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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

«LE TEMPS DES RÉFORMES» - ( La crise de la Chrétienté. L'éclatement 1250-1550 ) «O TEMPO DAS REFORMAS»




Nova edição da obra abaixo mencionada
Pierre Chaunu
Historiador de confissão protestante e
de alto níve como gistoriador!
Pluriel




2º  Vol. de
 « LE TEMPS DES RÉFORMES»
(«O Tempo das Reformas»)
II - ´La Réforme Protestante`
      ( ´A Reforma Protestante`)
Pierre Chaunu
Complexe - 1984

(Pierre Chaunu aceitava contrariamente a outros 
historiadores a existência de uma «Reforma Católica»,
originada no Concílio de Trento!)




                                                  Pierre Chaunu (1923-2009)









«LE TEMPS DE RÉFORMES»
´La crise de la Chrétienté` 
L'éclatement 1250-1550 )
Pierre Chaunu
Le monde sans frontières
Colection dirigé par François Furet
Fayard
Paris - 1975 
570 págs.
ISBN/2-213-00034-4







«MARTINHO LUTERO E AS 95 TESES DE PROTESTAÇÃO DA FÉ»

«A REFORMA DE LUTERO»

                                                         1ª Volume (591 págs.)


                                                            2º Volume (472 págs.)


«LA REFORME DE LUTHER»
   J. Lortz
Théologie sans frontières
Tradução: Daniel Olivier
Les Éditions du Cerf
Paris - 1970
2 vols.
1ª vol. :
Depósito Legal: 3º trimestre 1970
Nº de edição 5969 - Nº IV - 70 - 517
2º vol.:
Depósito legal: 4º trimestre 1970
Nº de edição 5970 - Nº VI - 70 - 506
Original: «Die Reformation in Deutschland»
Verlag Herder KG im Breisgau 1962

As Noventa e Cinco Teses.

Inspirado por vários motivos, particularmente a venda de indulgências, na noite anterior ao Dia de Todos os Santos, a 31 de outubro de 1517, Lutero afixou na porta da Igreja de Wuttenberg, sua teses académicas, intituladas "Sobre o Poder das Indulgências". Seu argumento era de que as indulgências só faziam sentido como livramento das penas temporais impostas pelos padres aos fiéis. Mas Lutero opunha-se à ideia de que a compra das indulgências ou a obtenção das mesmas, de qualquer outra maneira, fosse capaz de impedir Deus de aplicar as punições temporais. Também dizia que elas nada têm a ver como os castigos do purgatório. Lutero afirmava que as penitências devem ser praticadas diariamente pelos cristãos, durante toda a vida, e não algo a ser posto em prática apenas ocasionalmente, por determinação sacerdotal.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A «LAICA» EUROPA: LAICIDADE E LAICISMO PARA O QUE LHES CONVÉM!...

Desejo carnal complica a vida, diz Dalai Lama
Há 6 dias

LAGOS (AFP) — O Dalai Lama estimou nesta sexta-feira que o desejo carnal, voltado para a satisfação imediata, complica a vida, enquanto a castidade proporciona grande independência e tranqüilidade de espírito.

"A tensão sexual, o desejo sexual, acho, proporcionam uma satisfação instantânea e, com freqüência, conduzem a muitas complicações", explicou o chefe espiritual dos tibetanos durante entrevista a jornalistas, entre eles o da AFP, por ocasião de uma visita particular à Nigéria.

Num hotel de Lagos, o Dalai Lama explicou que a vida de casal tinha "muitos altos e baixos".

"Naturalmente, enquanto seres humanos (...) uma espécie de desejo sexual acontece mas, então, usa-se a inteligência humana para constatar que esses casais têm sempre problemas. Em alguns casos, há suicídios, mortes".

"Então, é essa nossa consolação. Passamos por cima de alguma coisa mas se compararmos essa situação em relação a uma vida inteira, é melhor. Mais independência, mais liberdade", considerou o prêmio Nobel da paz acrescentando que a abstinência causava "muito menos altos e baixos".

"Muito agarramento aos filhos, à parceira (...) é um dos obstáculos à tranquilidade de espírito", segundo o Dalai Lama que citou o exemplo dos casais que envelhecem se preocupando com a morte próxima.

Pregando o "desapego", destacou, no entanto, que o desejo, quando não é carnal, é um sentimento sem o qual "a vida não teria sentido".

O Dalai Lama conclui uma visita de três dias à Nigéria onde foi convidado por uma fundação para pronunciar uma conferência. Negou-se a fazer declarações políticas, destacando o caráter privado da viagem.

http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5h6xAErL_cvDHioV8bSGn1E8pTunQ



segunda-feira, 17 de novembro de 2008

«LABOREM EXERCENS» - CARTA-ENCÍCLICA SOBRE O TRABALHO

«LABOREM EXERCENS» - CARTA-ENCÍCLICA SOBRE O TRABALHO


LABOREM EXERCENS


de JORNAL «PUBLICO» de 15 de Março de 2006


Segundo o jornal “Público” de hoje, a fusão das duas instituições bancárias, BCP e BPI, levaria à extinção de cerca de 2500 postos de trabalho, pela necessidade de reduzir “redundâncias”.
Já ontem confessei a minha total ausência de compreensão destas matérias. Nunca percebi o funcionamento da bolsa, porque é que sobem e descem determinadas acções, o que é o índice NASDAQ, e outros índices, o que são OPAS hostis ou amigáveis, o funcionamento do omnisciente e omnipresente mercado, etc.
Mas hoje confesso a minha total perplexidade perante o objectivo de determinados negócios. Qual a necessidade de fundir estes dois bancos? Parece que tanto um como outro estão bem geridos, têm imensos lucros e a clientela satisfeita, não se percebendo, no horizonte, sinais de alteração destes pressupostos (tudo o que digo retirei da leitura de jornais e da net).
Então porquê? É para terem ainda mais lucros? Para quê? Que pretendem fazer com cada vez mais dinheiro?
O que se percebe, para já, é que 2500 pessoas vão ficar desempregadas!
Eu não sou católica, mas há muito na doutrina social da igreja com que eu concordo, mesmo com muito do que um Papa conservador como João Paulo II defendeu e pregou.Paulo Teixeira Pinto é apresentado como católico, pertencente à Opus Dei. Como concilia ele o capital e o trabalho? Como concilia ele o sono?


http://defenderoquadrado.blogs.sapo.pt/191368.html


IOANNES PAULUS PP. II LABOREM EXERCENSdirigida aos veneráveis Irmãos no Episcopadoaos Sacerdotesàs Famílias religiosasaos Filhos e Filhas da Igrejae a todos os Homens de Boa Vontadesobre o Trabalho Humano no 90° aniversário daRerum Novarum1981.09.14
(...)
III. O CONFLITO ENTRE TRABALHO E CAPITAL NA FASE ACTUAL DA HISTÓRIA(...)12. Prioridade do trabalho
Diante da realidade dos dias de hoje, em cuja estrutura se encontram marcas bem profundas de tantos conflitos, causados pelo homem, e na qual os meios técnicos — fruto do trabalho humano — desempenham um papel de primeira importância (pense-se ainda, aqui neste ponto, na perspectiva de um cataclismo mundial na eventualidade de uma guerra nuclear, cujas possibilidades de destruição seriam quase inimagináveis), deve recordar-se, antes de mais nada, um princípio ensinado sempre pela Igreja. É o princípio da prioridade do « trabalho » em confronto com o « capital ». Este princípio diz respeito directamente ao próprio processo de produção, relativamente ao qual o trabalho é sempre uma causa eficiente primária, enquanto que o « capital », sendo o conjunto dos meios de produção, permanece apenas um instrumento, ou causa instrumental. Este princípio é uma verdade evidente, que resulta de toda a experiência histórica do homem.(...)

«PARA UMA TEOLOGIA DO TRABALHO» - Marie-Dominique Chenu, O.P.




  «POUR UNE THÉOLOGIE DU TRAVAIL»
(´PARA UMA TEOLOGIA DO TRABALHO´)
 Marie-Dominique Chenu  O. P.
Livre de Vie - 53
Éditions du Seuil
Paris - 1955
D. L. 1er  T. 1965 - Nº 1663


É aqui reeditado, tal como foi publicado (L'Esprit, janeiro 1952), um ensaio sobre a teologia do trabalho. A evolução da conjuntura dá sentido a estas reflexões mesmo onde seriam ultrapassadas.
Acrescentam-se dois artigos, através dos quais se visaria tornar sensível a indispensável ligação entre uma reflexão doutrinária sobre o trabalho e uma teologia da história, que vá além do mais ininteligível dos moralismos.
Uma nota, em apêndice, dá a conhecer um texto, muito significativo apesar do seu aparente arcaísmo, de um teólogo grego cristão da Antiguidade.

