornadas e as experiências vividas dos autores ".
Na segunda obra citada a pag. 214 : " (...) existiram certamente outras razões que não vêm das relações entre os esquerdistas e os comunistas. Porém estas greves prolongadas, de milhões e milhões de operários, continuam hoje ainda relativamente misteriosas, porque nao houve sinais precursores "
Acontece que para além dos factores sócio-político-educacionais já apontados, se assistiu em França durante os anos 60 a uma reposição e reedição de obras revolucionárias, especialmente pela Librairie François Maspero, que funcionou para França mais ou menos como Giangiacomo Feltrinelli - editore, de Milão, funcionou para a Itália ( Feltrinelli teria uma morte trágica ao accionar uma carga explosiva ). Desde o início da década começaram a ser publicadas obras revolucionárias em colecções de formato de bolso, especialmente a ´10/18` da Union Générale D'Editions, e a "Idées" da Gallimard. Era um modo de colocar no mercado, a preços baixos, obras que há décadas não se encontravam! Aumentou também

a influência da Internacional Situacionista ( I.S. ) com as suas publicações extremamente corrosivas, que tudo relativizavam (32). Muito importante foi a edição em 1965, de um manifesto escrito em 1961 em Milão pelo " Núcleo M. " do " Fomento Obrero Revolucionario ", intitulado Para um segundo Manifesto Comunista (na década de 70 chegou a ser lançada uma edição em português ). Esta obra foi lançada em edição bilingue, françês -castelhano, pela casa " Eric Losfeld ", de Paris.

Mais deletéria ainda foi toda a série de publicações da área freudo-marxista : Marcuse, Reich, etc. veja-se o que nos diz E. Fromm em A Crise da Psicanálise, e isto, na continuação do que já foi referido atrás sobre Marcuse : ´ ( ... ) Em primeiro lugar, Marcuse, embora amplamente lido, comete vários erros elementares na apresentação dos conceitos freudianos. Assim, por exemplo, entendeu mal o " princípio de realidade" e " o princípio de prazer" de Freud ( ... ). Será possível que Marcuse comungue na falsa concepção popular, segundo a qual o " princípio de prazer " se refere à norma hedonística de que a finalidade da vida é o prazer? Freud, é claro, não disse nada disso; para ele, o princípio de realidade era uma " modificação" do " princípio de prazer ", não o seu oposto. O conceito freudiano do principio de realidade é que existe em todo o ser humano uma capacidade para rejeitar a realidade e uma tendência para proteger-se do perigo que uma satisfação incontrolada dos instintos poderia infligir à pessoa ( ... ). ( ... ) Não menos séria é a distorção da teoria de Freud no emprego que Marcuse faz do conceito freudiano de repressão ( ... ) a categoria central do sistema de Freud é ´repressão` no sentido dinâmico do reprimido ser inconsciente. Ao usar ´repressão` para os dados conscientes e inconscientes, todo o significado do conceito de repressão e inconsciente de Freud, se perde. ( ... ) Usando indiscriminadamente o conceito de repressão, Marcuse confundiu a questão central da psicanálise ( ... ) embora se descubra uma bonita fórmula que unifica uma categoria política e uma categoria psicológica através da ambiguidade da palavra. ( ... ) Um outro exemplo do tratamento dado por Marcuse às teorias de Freud é a questão teórica da natureza conservadora de Eros e do instinto de vida. ( ... ) Ignora que Freud ( ... ) chegou à conclusão justamente oposta, ou seja, que Eros «não» participa da natureza conservadora ( ... ). Quando despojado de boa parte da sua verbosidade, Eros e Civilização apresenta como ideal para o novo homem, na sociedade não-repressiva, uma reactivação da sua sexualidade pré-genital, especialmente sádicas e coprofílicas. ( ... ) Esse ideal da regressão à organização libidinal infantil conjuga-se com um ataque à supremacia da sexualidade genital sobre os impulsos pré-genitais. ( ... ) Em seu ataque contra o "domínio" genital , Marcuse ignora o facto óbvio de que a sexualidade genital não está, de maneira alguma, vinculada à procriação ( ... ). Marcuse parece insinuar que, em virtude das preversões - como o sadismo e coprofilia - não poderem resultar em procriação, elas são mais ´livres` do que a sexualidade genital. ( ... ) De facto Marcuse elaborou uma teoria que é o oposto de tudo o que é essencial no pensamento de Freud ( ... ); isso foi realizado mediante a citação de frases fora do seu contexto ( ••• ) ou pela ignorância pura e simples da posição de Freud e ( ou ) do seu significado. " (33).
Tudo o que foi referido deve ser ligado às repercussões que teve na sociedade e na cultura francesas a edição, em 1960, da obra Le Matin des magiciens (34), tendo como autores Louis Pauwels e Jacques Bergier, dos quais só o primeiro ainda vive ( «1988» - Pauwels já faleceu ). Esta obra que tinha o sub-título de Introdução ao Realismo Fantástico iria ter fortuna em França e em todo o mundo ocidental, através de traduções e, particularmente, através da revista a que deu origem o movimento do Realismo Fantástico, a ´Planète`, cujo primeiro numero saíu no fim de 1961. A Planète , por sua vez passou a sair em vários países, na língua respectiva.
Quem lesse o Despertar dos Mágicos e ( ou ) as primeiras revistas Planète, logo se apercebia que se estava perante um ataque à Religião Cristã e particularmente à Grande Igreja, a Católica, como lhe chamou Inácio de Antioquia. O ataque também visava o materialismo histórico! Quanto ao ataque ao cristianismo, para quem tenha dúvidas basta transcrever umas tantas linhas do " Dialogue Imaginère ", inserido no nº 2 da revista referida e assinado por Pauwels : " Credes vós que precisamente onde as legiões romanas não aclimataram nunca


a sua religião, na Gália por exemplo, ou na Grã-Bretanha, os soldados de Cristo encontraram uma terra virgem de pensamento e deuses? Em mil lugares da nossa velha Europa, nos "landes ", nas planícies com menhires, no fundo dos " maquis " e nas margens onde cantava Pan, subsistia a religião indígena vinda da noite das idades, a verdadeira religião do homem oci dental ". Aqui está uma declaração que soa a " Nova Direita ", ainda que " avant la lettre » . De resto não vai depois Pauwels ligar-se à «Nova Direita» e dar-lhe todo o seu apoio? Pauwels, hoje convertido ao catolicismo, como graças a Deus o autor destas linhas, pertencia à «Grande Loja de França».

Concerteza não foi de todo alheia à sua conversão a autocrítica que Jean-Marie Paupert escreveu e editou em livro no princípio da década de 80, ´Péril dans la demeure`. Depois de dois livros infelizes e que tanta gente desorientou (35), chegou ao ponto de afirmar na obra acima referida que «être catholique aujour­d'hui c'est être reactionnaire» . É uma autêntica passagem à «enantiodromia», como diria o velho Heraclito! Como se pode ver, também Paupert, como outros a seguir ao 2º Concílio do Vaticano, veio semear a confusão entre as ovelhas do Senhor!
Porém, a Igreja tem a experiência que lhe confere os dois milénios da sua existência, tem um magistério seguro e, claro está, a assistência do Espírito Santo. O mesmo não acontece ao Partido Comunista Francês ( P.C.F.), nem ao Grande Oriente de França ( G.O.F.). O primeiro formou-se em 1920 no congresso de Tours e nasceu de uma cisão no seio da Secção Francesa da Internacional Operária ( S.F.I.O. ). O segundo tem as suas raízes no século XVIII, com o aparecimento da chamada ´Maçonaria Especulativa`. Ambas as organizações dispõem em França ( 1988 ) de uma instituição que permite o trabalho em comum de muitos dos seus membros, a ´Union Rationaliste`. Constactando que era preciso fazer face à vaga de irraciona- lismo desencadeado pelo Realismo Fantástico que, se afectava a Igreja, maior perigo fazia correr ao P.C.F. e ao G.O.F.,

em 1964 publica o Dictionnaire Rationaliste, organizado por ordem alfabética, ferozmente anti-clerical, anti-cristão e ... anti ´realismo fantástico`. Ainda em 1964 começa a ser publicada uma revista com o formato da Planète e
que tinha por nome JANUS. O primeiro numero era dedicado ao tema - Le christianisme entre les poissons et le verseau. Saíram apenas alguns números e a «Janus» não conseguiu o que tanto desejavam os seus editores: substituir a Planète ... O numero 8 saiu no Outono de 1965.