- Para uma teologia do trabalho
- O ´Homo oeconomicus e o cristão`

Nota complementar:
Um texto de São Máximo sobre a
relação do homem com a natureza





O trabalho ocupa um lugar cada vez maior nas preocupações dos filósofos e dos sábios, e então os homens aí vêem o elemento dominante da nossa civilização. Ora, se existe uma teologia da guerra, ainda não existe uma teologia do trabalho. Para a sua fundação, há coisas que se impõem, que dizem respeito ao próprio homem, à sua relação com a natureza, com o seu papel na história.
O Padre Chenu, cujos trabalhos, ocupam neste domínio como em muitos outros, uma enorme importância, nomeadamente no Concílio, apresenta aqui as grandes linhas duma reflexão cristã sobre o trabalho, as relações do homem e da economia, e com o devir social,. Como lhe escrevia um crítico a quando da publicação deste livro: ´Apresenta os verdadeiros problemas da nossa época.` 





«O COMPROMISSO TEMPORAL LIBERTA O CRISTÃO»
 CARLOS NUNO SALGADO VAZ
Prefácio de Marie-Dominique Chenu
(Tese de doutoramento apresentada na Universidade Gregoriana)
BRAGA - 1974




( ... ) Na teologia de Máximo Confessor encontra Chenu uma boa explicação da recapitulação que o homem deve efectuar da natureza. S. Máximo parte da unidade concebida no sentido metafísico da palavra: Deus é a Unidade suprema. - o Uno. O que de melhor podemos dizer de Deus é que Ele é a unidade, em si mesmo; é o poder unitivo inserido em todas as coisas como um gérmen racional. A obra da unificação é, portanto, a mais fundamental. Impossível atingir a perfeição sem realizar a unificação ( ... ).
A economia (dinâmica na história) cristã realiza a unidade de Deus e do mundo porque Cristo é o recapitulador que respeita a originalidade de cada natureza que Ele quer conduzir à Unidade Suprema. A unidade do homem, corpo e alma, em imanência recíproca, realiza-se segundo as leis das duas naturezas no universo: o homem é um ser prolongado numa natureza cósmica. Mais ainda, a natureza cósmica é interior ao homem. Por isso o homem é um microcosmo.
À semelhança do Deus Criador, também o homem é fabricante do universo. Assim conseguimos a reunificação do universo na unidade de que ele e o próprio homem procedem por criação. A missão nobre do homem face ao mundo como microcosmo e demiurgo é expressa por S. Máximo com uma palavra muito significativa: "ergasterion" que, tendo a mesma raiz da palavra trabalho, significa o acto pelo qual o homem afronta, transforma e conquista a natureza, realizando-a por meio de urna unificação que, para a mentalidade grega, representa o cerne da perfeição atingida por uma coisa.
O homem é no mundo, uma oficina em acção permanente sobre todos os seres. É o homem o artesão que faz a unificação de todos os seres, de todas as realidades, observando, todavia, as diversificações das mesmas. Poderia parecer que o homem não é muito indicado para realizar tal unificação, uma vez que ele mesmo está dividido em macho e fêmea. Todavia, o homem possui, também por natureza, uma virtude de totalização que se estende a todos os extremos por meio de uma propriedade: a copulação. O plano unificador do homem manifesta-se realizando o grande mistério do plano divino de pôr em coerência mútua os seres opostos conduzindo, deste modo, ao retorno progressivo na unidade de Deus. "O homem recapitula nele mesmo, e segundo a sua natureza, as coisas mais distintas e várias entre si. Ele conduz todas as coisas a Deus como à sua causa, reunindo-as, primeiramente, na unidade, a partir da autonomia e divisão próprias, e fazendo-as progredir, depois, para Deus, graças a conexões ordenadas, numa ascensão exaltante e unificante, onde já não existe qualquer outra divisão".
Os padres gregos discernem no homem a existência de uma relação fundamental à natureza. Chamam-lhe "téchné" e significam com ela a relação própria do homem à natureza como espírito incarnado. O trabalho, por conseguinte, é o acto próprio do homem enquanto que espírito incarnado.

´O Compromisso temporal liberta o cristão`


C. N. SALGADO VAZ .


GENERAL DWIGHT DAVID EISENHOWER



DOS HOMENS QUE SERVIRAM OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA E QUE, PELO SEU EXEMPLO, DIGNIDADE, DEMOCRATICIDADE CODUZIRAM AS PESSOAS DE BOA VONTADE DE TODO O MUNDO A RESPEITAR A GRANDE FEDERAÇÃO NORTE-AMERICANA!... QUEM MAIS ME MARCOU FOI SEM DÚVIDA EISENHOWER!...


Dwight Eisenhower ( 1890 - 1969 )

Dwight "Ike" Eisenhower (apelido que ganhou ainda na infância), nasceu em Denison, Texas, a 14 de outubro de 1890. A sua carreira militar só começou a decolar em 1930, quando um estudo seu sobre estratégia chegou às mãos do general Douglas MacArthur, então chefe dos exército. Ele foi levado para o Washington, onde ficou até a 1935. Em 1942, já como o general, Eisenhower foi enviado ao Londres para estudar o campo para as operações do exército dos estados unidos na Europa e ganhou o posto de comandante da campanha naquele continente. Em novembro de 1942 passou a chefiar também as tropas francesas e inglesas no norte da África e, em maio do ano seguinte, conseguiu a rendição de alemães e italianos na região. Daí em foi comandar as invasões da se Sicília e da parte continental da Itália. Eisenhower assumiu o posto de comandante-supremo aliado na Europa ocidental em dezembro de 1943 e coube a ele aceitar a rendição incondicional dos alemães. Após a rendição dos alemães, maio de 1945, o general Dwight David Eisenhower foi aclamado como o grande vencedor das segunda guerra. Em Paris, Londres, Moscou, Nova York, Washington, mais de um milhão de pessoas saíram às ruas para vê-lo passar em carro aberto como resposta aos aplausos, acenava com os dedos "V", gesto ainda uma emprestado do primeiro-ministro britânico Winston Curchill, que o transformou em marca pessoal à medida em que as forças aliadas venciam osso alemães. O mesmo "V" da vitória foi o gesto que ele escolheu para comemorar por duas vezes a sua eleição à presidência dos estados unidos (em 1952 e 1956), pelo Partido Republicano. Durante dezessete anos - da etapa final da segunda guerra até a metade do seu segundo mandato como presidente -, popularidade que antes dele, nos EUA, só George o Washington tinha experimentado. Em 1948, recusou a candidatura à presidência. Em 1950, as 12 nações que formavam a outra (organização do tratado do atlântico norte) e escolheram para comandar suas forças militares, com a missão de manter a paz na Europa, a única a cargo que exerceu até 1952, quando aceitou disputar a sucessão do presidente Truman. Em 1956 conquistou facilmente o segundo mandato, mas em 1960 seu prestígio estava bastante abalado e os se eu candidato, Richard Nixon, perdeu para John Fitzgerald Kennedy, do partido democrata. O desgaste foi atribuído em parte a chegada da televisão - diante das câmeras e ele se mostrava inseguro - correntemente se perdia em frases desconexas. Morreu em 28 de março de 1969, após muito tempo doente.

domingo, 16 de novembro de 2008

«EXCELENTÍSSIMO SENHOR GENERAL GARCIA LENDRO: PRESENTE!»


ENTRE OS ANOS 1964-1967, TIVE O PRIVILÉGIO DE PRIVAR, NA QUALIDADE DE SUBORDINADO,
COM SUA EXCELÊNCIA O SENHOR GENERAL GARCIA LEANDRO. PRIMEIRAMENTE NO ANTIGO R.A.L. 1,
( REGIMENTO DE ARTILHARIA LIGEIRA Nº 1 ) ELE COMO TENENTE DO QUADRO PERMANENTE E EU COMO
ASPIRANTE A OFICIAL MILICIANO. VOLTAMOS A ENCONTRAR-NOS NA GUINÉ PARA ONDE FOMOS MOBI-
LIZADOS EM MISSÃO DE SOBERANIA, EU COMO ALFERES MILICIANO E O ACTUAL GENERAL COMO CAPITÃO, COMANDANDO UMA COMPANHIA NA GUERRA QUE SE TRAVAVA! ERA UM OFICIAL DISTINTO, QUER NO TRATO COMO NA COMPETÊNCIA QUE LHE RECONHECIAM, SUPERIORES, CAMARADAS E INFERIORES!
SOUBE DA SUA NOMEAÇÃO APÓS O 25 DE ABRIL PARA MACAU, ONDE REPRESENTOU O M.F.A COM A
DIGNIDADE E PRUDÊNCIA QUE ERA DE ESPERAR, AINDA QUE ESTANDO A REPÚBLICA POPULAR DA CHINA
A SAIR DE UMA IMENSA E PROFUNDA CONVULSÃO POLÍTICO-SOCIAL!...