Este fracasso levou a «Union Rationaliste» a entrentar pública e abertamente o movimento ´Planète`, lançando ainda em 1965 um número único com o formato da revista ´Planète, intitulado Le Crepuscule des magiciens, que nesse ano teve uma segunda ediçao, com uma carta-prefácio de ]ean Rostand. Alguns dos colaboradores desta última publicação foram-no também do Dictionnaire Rationaliste. A direcção da ´Planète`, sabendo que tinha público e que nada tinha a temer da Union Rationaliste, respondeu displicentemente, pela pena de Jacques Bergier no nº 25 de Novembro-Dezembro de 1965, através dum pequeno artigo intitulado de propósito "Le Crépuscule des magiciens et le matin des ânes". Acontece que a ´Planète` se auto-suspendeu depois de Maio de 68. O último número é o 41, Julho-Agosto 1968. Porém, não era intenção de quem a dirigia, suspender a revista definitivamente, antes dar início a um «recomeço», reatar aproveitando o paroxismo gerado pelas paixões e desilusões de Maio-Junho. Assim em Setembro-Outubro de 1968 saía a nº 1 da revista Le Nouveau Planète, inserindo nas últimas páginas um estudo sobre W. Reich e textos do mesmo.

Pelo que se vê, tudo em França se conjugou para que o inconsciente colectivo da humanidade, que já dava tantos sinais de perturbação por todo o mundo, encontrasse Paris a pouco menos de dois anos da celebração do centenário da Comuna (36), disponível para uma irrupção, que de novo escolhia a «Cidade Luz» como «epicentro» e porque aconteceu numa democracia, não teve consequências políticas graves. Realça-se a importância do factor democrático, pois em Outubro do mesmo ano no México, quando do início


dos Jogos Olímpicos de 68, os jovens não tiveram tanta sorte, sendo encurralados na Praça das Três Culturas, e mortos, feridos, presos ou escorraçados pelos todo-poderosos «senhores» do «Partido Revolucionário Institucional " , que para o efeito se chegaram a servir de heli-canhões. Malraux, falando da complacência do governo francês e dos violentos ´quanto-basta` C. R. S. - ss ; o ss é dos " enragés " e o CRS ( Comitês Republicanos de Segurança ) do socialista Jules Moch que os criou para «partir os dentes» ao PCF durante o governo Ramadier , dizia que um adido da embaixada da R.F.A. em Paris lhe referira que o que se passara em Paris era uma brincadeira comparado com Berlim e a Alemanha de 1919, onde o Spartakusbund foi lite­ralmente arrasado ... pelo SPD e pelos Corpos Francos.



O Prof. A.H. de Oliveira Marques ( aproveito para me curvar em sua saudosa memória! - 2008 ) em A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo, Lisboa, 1975, obra dedicada " Ao Mário Soares e ao Coimbra Martins " ( sic ) e que traz reproduzida a fotografia do grande patriota General Norton de Matos, autor de Nação Una (37), dá a entender que para a Maçonaria o Maio de 68 teve um saldo positivo. Na página 16 diz: " Após Maio de 68, em França, foram alguns milhares os jovens da casa dos 20 e 30 anos, directa ou indirectamente ligados à insurreição parisiense, que requereram iniciação na Ordem. Porquê?!... A explicação destes e doutros fenómenos ficará, contudo, para outro artigo. Pelo que se vê, às " Catequeses Baptismais» de Maio, seguiu-se a « Catequese mistagógica " ! ...

Edgar Morin e outros debruçaram-se sobre este retorno do mágico e do paganismo, tendo analisado o movimento Planète (38). Morin termina assim o capítulo intitulado ´A Nova Gnose ` : " Uma autêntica crítica a Planète não pode ficar indiferente ao grande pôr em questão das ideias deste século. Não poderá ignorar os grandes problemas do homem, do seu destino, da angústia do mundo, que como nunca, levantam os grandes desenvolvimentos científicos e a revolução selvagem que arrasta a humanidade. A verdadeira crítica a ´Planète` só pode ser feita numa perspectiva planetária» ( pág. 221 da trad, portuguêsa ). Edgar Morin também estudou o fenómeno «Hippy», deslocando-se para isso propositadamente à Califórnia, de aí o seu ´Journal de Californie`, Paris, 1970. Um eco das impressões que recolheu pode ser lido em «Os Hippies quem os conhece?», conjunto de textos de várias proveniências, editado em Lisboa em 1970; o texto de Morin intitula-se «Um sociólogo entre os ´hippies`. É porem, interessante referir que nunca o autor destas linhas encontrou qualquer referência a uma obra que surgiu em Paris, precisamente em 1968, primorosamente ilustrada e traduzida, e que representava para os ´hippies` o mesmo que o Pequeno Livro Vermelho representava para os maoistas. Trata-se de Le livre rose du Hippy, de Paul Muller em colaboração com Michael Wernhaum e editado pela Union Génerale d'Éditions ( é coletânea de textos verdadeiramente impressionante ). O exemplar que possuo advém de uma troca feita com o saudoso ARTUR HAIA, efectuada no 1º FESTIVAL DE «VILAR DE MOUROS» ( 1971 )...
Passa-se a indicar alguns marcos importantes na formação, desenvolvimento e final mente intervenção da esquerda estudantil, apoiada cada vez mais por docentes ( deve ter-se presente que um dos dirigentes principais, quiçá o mais importante, do movimento do Maio de 68 era Alain Geismar, secretário do Sindicato Nacional dos Professores do Ensino Superior ( SNE sup ) .
No início de 1962, reforma das Faculdades de Medicina, Direito, Farmácia e Ciências; Abril de 1963 - Congresso de Dijon da União Nacional dos Estudantes de França ( UNEF ); Junho-Julho de 1963, início do debate sobre a crise da Universidade - artigos de R. Aron, J. Guitton e Papillon; fim de 1963, publicação do artigo de L. Althusser na " Nouvelle Critique " : Problèmes étudiants; Dezembro de 1963, prossegue o debate universitário - artigo de A. Touraine no «L'Express»: Créer l'Université ;Julho de 1964, anúncio de um Plano de Reforma Fouchet para o Ensino Superior; Novembro de 1964, manifesto do S.N.E. sup. sobre a Reforma do Ensino Superior; Março de 1965, início da crise da União dos Estudantes Comunistas ( U.E.C. ) e da Juventude Estudantil Cristã ( J.E.C .. ); no jornal" Combat " ( 3-3-65 ); três professores ( Althusser, Goldmann, Touraine ) criticam o movimento estudantil devido ao ´carácter mítico` do ´grupo estudantil` ; Abril de 1965: VIII Congresso dos Estudantes Comunistas, demissão de uma parte dos dirigentes da J.E.C. em conflito com a hierarquia católica; Outono de 1965: dissolução pelo P.C.F. do Sector de Letras da Sorbonne da U.E.C. e da U.E.C. de Lião; Congresso constitutivo da Juventude