É COM ORGULHO QUE, COM A DEVIDA VÉNIA, TRANSCREVEMOS DE «SOMOS PORTUGUESES.COM» AS
DECLARAÇÕES DO GENERAL GARCIA LEANDRO:


"Se sinto a revolta..." Garcia Leandro
05/02/2008 (390 leituras)
O modo como se tem desenvolvido a vida das grandes empresas, nomeadamente da banca e dos seguros, envolvendo BCP e Banco de Portugal, incluindo as remunerações dos seus administradores e respectivas mordomias, transformou-se num escândalo nacional, criando a repulsa generalizada.É consensual que o país precisa de grandes reformas e tal esforço deve ser reconhecido a este Governo (mesmo com os erros e exageros que têm acontecido).Alguém tinha de o fazer e este Governo arregaçou as mangas para algo que já deveria ter ocorrido há muito tempo. Mas não tocou nestes grandes beneficiários que envergonham a democracia, com a agravante de se pedirem sacrifícios à generalidade da população que já vive com muitas dificuldades.O excesso de benefícios daqueles administradores já levou a que o próprio Presidente da República tivesse sentido a obrigação de intervir publicamente.Mas tudo continua na mesma; a promiscuidade entre o poder político e o económico é um facto e feito com total despudor.Uma recente sondagem Gallup a nível mundial, e também em Portugal, mostra a falta de confiança que existe nos responsáveis políticos deste regime.Tenho 47 anos de serviço ao Estado, nas mais diferentes funções de grande responsabilidade, sei como se pode governar com sentido de serviço público, sem qualquer vantagem pessoal, e sei qual é a minha pensão de aposentação publicada em D.R.Se sinto a revolta crescente daqueles que comigo contactam, eu próprio começo a sentir que a minha capacidade de resistência psicológica a tanta desvergonha, mantendo sempre uma posição institucional e de confiança no sistema que a III República instaurou, vai enfraquecendo todos os dias.Já fui convidado para encabeçar um movimento de indignação contra este estado de coisas e tenho resistido.Mas a explosão social está a chegar. Vão ocorrer movimentos de cidadãos que já não podem aguentar mais o que se passa.É óbvio que não será pela acção militar que tal acontecerá, não só porque não resolveria o problema mas também porque o enquadramento da UE não o aceitaria; não haverá mais cardeais e generais para resolver este tipo de questões. Isso é um passado enterrado. Tem de ser o próprio sistema político e social a tomar as medidas correctivas para diminuir os crescentes focos de indignação e revolta.Os sintomas são iguais aos que aconteceram no final da Monarquia e da I República, sendo bom que os responsáveis não olhem para o lado, já que, quando as grandes explosões sociais acontecem, ninguém sabe como acabam. E as más experiências de Portugal devem ser uma vacina para evitar erros semelhantes na actualidade.É espantosa a reacção ofendida dos responsáveis políticos quando alguém denuncia a corrupção, sendo evidente que a falta de vergonha deve ser provada; e se olhassem para dentro dos partidos e começassem a fazer a separação entre o trigo e o joio? Seria um bom princípio!Corrija-se o que está errado, as mordomias e as injustiças, e a tranquilidade voltará, porque o povo compreende os sacrifícios se forem distribuídos por todos.

«WELTANSCHAUUNG« ( Mundividência, Cosmocopia )


Por «Weltanschauung», expressão imperfeitamente traduzida para o português como concepção do mundo ou visão da vida e do cosmos, entende-se uma forma de sentir e perceber o real e reagir em face da vida, que apresenta uma série de soluções ordenadas para os problemas capitais que nos ocorrem e solicitam.
Ora, isso tanto nos pode dar o conhecimento vulgar, e é o que habitualmente ocorre com a maioria dos homens, os mais refinados a tal se referindo como sua «filosofia de vida», os menos, como seu «modo peculiar de ver as coisas»: -como a arte, a religião, a ciência ou a filosofia. Esta última implica uma «Weltanschauung»,que , para a diferenciar da que nos proporciona a arte, a religião, a ciência ou o conhecimento empírico, devemos rotular de filosófica, aparecendo como tal, com todas as características do pensamento filosófico e pois identificando-se com a filosofia.
Apenas, uma «Weltanshauung», mesmo a do filósofo, não será exclusivamente filosófica, senão que incluirá uma preferência artística, talvez um credo religioso, determinadas bases de conhecimento científico e- por que não?-uma forte dose de saber empírico.
Assim, se «Weltanschauung« e filosofia se não identificam, têm, entretanto, em comum este ponto: que ambas são formas de enfrentar, conceber e sentir o real e a vida, embora aquela habitualmente incorpore uma visão extra-filosófica desses objectos.

«LITURGIA E CULTO»

LITURGIA E CULTO
Em grego clássico «liturgia» significava «obra pública» ou «serviço social»; por exem­plo a construção de uma nave cujo custo se imputava a um particular opulento. A palavra adquire sentido cultual na tradição grega do Antigo Testamento chamada dos LXX. S. Paulo usa o termo "liturgo" para designar uma função social quando se refere aos cobradores de impostos (Rom 13,6); em linguagem moderna dir-se-ia «funcionário».
No Novo Testamento, quando os tempos litúrgicos se referem a judeus ou a pagãos, designam acções rituais: são sacrifícios o de Abel (Heb 11,4),os que se ofereceram ao bezerro de ouro (Act 7,41) e os do sacerdote de Zeus em Listra (Act 14,13); ê 1iturgia o serviço de Zacarias no templo (Lc 1,23), e mencionam-se utensílios litúrgicos (Heb 9,21); são culto os Jejuns e orações de Ana no templo (Lc 2,37), ou as cerimónias rituais dos judeus (Rom 9,4).
Mas quando o Novo Testamento aplica estes termos aos cristãos, liturgia, culto e sacrifício são a própria vida; nunca nos evangelhos nem nas cartas dos apóstolos se usa para indicar uma celebração em comum (só em Act 13,2 se dá uma excepção possível: o verbo derivado de liturgia emprega-se em ligação com um jejum, sem mais precisar a que se refere ). Não há dúvida que os cristãos celebravam juntos a eucaristia, mas o nome que lhe davam não era «culto», antes «fracção do pão», expressão hebraica que significa «comer juntos»:«pão» designa todo o alimento, e o facto de o «partir» indica que se «reparte» entre os comensais.
O culto, o sacrifício e a 1iturgia do cristão são, pois, a fé e o amor fraterno, a entrega a Deus e a dedicação ao próximo. Em outros termos, sua vida concreta e inteira, projectada em duas coordenadas: fé e caridade.
A projecção de uma realidade em duas coordenadas não a fende. A fé-caridade é a sistole­-diástole da vida cristã. A fé é o ponto de vista claro que orienta a percepção da realidade inteira. Ensina a ver o mundo como campo de acção do amor de Deus; é olhar surpreendido que descobre Deus num mundo translúcido, onde ele está presente e actua. O amor de Deus por cada um revela-se como uma concretização matizada e original do seu amor por todos. A resposta do homem há-de ser global: não se articulam o sim a Deus com o não ao homem; não colhe sentir-se perdoado, sem perdoar, nem sentir-se amado sem amar. Na frase de S. João: "Amar o Pai significa amar os que são seus filhos", isto é todos os que crêem (l Jo 5,1)
O culto a Deus no Novo Testamento não ocupa um sector da existência; antes toda a existência; não se exercita com ritos especiais, mas com o próprio viver; não requer actividades peculiares, antes a criatividade e a dedicação próprias do interesse mútuo. «Portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque esta é a Lei e os Profetas", (Mt 7,12). É um culto e um sacrifício existencial, no qual o homem se oferece
a si mesmo na sua circunstância histórica. Enquanto existencial, é um reflexo do sacrifí­cio de Cristo.
O cristão unido pelo baptismo ao Bom Pastor, vivendo a fé recebida, trabalhando pela construção de um mundo melhor, sem injustiças, sem desigualdades, sem divisões, prolonga no presente o triunfo do Ressuscitado.

«O SILÊNCIO DOS ANIMAIS» - (´LE SILENCE DES BÊTES`) - Elisabeth de Fontenay




                                                   Capa: Marc Chagall, ´L'étable`, 1917



«LE SILENCE DES BÊTES» 
´La philosophie à l´épreuve de l'animalité`
(´O SILÊNCIO DOS ANIMAIS`) 
(´A filosofia posta à prova pela animalidade`)
Elisabeth de Fontenay
Ouvrage publié avec le concours du Centre national du livre
Fayard
Paris, 1998
784 págs.
Depósito legal: janeiro de 1999
Nº de edição: 3362 - Nº de impressão: 1889V
ISBN: 2-213-60045-7
35-26-0245-04/7


Se há «espaços» de elogio mútuo, nos quais os seus detentores se dedicam aos «salamaleques» à destra e à sinistra, outros há cujos autores(as), apesar de nem sempre com eles(as)concordar, me parecem sérios e sinceros! Ora foi precisamente uma entrada sobre as injustiças cometidas contra os animais que me levou a referir um livro que encomendei há uns 7 anos, de Paris.

Vi uma referência a uma obra assinada por uma autora que me era familiar desde a década de 70: Elisabeth de Fontenay, professora de Filosofia na Sorbonne, de quem tinha lido uma obra interessantíssima - «LES FIGURES JUIVES DE MARX»(1973). Essa obra intitula-se:«Le Silence des Bêtes»  (´La philosophie à l'épreuve de l'animalité`).

A autora ao longo de 780 págs., reflecte sobre a «condição animal»; fala do que se pensava sobre essa condição na Antiguidade, do sacrifício oferecido aos deuses mas, de apesar disso, os animais terem um estatuto de seres «Animados»; os animais pensam? são dotados de razão? têm uma sensibilidade semelhante ao homem? deverá poder legislar-se a fim de impedir que sirvam de refeição? mas porque permanecem silenciosos?

Desde que Deus se fez homem, que Cristo se ofereceu em sacrifício qual cordeiro, quer dizer, desde a era cristã, a condição animal mudou radicalmente! Daí em diante os filósofos colocam o acento sobre o homem, chegando os animais a ser tidos como máquinas (Descartes) ou comparados a batatas (Kant).

Houve sem dúvidas excepções; Michelet denunciará profeticamente a injustiça feita aos animais e anunciará que persegui-los é perseguir a democracia.

No século XX, uma certa literatura compara o modo como encaramos os animais, com o modo como os homens se tratam uns aos outros; a desumanização pelo racismo, a doença, a velhice, a perturbação mental...
Este livro expõe com clareza o modo como as diversa tradições filosóficas ocidentais, dos Pré-Socráticos a Derrida, abordaram o enigma da animalidade!...

http://skocky-alcyone.blogspot.pt/2012/06/as-figuras-judaicas-de-marx-les-figures.html 

TRIBUTO À MULHER ESPECULATIVA




Aquilo que entre nós se designa, habitualmente por HINDUÍSMO ou BRAMANISMO, isto é, a religião da ÍNDIA , tem entre os HINDUS o nome de «SANÁTANA DHARMA» ( LEI ETERNA ) !
Para o Sanátana Dharma, BRAMA é o Absoluto, exterior ao homem, é aquele mesmo que está dentro do coração. O Brama existe na personalidade humana como a imagem do sol num lençol de água.
O fim do Sanátana Dharma realiza-se na identificação do ÁTMAN (alma,espírito pessoal ) com BRAMA. É o MOKSHA , ou Libertação.
A ordem cósmica é exposta em diálogos célebres, tais os UPANISHDDE(S). Um deles tem por interlocutores YAJNAVALKYA, brâmane ilustre e GARGI, mulher dialéctica e excepcional pela consideração que lhe era testemunhada. O diálogo começa admitindo as águas como a trama do universo, porque , segundo o VEDA, as Águas primordiais simbolizam a matéria.
Então Gargi interroga Yajnavalkya:
-Yajnavalkya, disse ela, se as águas são a trama com que tudo foi tecido, com que trama foram as mesmas águas tecidas?
-Com o ar ,ó Gargi.
-Com que trama foi o ar tecido?
-Com os mundos do espaço, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos do espaço?
-Com os mundos do sol, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos do sol?
-Com os mundos da lua, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos da lua?
-Com os mundos das constelações, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos das constelações?
-Com os mundos dos deuses,ó Gargi.
-E os mundos dos deuses, com que trama foram eles tecidos?
-Com os mundos de Indra, ó Gargi.
-E os mundos de Indra, com que trama foram eles tecidos?
-Com os mundos de Prajápati,ó Gargi.
-E os mundos de Prajápati, com que trama foram eles tecidos?
-Com os mundos de Brama, ó Gargi.
-E os mundos de Brama, com que trama foram eles tecidos?
Ele respondeu: ó Gargi, não perguntes demais; toma cuidado, porque a tua cabeça pode arrebentar. Perguntas além de uma divindade acima da qual nada mais há a perguntar. Não perguntes demais, ó Gargi.
E Gargi calou-se.

( Brhad aranyaka upa).



«PESQUISA SOBRE A «AGINTER PRESS»







REPETE-SE:


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http://phpdev.dev.isn.ch/collectionshttp://phpdev.dev.isn.ch/collections/


SOLICITA-SE À «FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES» QUE FACULTE AOS PORTUGUESES O QUE É SUBTRAÍDO...PARA QUE A PESQUISA INICIADA POR PESSOAS COMO A SAUDOSA HELENA VAZ DA SILVA E OUTROS A SEGUIR AO 25 DE ABRIL POSSA CONTINUAR!...

«IDADE, SEXO E TEMPO» - (´Três aspectos da Psicologia Humana`) - Alceu moroso de Lima (Tristão de Athayde)

Para
Maria  Helena  e Silvia
minhas colaboradoras







    «IDADE, SEXO E TEMPO»
´Três aspectos da psicologia humana`
Alceu Amoroso de Lima (Tristão de Atahyde)
Livraria JOSÉ OLYMPIO Editora
2ª edição
Rio de Janeiro - 1938

«A nossa autonomia psíquica é sempre condicionada por elementos intrínsecos e extrínsecos. Pertencem os primeiros à própria natureza do nosso funcionamento psíquico. Não existe absoluto arbítrio livre nesse funcionamento. Sentimos, pensamos e queremos livremente, mas dentro de limites que nos são impostos pelo próprio modo de ser da nossa espiritualidade incarnada.
Além desse condicionamento «intrínseco» e «permanente» da nossa vida mental, existe ainda um condicionamento «extrínseco» e «acidental». Esse último pode ainda ser «interior» e dependente de condições próprias à nossa evolução vital, como a «idade» ou à nossa condição psicológica, como o «sexo»,-ou «exterior» e dependente das posições ou dos ambientes em que vivemos e das repercussões que têm sobre o nosso funcionamnto psíquico, como o «tempo».
Muitas outras categorias extrínsecas de repercussão psicológica seriam de ter em conta, como a «profissão, a « nacionalidade», a «raça», a »crença», etc. Porém, detenho-me aqui sobre três condições essenciais da nossa vida psíquica-a «idade« o «sexo» e o «tempo».
O homem vive sempre em situações concretas. Pode dominá-las, mas não de todo fugir a elas. Pode inverter a sua ordem e combiná-las de modo mais ou menos livre. Não temos, por exemplo, «necessariamente» a idade que a nossa certidão de idade nos indica. Há homens sem infância, gerações sem infância e juventude, velhos que não se resignam à sua idade, e assim por diante. Podemos também «viver uma idade em outra idade».
A própria sexuação biológica não corresponde rigorosamente à psicológica...E há homens que vivem «fora» do seu tempo ou «contra» o seu tempo. Existe mesmo uma variação no grau de intensidade dessa repercussões. Há homens mais «intemporais» que outros. Observamos,em muitos, uma psicologia marcada pelo sexo, ao passo que outros se apresentam indistintos, chegando quase à neutralidade psico-sexual.
O mesmo se observa quanto à idade. Há a famíla dos que apresentam bem vivos os traços das idades que possuem-crianças bem crianças, jovens que manifestam a idade que têm, velhos que são a mais bela incarnação da velhice psicológica - e todos conhecemos a família dos indecisos que não são bem isto ou aquilo, adolescentes mornos, homens maduros que oscilam entre a juventude e a velhice, crianças sem infância, velhos que escondem a idade. É tarefa da «caracterologia» estudar essas variações indefinidas nos temperamentos individuais.»

«REVOLTA» - (´Romance`) - Visconde de Porto da Cruz - Madeira





    A «REVOLTA»
      (´Romance´)
Visconde de Porto da Cruz
Da ´Academia Brazileira de Ciências e Políticas`
Ofic. Gráf. Augusto Costa & C.º L.da
Braga - 1954
535 págs.




«A Política, para a grande maioria daqueles que a lidam,não passará de um meio para se instalarem na vida,cuidando em firmar as boas posições que tenham conseguido ocupar, para alargarem, cada vez mais, a esfera de influências com que fazem por se ´servirem bem`, à custa dos legítimos interesses colectivos, em vez de terem em conta o ´dever social` que indica a cada indivíduo que tem de empregar o maior esforço para ´bem-servir`os direitos comuns.»

in Introdução, ao Romance ,cuja acção gira em redor de ´Patrício de Moura, aluno do Colégio de  Campolide, da Companhia de Jesus. (As instalações do Colégio já serviram, depois da implantação do Regime Repúblicano, para albergar Caçadores 5, sendo agora uma dependência da Universidade Nova.)

O ´Romance` intitula-se «Revolta» e tem como autor o Visconde de Porto da Cruz (Da ´Academia Brasileira de Ciências Sociais e Políticas). Era um Madeirense de Lei, sendo o livro firmado em Santa Clara, Funchal, Agosto 1955.

NOTA: Esta obra não consta em nenhuma referência de catálogos elaborados na MADEIRA!

PARA UMA ANGEOLOGIA - «O ANJO E O HOMEM»


«Cahiers de l' Hermétisme»

Éditions Albin Michel

DIRECTEURS

ANTOINE FAIVRE - FRÉDÉRICK TRISTAN

COMITÉ DE RÉDACTION
Ernst Benz, Henry Corbin, Gilbert Durand, Mircea Eliade,Henri-Charles Puech, Jean Servier, 
Jean Tourniac, Rolf Christian Zimmermann, Elemire Zolla




Na lista de livros recenseados ou simplesmente referidos neste espaço, vem indicado um dos «Cahiers de l'Hermetisme», cadernos dedicados a temas específicos, sendo cada tema abordado por um grupo de pessoas com provas dadas nessa área do conhecimento e aceites pelos seus pares.
O caderno por mim escolhido aborda uma temática que me foi sugerida pelo que li num dos «espaços» que habitualmente frequento! Trata-se de um dos «Cahiers de l'Hermétisme» ( Cadernos do Hermetismo ), com o interessante e belo título «L'Ange et l'Homme» ( O Anjo e o Homem ).
Este ´caderno` quer ser uma primeira tentativa contemporânea de abordagem da Angeologia - que se situa no próprio centro, no coração, do pensamento e da espiritualidade ocidentais. Esforça-se antes de mais por referenciar, dar indicações precisas, sobre os temas essenciais, esboçando as grandes linhas,os vectores, da tripla tradição abraãmica ( Judia, Cristã e Islâmica ) relativa à noção e à presença do Anjo.
O diálogo entre o anjo e o homem surge então, tanto como o conhecimento de Si e do Ser, quer como a tentativa de libertar a ´Centelha Divina` que se manteve presente em cada homem apesar da «Queda». Pelo anjo, é a própria alma que reencontra as suas asas. Analogamente, a luta com o anjo representa um apelo à purificação, à passagem para além, ao Retorno do ser para o interior de Ser, da centelha ao Fogo, da identidade perdida e reencontrada.

(Sobre ´l'Ange et l'Homme`, Cahiers de l'Hermétisme, Albin Michel, Paris.)