Universitária Cristã, Manifesto sobre cristãos e socialismo; Abril de 1966: IX Congresso da U.E.C. e o retomar do controlo da U.E.C. pelo P.C.F. ; Conferência Nacional constitutiva da Juventude Comunista Revolucionária ( J.C.R. ) - trotskysta; Fevereiro de 1966, greve U.N.E.F. contra o Projecto Fouchet; 16 de Março de 1966, manifestação do movimento «Occident» para um apoio à guerra do Vietnam e para a liquidação da ´Sorbonne bolchevizada`; 22 de Março de 1966, jornada nacional de acção U.N.E.F. ; Novembro de 1966, Colóquio Nacional de Caen da U.N.E.F. ; Dezembro de 1966, conquista do «Bureau» da U.N.E.F. pelos «situacionistas» ( I.S. ) em Estrasburgo e publicação da brochura: ´Da miséria no meio estudantil` ; cons­tituição da União da Juventude Comunista Marxista-Leninista ( U.J.C.m. l. ), maoísta; Novembro- Dezembro 1966, " Semana de acção contra a Universidade de classe» ( Plano Fouchet ) organizado pela U.N.E.F. ; Janeiro de 1967, ataque dum comando ´Occident` contra os es- tudantes de esquerda em Rouen ; Fevereiro de 1967, processo do Comité situacionista de Es trasburgo ( intentado pela U.N.E.F. ) ; Março 1967, nítido aumento de influência por parte da J.C.R. e da U.J.C.m.-l. ; Abril-Maio de 1967, desenvolvimento dos Comités de Base Vietnam ( tendências políticas de esquerda e extrema-esquerda ) , participação dos meios de Teologia protestante e católica nas lutas contra a guerra do Vietnam em Estrasburgo ; Julho 1967, Congresso de Liao da U.N.E.F. : a corrente Partido Socialista Unificado ( P.S.U. ) leva a melhor sobre a corrente U.E.C. ; Outubro de 1967, abertura das aulas com 514 mil estudantes
Plataforma comum do P.C.F. e da Federaçao da Esquerda Democrática e Socialista; semana de acção CGT/CFDT contra as leis da Segurança Social; Novembro de 1967, pancadaria em Toulouse entre organizações esquerdistas ( J.C.R. , U.J.C.M.-L. , grupos anarquistas e extremistas