RAYMOND ABELLIO E «PARA UM NOVO PROFETISMO» E O «FIM DO ESOTERISMO»



AS RELIGIÕES DESEMPENHAM HOJE, NOS DOIS PÓLOS TELÚRICOS, UM PAPEL DE UNIFICAÇÃO DAS MASSAS. A POUCA DISTÂNCIA DO EPICENTRO ESPIRITUAL, A IGREJA CATÓLICA VÊ, PELO CONTRÁRIO, A SUA MASSA DIVIDIDA. A CRUCIFIXÃO DA IGREJA ROMANA FUNDARÁ A SUA VERDADEIRA CATOLICIDADE E ASSINALARÁ O NASCIMENTO DA VERDADEIRA RELIGIÃO DE CRISTO DO PERÍODO DE EVOLUÇÃO PÓS-DILUVIANO.

Quando, em 1907, a encíclica PASCENDI quis condenar o modernismo católico, definiu-o como o «local de encontro de todas as heresias». Esta expressão foi seguramente introduzida pelos redactores da encíclica,sem que lhe pesassem o sentido, que aliás não devemos forçar, e, no entanto, se nele reflectirmos, como ela adquire uma ressonância singular! O que caracteriza propriamente uma heresia? É ser um ramo adventício que cresceu no tronco de uma ortodoxia. Toda heresia é, porém, exclusiva, e não condena somente a doutrina reinante, mas também a doutrina vizinha; dez, vinte ramos heréticos não chegam a formar um tronco, não se pode juntar num feixe disciplinado e de peso esta floração de indisciplinas. Mas eis que a encíclica afirma precisamente o contrário, ao parecer observar que teria sido possível, nesse ínicio do século XX, erigir em sistema o próprio conjunto das proposições heréticas que brotaram desde há dois mil anos de todos os nós profundos do cristianismo; isto como se um resultado tão espantoso não implicasse um poder de síntese de tal maneira novo que estaria seguramente destinado ao êxito, êxito esse que condenaria a própria condenação. É ir longe de mais. Na realidade, o modernismo jamais teve força para se fundar como sistema, limitando-se a suscitar um estado de espírito crítico, um ANTI. Pouco importa, foi um símbolo. O Ocidente conteve SEMPRE um conjunto de tendências -que poderíamos agrupar sob a designação de espiritualidade «libertária» -essencialmente intelectuais, activistas, e, por conseguinte, pré-luciferinas ou pré-sáttwicas ( conforme os homens ), que até agora a Igreja de Roma só pôde conter ou fazer sobreviver de maneira latente nos seus mosteiros, enquanto não tivessem chegado os tempos últimos. Perante elas, a sua reacção foi fatalmente variável, pois não podia nem destruí-las, nem organizá-las.


«PARA UM NOVO PROFETISMO», Raymond Abellio, Arcádia, Lisboa, 1975.

« (...)A construção da filosofia final do Ocidente constitui para Abellio, uma obra admirável, e a sua convergência com a Tradição, mesmo que o Ocidente ainda não tenha consciência disso, «será uma das características maiores da próxima assunção».Os tradicionalistas orientais há muito que saíram da história; os ocidentais, pelo contrário, têm ainda que vivê-la. Os primeiros são de certo modo os depositários da tradição; os segundos são obrigados a conquistá-la por um esforço autónomo. Os esoteristas «anti-ocidentais, como Guénon e Evola, comprazem-se, assim, segundo Abellio, «em denúncias reaccionárias que nada mais são que o produto da sua impotência para viver as complementaridades e desposarem dialecticamente o poderoso movimento compressivo da idade «negra»

(...)Contra a simples crítica externa dos textos, e em contraposição ao carácter nocturno das vias MÍSTICA ou DEVOCIONAL,Abellio reabilita a RAZÃO como instrumento dialéctico de progressão gnóstica, para o que (...) se fundamenta no método fenomenológico husserliano. Husserl teria assim ultrapassado a própria razão e projectado para além da lógica «natural» uma «lógica transcendental» que em nada se distinguirá do «supramental» de Aurobindo ou da intuição iluminativa de Guénon. A história do Ocidente, desde que este se tornou autónomo com Galileu e Descartes, é caracterizada pela revolução da razão que nos faz passar de Descartes a Husserl, que se liberta definitivamente do antigo dualismo cartesiano para conquistar a unidade de um EU e de um mundo transfigurados. Ora a TRANSFIGURAÇÃO DO MUNDO NO HOMEM constitui precisamente o problema chave e o FIM do esoterismo...Esta convergência de Ocidente e Oriente prepararia assim uma espécie de unidade planetária das manifestações do espírito. Que o mundo tenha, pois, entrado num período de re-integração é o que para Abellio não oferece dúvidas, apesar das confrontações internas por que esse mundo ainda terá de passar e que serão, porventura, as mais convulsivas da sua história.

R.G.F.

http://skocky-ocirculohermetico.blogspot.com/2011/01/para-um-novo-profetismo-ensaio-sobre-o.html

«NO MEIO DE RUÍNAS» - ´IMPERATIVO`, ´URGENTE` : APRENDER A «CAVALGAR O TIGRE»

«Orientações existenciais para uma época da dissolução»





«CHEVAUCHER LE TIGRE»
  Julius Evola
Tradução do italiano por
   Isabelle Robinet
Litterature et Tradition - 12
La Colombe
Éditions du Vieux Colombier
Paris- 1964
283 págs.
«Cavalcare il Tigre`
Edizioni Mediterranee
D-L. , 2-1964
Editor, nº 896
Impr., nº 3.346


-É inútil criar ilusões com as quimeras de qualquer optimismo: encontramo-nos hoje no fim de um ciclo. Desde há séculos que, primeiro insensivelmente, depois com a rapidez de uma massa que se desmorona, variados processos têm vindo a destruir no Ocidente todo e qualquer ordenamento normal e legítimo dos homens e a falsear as mais elevadas concepções do viver, do agir, do conhecer e do combater. E ao motor desta queda, à sua vertigem, à sua velocidade, foi chamado «progresso».
O que hoje conta é isto: encontramo-nos no meio dum mundo de ruínas. E o problema a pôr é este: existem ainda homens em pé no meio destas ruínas? E que é que eles podem e devem ainda fazer?
Julius Evola, «Orientamenti», Roma.

A fórmula escolhida, por Julius Evola, «Cavalcare il Tigre», «Cavalgar o Tigre», é extremo-oriental. É o título de um famoso livro, recenseado, de propósito, neste «espaço».
Cavalgar o tigre,significa que se, paradoxalmente, alguém for bem sucedido ao montá-lo, impede desde logo o tigre de se lançar sobre si, e se conseguir manter-se nele montado, tirar partido dessa proeza.Quer dizer que quem vive neste tempo sombrio (Kali-Yuga), e tem disso consciência, pode descobrir «orientações existenciais para uma época de dissolução» ou ,o que é o mesmo, «manter-se em pé no meio de ruínas».
Este simbolismo aplica-se em vários planos: -Pode referir-se a uma linha de conduta a seguir no que respeita à vida interior, mas também à atitude que convém adoptar quando certas situações críticas se manifestem no plano histórico e colectivo.
É este o caso. O homem «tradicional» (entenda-se espiritual) deve enfrentar os problemas do mundo moderno, da sua incoerência, do seu niilismo radical,da sua louca «complexidade». Um homem novo deve emergir do descalabro duma civilização votada à morte, um homem novo numa sociedade harmoniosa.



sábado, 15 de novembro de 2008

Só os ´Ventos da História` - (`Conferência de Baku - 1920, etc.) ou Salazar com o «Acto Colonial» tornou inviável o desígnio de Norton de Matos?!... (I)






´Conceito de Acto Colonial`
Acto Colonial é a designação pela qual ficou conhecido do decreto lei n.º 18570 de 8 de Julho de 1930, o qual definia a forma como se deviam processar as relações entre a metrópole e as colónias portuguesas ao nível político, económico e administrativo. Através do Acto Colonial foi colocado um fim à autonomia financeira das colónias e foi decretada a unificação administrativa de cada colónia sob a chefia de um administrador. Esteve em vigor entre 1930 e 1951, ano em que uma nova lei o substituiu e alterou o termo colónia por província ultramarina.

Acto Colonial  (1930)
Diploma emitido pela Ditadura Nacional (decreto com força de lei nº 18 570, de 18 de Junho), quando Salazar, então ministro das finanças, ocupava interinamente a pasta das colónias e pelo qual se extinguiu o modelo dos Altos Comissários, instituído em 1920. Invoca-se o facto de alguma opinião internacional propor a distribuição da gestão das colónias portuguesas e belgas pelas grandes potências. Será integrado na Constituição de 1933. Consagra a colonização como da essência orgânica da nação portuguesa. À maneira britânica, cria o Império Colonial Português. Sofre, de imediato, virulentas críticas de Francisco da Cunha Leal. Também Bernardino Machado publica uma crítica em ´O Acto Colonial da Ditadura`, onde considera que há dois nacionalismos diametralmente opostos, um liberal, democrático, pacífico, outro reaccionário, despótico, militarista. Salienta que o diploma o brandão incendiário dum ukase colonialista, invocando a circunstância da República ter continuado a política dos liberais monárquicos. Proclama que a nacionalização das colónias só se faz pela íntima cooperação com a metrópole, e não é para ditaduras; que o problema colonial consiste, como todo o problema social, numa questão de liberdade. Reconhece que a alma da nação é indivisível e que Portugal entrou na guerra por causa das colónias.



No dia 25 de Abril de 2007, tive a oportunidade de referir noutro espaço o livro, hoje remetido para o olvido, «A Nação Una», do General Norton!
Figura de alto gabarito das Forças Armadas, do Estado, da Oposição Democrática e da Maçonaria, o Senhor General Norton de Matos foi também um grande patriota!
Actualmente, talvez por acharem incómoda à «situação» política criada após 1974, a sua obra «A Nação Una» (Organização Política e Administrativa do Territórios do Ultramar Português), quase nunca é mencionada e muito menos, a «Exortação» -  ´Aos Novos de Portugal`, redigida há muito pelo autor e que precede o corpo da sua exposição. Tendo sido uma leitura fundamental para mim, desde a infância, dispus-me a deixá-la aqui para poder ser lida por quem se interesse pelo todo e não só pelas parte; em suma, para quem goste de beber pelo seu copo!...

´Introdução`
Redigi estes nove artigos há muitos anos,tendo no pensamento a conservação e o engrandecimento de Portugal.Adoptei-os,no seu conjunto,como divisa indicadora de um procedimento nacional que a todos e a tudo abrangesse.Creio ter traduzido a vontade do povo a que pertenço.Por isso os trago para aqui.
Norton de  Matos

`Exortação`


´Aos Novos de Portugal`

I - Que a vossa principal tarefa seja o engrandecimento da Pátria, dignificando-a. Lego-vos o pouco que durante mais de cinquenta anos, consegui fazer com este alto intuito, para que continueis a minha modesta e humilde obra, sublimando-a.

2 - Não deixeis que ninguém toque no território nacional: - conservar intactos na posse da nação os territórios de Aquém e Além-mar é o vosso principal dever. Não ceder, vender ou trocar, ou por qualquer outra forma alienar a menor parcela do território, tem de ser sempre o vosso mandamento fundamental.

3 - Se alguém passar ao vosso lado e vos segredar palavras de desânimo, procurando convencer-vos de que não podemos manter tão grande império, expulsai-o do convívio da Nação.

4 - Para a realização da vossa obra contai principalmente convosco. Se homens de outras nações quiserem vir trabalhar de boa fé ao vosso lado, recebei-os como associados e não como inimigos. Mas se as suas intenções não forem puras e se pretenderem encobrir, com falsos propósitos humanitários ou civilizadores, a traição que planearam, fechai-lhes todas as entradas, mantendo-as bem cerradas por todos os meios ao vosso alcance.

5 - Proclamai sempre bem alto, por forma que todo o mundo vos ouça, que nunca consentireis que os territórios de Além-mar, onde há cinco séculos trabalhamos e sofremos, sejam considerados «terras de ninguém», onde outros povos se possam estabelecer livremente, ou onde se queiram fazer ensaios utópicos de quaisquer internacionalizações. Esses territórios, dizei-lhes, constituem províncias tão portuguesas como as da metrópole, a Nação é só uma, e qualquer horda demográfica ou capitalista, que quisesse invadir Angola ou Moçambique, seria recebida por nós como se tentasse ocupar Lisboa.

6 - Não confieis cegamente nos cidadãos que escolherdes para guias e chefes. Os princípios basilares da formação da Nação têm de brotar da alma nacional, e ao povo, que tantas provas tem dado do seu admirável instinto de conservação, compete indicar aos que governam as linhas gerais da sua vontade e das suas aspirações nacionais.

7 - Tomai a peito o desenvolvimento paralelo dos territórios portugueses: - que a totalidade dos recursos e das energias nacionais seja aproveitada para a organização da Nação Una, que a todos toquem os sacrifícios e as vantagens. «Tudo para todos» deve ser a vossa divisa. Nunca deis, no vosso esforço, a impressão de que olhais somente para um aspecto da questão nacional, para o desenvolvimento de uma região com exclusão de outras. Quebrarieis assim a «unidade nacional» sem a qual nada conseguiremos, nada seremos.

8 - Se afirmais, como eu pensei sempre e como já o pensavam meus pais e meus avós, que «a pessoa humana é o mais alto valor moral e que todas as instituições sociais devem ter por fim aperfeiçoá-la e servi-la», tende sempre a coragem de ser lógicos e de obedecer até ao fim aos princípios da doutrina que nos rege. Os milhões de habitantes de cor que vivem nos nossos territórios esperam de vós a redenção completa, nunca o esqueçais.

9 - Conseguindo fazer tudo isto, meus filhos, sereis realizadores, o maior triunfo material que um homem pode ambicionar; se virilmente tentardes realizar sem o conseguir, sereis precursores, o maior triunfo espiritual a que um homem pode aspirar.


Norton de Matos




( in «A Nação Una» - ´Organização Política e Administrativa dos Territórios do Ultramar Português), General Norton de Matos, com um Prefácio do Propf. Egaz  Moniz (Prémio Nobel), Paulino Ferreira, Filhos, Lda, Lisboa, 1953.
(Apresentado o texto da obra à ´Acadamia das Ciências de Lisboa, para concurso a prémio, por maioria não foi considerado merecedor!...Claro...o «Estado Novo» estava amarrado  ao ´Acto Colonial`!...


( As palavras da «Exortação 3» foram inscritas na estátua erigida em Nova Lisboa, cidade fundada pelo General Norton de Matos, no Huambo, Angola; a estátua foi autorizada depois da nomeação de Adriano Moreira como Ministro do Ultramar - 1961).

http://skocky-alcyone.blogspot.pt/2012/10/a-nacao-una-organizacao-politica-e.html


«QUATRO SÉCULOS DE POLÍCIA SECRETA RUSSA»






«QUATRE SIÈCLES DE POLICE SECRÈTE RUSSE»
«QUATRO SÉCULOS DE POLÍCIA SECRETA RUSSA» 
Michel TANSKY
Editions Colbert, 1968
255 págs.
Depósito legal nº 374
1º trimestre de 1968
29-10.0012-01

OUTRORA (JADIS):

* En 1565, la première police politique est créée, c'est l'Opritchnina.
(*EM 1565, é criada a primeira polícia secreta, é a Opritchnina.)

O reinado de Ivan IV é um capítulo à parte na História da Rússia. Órfão de pai aos três anos e de mãe aos oito (supostamente assassinada), Ivan IV sofreu muito nas mãos dos Bielsky e Shuisky, famílias da aristocracia russa que ficaram com o poder enquanto ele ainda era criança. Ele deixou relatos que afirmavam que teria passado grandes privações, inclusive fome, enquanto as duas famílias se matavam (literalmente) pelo poder e roubavam os cofres públicos. Conta-se também que era obrigado a assistir a sessões de tortura e execuções. Possivelmente, esses são motivos que explicam por que ele foi um dos tiranos mais cruéis de toda a História, recebendo a alcunha de Ivan  “o Terrível”.
Coroado aos 16 anos, Ivan fez um bom começo de reinado, com medidas de interesse público, como incentivar a impressão de livros, a tradução de manuscritos russos para outros idiomas e instituir o ensino obrigatório de música nas escolas. Mas, após a misteriosa morte de sua esposa Anastasia, Ivan tornou-se um ditador violento e cruel. Maníaco quanto à possibilidade de estar sendo traído, comandou uma polícia secreta chamada Opritchnina, com a finalidade de torturar e matar qualquer suspeito rebelde. Conta-se que os Opritchniks eram, na verdade, um grupo de criminosos que juraram eterna lealdade ao tsar. Chegaram a acabar com um povoado inteiro, o de Novogorod, acusado de rebelar-se contra ele. Ivã IV tinha ataques violentos e, num deles, golpeou um dos filhos — acusado de o estar traindo — até a morte. Morreu em 1584 e, apesar do trono ter ficado com o filho mais novo, Fyodor, não foi ele quem efectivamente exerceu o poder: este, de facto foi exercido pelo cunhado, Boris Godonov, que para garantir sua permanência no cargo, matou Dimitri, o filho de Fyodor. Porém, apareceram dois “Dimitris” reivindicando a paternidade de Fyodor. Depois de muita confusão, o trono não foi para nenhum deles: foi entregue a Mikhail Romanov, que tinha parentesco com Anastasia, esposa de Ivã.
* En 1736, sous la tsarine Anne, la réseau d'informateurs comprenait 25.000 titulaires et 100.000 auxiliaires.
(* Em 1736, sob a tsarina Ana, a rede de informadores compreendia 25 000 titulares e 100.000 auxiliares.)
* La censure au XIX siècle: Pouchkine, Gogol, Tolstoï sont surveillés par le Troisième bureau.
(*A censura no século XIX: : Pouchkine, Gogol, Tolstoi são vigiados pelo Terceiro organismo.)


ONTEM (HIER):

* L'assassinat de Raspoutine et la guerre des services secrets.
(* O assassinato de Rasputine e a guerra dos serviços secretos.)

* Entre 1918 et 1921, 90 pour 100 des exécutions ont été le fait de la Tchéka: quelles étaient ses méthodes?
(* Entre 1918 e 1921, 90% das execuções foram levadas a cabo pela Tcheka: quais eram os seus métodos?)

* Le Guépéou (G.P.U.), son organisation et ses activités en Russie et à l'étranger.
(A Guêpêou (G.P.U.), a sua organização e as suas actividades na Rússia e no estrangeiro.)

* L'enlèvement de Koutiepov à Paris (29 janvier 1930).
(*A sublevação de Koutiepov em Paris (29 de janeiro de 1930) 

* Les polices secrètes de Hitler et de Staline ont-elles travaillé ensemble?
(* Será que as polícias secretas de Hitler e de Estaline actuaram conjuntamente?)

etc., etc...

DEPOIS ( APRÈS ): 
M.V. D. - N.K.V.D. - K.G.B.


Michel Tansky, spécialiste des questions slaves, auteur d'une biographie de Joukov, n'a voulu faire le procès ni de de la politique ni des méthodes policières russes. Il a tenté simplement de brosser le tableau de quatre siècles d'histoire, dont le grand public connaît seulement la toute dernière période, résumée par des noms qui font frémir: Tchéka, G.P.U., N.K.V.D.