do P.S.U. ) e a U.E.C. que tenta restaurar a U.N.E.F. ; Dezembro de 1967,greve nacional da U.N.E.F. e manifestação da mesma juntamente com organizações operárias contra a política so cial do Governo; fortalecimento da tendência Geismar dominando o S.N.E. sup. ; jornada reivindicativa nacional C.G.T. / C.F.D.T . A partir de Janeiro de 1968 os acontecimentos são referidos em quadro à margem do texto.
Muito importante foi decerto a influência exercida por Henri Lefevre, ex-militante
do P.C.F. , donde foi expulso em 1958. Com uma obra imensa ( já aqui foram referidas duas), só entrou para o ensino universitário em 1962, já com 61 anos de idade. Começou a leccionar na Faculdade de Letras de Estrasburgo onde se encontrava quando lançou o livro La Proclamation de la Comunne, tendo em 1965 passado para Nanterre onde passará a exercer grande influência junto dos estudantes da extrema-esquerda. Em ambas as Faculdades referidas foi assi­nalável a sua actividade, quer com os Situacionistas de Estrasburgo quer com os " enragés " do 22 de Março de Nanterre (39). De resto, o movimento estudantil foi uma vitória pessoal para H. Lefevre, inimigo de sempre do estruturalismo, que ele chamou de " novo eleatismo ". Ora não representou Maio 68 o fim do estruturalismo?! (40)
Para finalizar este artigo, resta dar a palavra a um grande pensador e grande homem de que ninguém fala quando se analisa a crise que leva ao Maio 68: trata-se de Georges Gus dorf, que sempre se interessou pelos problemas do ensino e da Universidade. Na verdade pu blicou antes de 1968 duas obras fundamentais (41) para o esclarecimento e equacionamento dos problemas que afectavam a Universidade francesa e a encaminhavam, como o próprio Gusdorf dirá mais tarde, para a sua vietnamizaçao.
Gusdorf, homem superior, que nos deu tantas obras de grande nivel, relata-nos a sua tristeza, o seu empenhamento e por fim a náusea, que provocou a sua ida para o Canadá acei tando um convite que há muito lhe fora feito para leccionar na Universidade Laval do Québec (42) . O facto de ter sido obrigado a recorrer a um editor de livros técnicos, quando se sabe que grandes editores publicaram e continuam a publicar as suas obras, para poder dar a conhecer a sua visão dos acontecimentos estudantis, já nos dirá do ambiente que se vivia em França nos post-Maio 68! Gusdorf que teve de enfrentar os distúrbios provocados pelos Situacionistas e outros radicais de esquerda que Lefevre ajudou a preparar, queixa -se principalmente da demissão e covardia dos seus colegas.
Começa Gusdorf o seu livro, simbolicamente intitulado " O Pentecostes sem o Espirito Santo " , comparando a situação que se vivera à da Nave dos Loucos ( das Narrenschiff ) do humanista Sébastien Brant ( 1458- 1521 ) : «Hoje, no contexto histórico do carnaval de todos os valores, o Barco ébrio da Universidade, completamente desamparado, ameaça sucumbir. A tripulação amotinou-se ; o estado-maior perdeu a cabeça ; ninguém manda, e de resto ninguém obedece. É a estadia ( Saison ) no inferno, onde as próprias verdades enlouqueceram. O naufrágio da Universidade não seria um sinistro como os outros, um sinistro entre outros. A Universidade é um dos locais privilegiados onde a cultura se elabora e se transmite. Uma sociedade não pode desinteressar-se das suas Universidades, e considerar as suas vicissitudes como de querelas intelectuais se tratasse, sem grande importância para a vida nacional no seu conjunto. O que está em causa, e cada vez mais próximo, é a saúde mental de todos e de cada um de nós. Mais ainda, é a questão de saber se queremos que o nosso mundo tenha um sentido, quer dizer se queremos que o mundo dos homens continue a ser um mundo humano" ( pags. 9-10 ). Gusdorf, colocando-se numa perspectiva de Teologia da História, na linha do seu amigo Oscar Cullman, vai discernir os « Sinais dos Tempos». Diz ele: " Há um aspecto essencial dos acontecimentos de Maio que passou despercebido à maioria dos observadores, apesar da sua importância, é o carácter religioso, para-religioso ou pseudo-religioso, como se queira dizer, de bom número das suas manifestações ( ... ) partidários e adversários do movimento de Maio foram incapazes de aí reconhecer uma irrupção de febre escatológica no mundo dessacralizado que é o mundo em que vivemos» ( pág. 165 ). » ( ... ) Se se quer de facto examinar sem facciosismo a realidade dos acontecimentos, é-se forçado a admitir que não é possível dar sobre o que se passou uma interpretação inteiramente racional. Pode certamente considerar-se a febre de Maio um brusco acesso de loucura, porém a explicação que assenta na insensatez apenas sublinha a impossibilidade duma análise racional.É melhor tentar encontrar uma via de acesso mais compreensiva - e é uma via deste género que nos oferece o recurso à fenomenologia religiosa." ( ... ) O homem religioso é um homem que procura a sua salvação, quer dizer que se esforça por conseguir emergir da monotonia dos dias, onde a sua vida pouco a pouco se consome e se esgota, até conseguir um controlo do seu ser profundo, a um re-agrupamento do seu ser mais autêntico, numa realiza ção na qual a existência reencontra sentido ( ... ) " ( pag. 168 )...
E o autor de Retractation 1983 ( 43 ) assim termina o capítulo mais importante da obra em causa : " Não é tão fácil como alguns imaginam, fazer como se a escatologia não e- xistisse. E a pior escatologia é talvez aquela que se ignora ou se recusa aceitar como tal. Que a juventude do presente sofra de doença escatológica, não deve ser pretexto para la- mentação. Mas não se deve considerar como uma restauração dos valores o que apenas é um sinal da confusão de valores. Pertence aos responsáveis da Universidade, defendendo a vocação própria da sua instituição, salvaguardar esta parte do património cultural cuja preservação está à sua guarda, contra o desencadear de paixões que não saberia aí encontrar lugar. Aos adolescentes legitimamente à procura de uma espiritualidade, é preciso ensinar que a edificação de si proprio e do mundo não se pode realizar como por encanto, graças à magia do verbo. A determinação e a prova dos valores são fruto duma imensa paciência; apenas se deixam possuir por aquele que é capaz de as merecer, de a elas se consagrar,uma vez adquiridas as certezas fundamentais. Sem a presença do Espírito Santo, o Pentecostes nada mais é do que vagabundagem intelectual, um delírio que se resolve em fantasmas, ou ainda conto de fadas, porém perdendo a inocência. " ( pags. 188-189 ). ( 44 )




Sem comentários:

Pesquisar neste blogue