(Michel Tansky, especialista em assuntos eslavos, que é autor de uma biografia do Marechal Jucov (Zukov), não pretendeu elaborar o processo, quer da política, quer dos métodos policiais russos. Tentou apenas esboçar o quadro de quatro séculos de história, dos quais o grande público apenas conhece período mais recente, que se resume por nomes que fazem estremecer: Tcheka, G.P.U., N.K.V.D.)

«A MISTIFICAÇÃO DAS MASSAS PELA PROPAGANDA POLÍTICA» - Serge Tchakhotine







«A MISTIFICAÇÃO DAS MASSAS PELA PROPAGANDA POLÍTICA»
       Serge  Tchakhotine
Tradução: Miguel Arraes
Capa: Marius Lauritzen Bern
Perspectivas do Homem - 15
Direcção de Moacyr  Felix
Civilização Brasileira
Rio de Janeiro - 1967
Título do original francês:
«LE VIOL DES FOULES PARA LA PROPAGANDE POLITIQUE»
Edutions Gallimard, 1952


Dedicatória feita pelo Professor  Serge Tchakhotine, no frontespício da sua obra:

Dedico esta obra à memória de dois homens que me inspiraram na sua execução:
Meu grande mestre I. P. Pavlov, o genial pesquisador dos mecanismos sublimes do pensamento,
e meu grande amigo H. G. Wells, o genial pensador do futuro.

PROPÓSITO

«A aliança entre a ciência e os trabalhadores, esses dois pólos extremos da sociedade, que por sua união podem libertar de todo o entrave a civilização -eis o fim a que decidi votar a minha vida, até ao meu último suspiro!»
(Discours sur «La science et le travail», de Ferdinand Lassalle)

«Deve ser necessariamente a obra, em primeira lugar, de uma ordem de homens e mulheres, animados de espírito combativo, religiosamente devotados, que se esforçarão para estabelecer e impor uma nova forma de vida à raça humana.»
(Frase final do livro de H.G. Wells, «The Shape of  Things to Come, the Ultimate Revolution»)

DO PREFÁCIO DO AUTOR À 2ª EDIÇÃO

Este livro tem uma história bastante movimentada. Já a sua 1ª edição, em 1939, na França, dois meses antes da guerra, não se fez sem incidentes. Depois de todas as correcções, o autor recebeu as últimas provas - para autorizar a impressão - sem que viessem acompanhadas das anteriormente corrigidas. Para sua grande surpresa, verificou que o livro tinha sido censurado (na França! onde a censura não existe!): todas as passagens desagradáveis a Hitler e Mussolini estavam suprimidas (e isso dois meses antes da guerra), da mesma forma que a dedicatória, assim redigida: «Dedico este livro ao génio da França, por ocasião do 150º aniversásio da sua Grande Revolução.». Soube-se, em seguida, que a censura havia sido feita pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, então o Sr. Georges Bonnet, no que respeita à dedicatória. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Terceira República achou que «estava fora de moda»! E isso no ano em que o mundo inteiro festejava esse aniversário!

Mediante protesto do autor que, firmado na lei francesa, reagiu, as frases e as ideias suprimidas foram recolocadas e o livro apareceu na forma original. Dois mese depois da sua aparição, quando a guerra já estava declarada, a polícia de Paris apreendeu-o nas livrarias. Finalmente, em 1940, tendo os alemães ocupado Paris, confiscaram-no e destruíram-no.

Nesse ínterim edições inglesas (entre outras, uma popular feita pela secção editorial do Partido Trabalhista), americanas e canadianas, difundiram as ideias enunciadas e, depois da guerra, uma nova tiragem francesa se impôs. Aparece esta edição, totalmente revista e ampliada, uma vez que a ciência da psicologia objectiva, base deste livro, havia acumulado um grande núnero de novos factos de primeira importância e os acontecimentos políticos tinham mudado consideravelmente a face do mundo. O autor achou útil ilustrar esta nova edição com uma vasta bibliografia, com gráficos, que facilitam a compreensão dos factos e das leis científicas enunciadas, além de um copioso índice que permita melhor consulta dos nomes dos autores e sobre os problemas ventilados.

Poder-se-ia talvez reprovar o autor, por não se ter limitado a expor as ideias e as demonstrações científicas essenciais do principio da « violação príquica das multidões», bem como por se haver arriscado a fazer referências à actualidade política do momento histórico em que vivemos e, até mesmo, por tomar posição (um critico, aliás benevolente, acusou-o de ser «sistemático»). Justificando-se, o autor desejaria dizer que,na sua opinião, a melhor demonstração da justeza das ideias enunciadas, que transforma a «hipótese» em «teoria», é precisamente a possibilidade de fornecer provas extraídas do passado ( nesse caso, por exemplo; a história da luta de 1932, na Alemanha ) e esboços do futuro, corroborando essas ideias, seguindo logicamente a aplicação das leis enunciadas, nas realizações pressupostas, pode verificar-se o valor das primeiras.

Por outro lado, a análise da existência possibilitada actualmente, por meio das novas normas, dá a impressão da «tomada ao vivo» da realidade concreta. Além disso, parece-nos que, fazendo uma crítica puramente abstracta, teórica, abandonamos o leitor a meio caminho, insatisfeito, pensativo. A crítica deve vir sempre acompanhada de propostas de soluções práticas, para ser construtiva. Enfim, cada acto humano deve ter, em nosso entender, um elemento social, um incitamento à acção, dirigido a outrém - se quisermos - um pouco de psicologia, que promova, que crie o ´Élan` optimista, fonte do progresso.

Ah!, o mundo está hoje dividido em dois campos hostis, que têm mútua desconfiança, que se preparam para se arrojar um sobre o outro e transformar esta terra maravilhosa que viu a aventura humana e onde tantos milagres do pensamento, da arte, da bondade se transformarem em um braseiro que só deixará ruínas fumegantes...

Ah!, tudo se polariza hoje em uma ou outra direcção. Este livro procura ser obectivo, imparcial, e denunciar aos dois campos os factos sem escapatórias, perseguindo dois únicos objectivos: a verdade científica e a felicidade de todo o género humano. Pode-se, deve-se alcançar isso!

O autor sente-se feliz em agradecer cordialmente aos seus amigos M. Ch. Abdullah, M. St. Jean Vitus, que o ajudaram a rever o manuscrito, no que respeita à redacção em língua francesa.

Paris, 1º de Setembro de 1952. SERGE TCHAKHOTINE

http://skocky-alccyone.blogspot.com/2011/06/tirania-psicologica-andrea-devoto.html

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

«SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA» e « DA DESOBEDIÊNCIA CIVIL»




«SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA»


La Boétie escreveu no século XVI... poderia ter sido hoje:

"No momento, gostaria apenas que me fizessem compreender como é possível que tantos homens, tantas cidades, tantas nações às vezes suportem tudo de um só tirano, que tem apenas o poder que lhe dão, que não tem o poder de prejudicá-los senão enquanto aceitam suportá-lo, e que não poderia fazer-lhes mal algum se não preferissem, a contradizê-lo, suportar tudo dele. Coisa realmente surpreendente (e no entanto tão comum que se deve mais gemer por ela que surpreender-se) é ver milhões e milhões de homens miseravelmente subjugados e, de cabeça baixa, submissos a um jogo deplorável; não que a ele sejam obrigados por força maior, mas porque são fascinados e, por assim dizer, enfeitiçados apenas pelo nome de um que não deveriam temer, pois ele é só, nem amar, pois é desumano e cruel para com todos eles. Tal é entretanto a fraqueza dos homens."

A Desobediência Civil

Henry David Thoreau
Obra actualíssima, embora publicada em 1848
A Desobediência Civil é o texto mais conhecido de Thoreau. Escrito em 1848 influenciou profundamente pessoas como Mahatma Gandhi, Leon Tolstoi, Martin Luther King e tantos outros. Muito à frente de seu tempo, sua defesa do Direito à Rebeldia esteve, desde sempre, a serviço da luta contra todas as formas de discriminação. Lutou contra a escravidão nos EUA, pelos direitos das mulheres, em defesa do meio-ambiente, contra a discriminação étnica e sexual. Como pacifista Radical (indo à Raiz do mal que combate) recusou-se a pagar impostos a um governo autoritário que fazia mais uma guerra predatória na qual roubou mais da metade do território mexicano – este ato Radical de Desobediência Civil lhe custou um tempo na cadeia que lhe foi útil a escrever e deixar para a posteridade seus pensamentos – muitas vezes, diria mesmo que na maior parte delas, o lutador pelo que é VERDADEIRAMENTE Justo e Perfeito só é reconhecido postumamente após uma vida eivada de dissabores. Questão de escolha. Há aqueles que não compactuam com a injustiça, a prepotência, a arrogância ou o roubo. Há os que se acomodam. Quem se acomoda, em geral, vive melhor mas, como dizia Leonardo Da Vinci, não passam de meros condutores de comida, não deixando rastro algum de sua passagem pelo mundo exceto latrinas cheias... Acerca de um Homem do Quilate de Henry David Thoreau ( 1817 – 1862 ) muito já se disse. Dele mesmo, guardo comigo algumas pérolas aforismáticas:“Quando o súbdito nega obediência e quando o funcionário se recusa a aplicar as leis injustas ou simplesmente se demite, está consumada a Revolução”“A tirania da Lei não é abrandada por sua origem majoritária”“Só cada pessoa pode ser juiz de sua própria vida”“Não é suficiente ser deixado em paz por um governo que pratica a corrupção sistemática e cobra impostos para fazer mal a seu próprio povo!”
Vamos ao texto!
Aceito com entusiasmo o lema "O melhor governo é o que menos governa"; e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente. Leva­do às últimas consequências, este lema significa o seguinte, no que também creio: "O melhor governo é o que não governa de modo algum"; e, quando os homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão. O governo, no melhor dos casos, nada mais é do que um artifício conveniente; mas a maioria dos governos é por vezes uma inconveniência, e todo o governo algum dia acaba por ser in­conveniente. As objeções que têm sido levantadas contra a existência de um exército permanente, numerosas e substantivas, e que merecem prevalecer, podem também, no fim das contas, servir para pro­testar contra um governo permanente. O exército permanente é apenas um braço do governo permanente. O próprio governo, que é simplesmente uma forma que o povo escolheu para executar a sua vontade, está igualmente sujeito a abusos e perversões antes mesmo que o povo possa agir através dele. Prova disso é a actual guerra contra o México, obra de um número relativamente pequeno de indivíduos que usam o governo permanente como um instrumento particular; isso porque o povo não teria consentido, de início, uma iniciativa dessas.
Esse governo norte-americano - que vem a ser ele senão uma tradição, ainda que recente, tentando-se transmitir inteira à posteridade, mas que a cada instante vai perdendo porções da sua integridade? Ele não tem a força nem a vitalidade de um único homem vivo, pois um único homem pode fazê-lo dobrar-se à sua vontade. O governo é uma espécie de revólver brinquedo para o próprio povo; e ele certamente vai quebrar se por acaso os norte-americanos o usarem seriamente uns contra os outros, como uma arma de verdade. Mas nem por isso ele é menos necessário; pois o povo precisa dispor de uma ou outra máquina complicada e barulhenta para preencher a sua concepção de governo. Desta forma, os governos são a prova de como os homens podem ter sucesso no acto de oprimir em proveito próprio, não importando se a opressão se volta também contra eles. Devemos admitir que ele é excelente; no entanto, este governo em si mesmo nunca estimulou qualquer iniciativa a não ser pela rapidez com que se dispôs a não atrapalhar. Ele não mantém o país livre. Ele não povoa as terras do oeste. Ele não educa. O caráter inerente do povo norte-americano é o responsável por tudo o que temos conseguido fazer; e ele teria conseguido fazer consideravelmente mais se o governo não tivesse sido por vezes um obstáculo. Pois o governo é um artifício através do qual os homens conseguiriam de bom grado deixar em paz uns aos outros; e, como já foi dito, a sua conveniência máxima só ocorre quando os governados são minimamente molestados pelos seus governantes. Se não fossem feitos de borracha da Índia, os negócios e o comércio nunca conseguiriam ultrapassar os obstáculos que os legisladores teimam em plantar no seu caminho; e se fôssemos julgar estes senhores levando em conta exclusivamente os efeitos dos seus atos - esquecendo as suas intenções -, eles merece­riam a classificação dada e as punições impostas a essas pessoas nocivas que gostam de obstruir as ferrovias.
No entanto, quero me pronunciar em termos práticos como cidadão, distintamente daqueles que se chamam antigovernistas: o que desejo imediatamente é um governo melhor, e não o fim do governo. Se cada homem expressar o tipo de governo capaz de ganhar o seu respeito, estaremos mais próximos de conseguir formá-lo.
No final das contas, o motivo prático pelo qual se permite o governo da maioria e a sua continuidade - uma vez passado o poder para as mãos do povo - não é a sua maior tendência a emitir bons juízos, nem porque possa parecer o mais justo aos olhos da minoria, mas sim porque ela (a maioria) é fisicamente a mais forte. Mas um governo no qual prevalece o mando da maioria em todas as questões não pode ser baseado na justiça, mesmo nos limites da avaliação dos homens. Não será possível um governo em que a maioria não decida virtualmente o que é certo ou errado? No qual a maioria decida apenas aquelas questões às quais seja aplicável a norma da conveniência? Deve o cidadão desistir da sua consciência, mesmo por um único instante ou em última instância, e se dobrar ao legislador? Por que então estará cada homem dotado de uma consciência? Na minha opinião devemos ser em primeiro lugar homens, e só então súbditos. Não é desejável cultivar o respeito às leis no mesmo nível do respeito aos direitos. A única obrigação que tenho direito de assumir é fazer a qual­quer momento aquilo que julgo certo. Costuma-se dizer, e com toda a razão, que uma corporação não tem consciência; mas uma corporação de homens conscienciosos é uma corporação com consciência. A lei nunca fez os homens sequer um pouco mais justos; e o respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intencionados a agir quotidianamente como mensageiros da injustiça. Um resultado comum e natural de um respeito indevido pela lei é a visão de uma coluna de soldados - coronel, capitão, cabos, combatentes e outros - marchando para a guerra numa ordem impecável, cruzando morros e vales, contra a sua vontade, e como sempre contra o seu senso comum e a sua consciência; por isso essa marcha é mui­to pesada e faz o coração bater forte. Eles sabem perfeitamente que estão envolvidos numa iniciativa mal­dita; eles têm tendências pacíficas. O que são eles, então? Chegarão a ser homens? Ou pequenos fortes e paióis móveis, a serviço de algum inescrupuloso detentor do poder? É só visitar o Estaleiro Naval e contemplar um fuzileiro: eis aí o tipo de homem que um governo norte-americano é capaz de fabricar - ou transformar com a sua magia negra -, uma sombra pálida, uma vaga recordação da condição humana, um cadáver de pé e vivo que, no entanto, se poderia considerar enterrado sob armas com acompanhamento fúnebre, embora possa acontecer que

"Não se ouviu um rufar nem sequer um toque de silêncio enquanto à muralha o seu corpo levamos nenhum soldado disparou uma salva de adeus sobre o túmulo onde jaz o herói que enterramos".

Desta forma, a massa de homens serve ao Esta­do não na sua qualidade de homens, mas sim como máquinas, entregando os seus corpos. Eles são o exército permanente, a milícia, os carcereiros, os polícias, posse comitatus, e assim por diante. Na maior parte dos casos não há qualquer livre exercício de escolha ou de avaliação moral; ao contrário, estes homens nivelam-se à madeira, à terra e às pedras; e é bem possível que se consigam fabricar bonecos de madeira com o mesmo valor de homens desse tipo. Não são mais respeitáveis do que um espantalho ou um monte de terra. Valem tanto quanto cavalos e cachorros. No entanto, é comum que homens assim sejam apreciados como bons cidadãos. Há outros, como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, funcionários e dirigentes, que servem ao Estado principalmente com a cabeça, e é bem provável que eles sirvam tanto ao Diabo quanto a Deus - sem intenção -, pois raramente se dispõem a fazer distinções morais. Há um número bastante reduzido que serve ao Estado também com a sua consciência; são os heróis, patriotas, mártires, reformadores e homens, que acabam por isso necessariamente resistindo, mais do que servindo; e o Estado trata-os geralmente como inimigos. Um homem sábio só será de facto útil como homem, e não se sujeitará à condição de "barro" a ser moldado para "tapar um buraco e cortar o vento”; ele preferirá deixar esse papel, na pior das hipóteses, para as suas cinzas:

"A minha origem é nobre demais para que eu seja propriedade de alguém. Para que eu seja o segundo no comando ou um útil serviçal ou instrumento de qualquer Estado soberano deste mundo"

Os que se entregam completamente aos seus semelhantes são por eles considerados inúteis e egoístas; mas aqueles que se dão parcialmente são entronizados como benfeitores e filantropos.
Que comportamento digno deve ter um homem perante o actual governo vigente nos Estados Unidos? A minha resposta é que ele inevitavelmente se degrada pelo fato de estar associado a ele. Nem por um mi­nuto posso considerar o meu governo uma organização política que é também o governo do escravo.
Todos reconhecem o direito à revolução, ou seja, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis a sua tirania e ineficiência. No entanto, quase todos dizem que tal não acontece agora. Consideram, porém, que isso aconteceu em 1775. Se alguém me dissesse que o nosso governo é mau porque estabeleceu certas taxas sobre bens estrangeiros que chegam aos seus portos, o mais provável é que eu não criasse qualquer caso, pois posso muito bem passar sem eles: todas as máquinas têm atrito e talvez isso faça com que o bom e o mau se compensem. De qualquer forma, fazer um rebuliço por causa disso é um grande mal. Mas quando o próprio atrito chega a construir a máquina e vemos a organização da tirania e do roubo, afirmo que devemos repudiar essa máquina. Em outras palavras, quando um sexto da população de um país que se elegeu como o refúgio da liberdade é composto de escravos, e quando todo um país é injustamente assaltado e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à lei marcial, devo dizer que não é cedo demais para a rebelião e a revolução dos homens honestos. E esse dever é tão mais urgente pelo fato de que o país assaltado não é o nosso, e pior ainda, que o exército invasor é o nosso.
William Paley, uma autoridade em assuntos morais, tem um capítulo intitulado Duty of submission to civil government (O dever de submissão ao governo civil), no qual soluciona toda a questão das obrigações políticas pela fórmula da conveniência; e diz: "Enquanto o exigir o interesse de toda a sociedade, ou seja, enquanto não se possa resistir ao governo estabelecido ou mudá-lo sem in­conveniência pública, é a vontade de Deus que tal governo seja obedecido - e nem um dia além disso. Admitindo-se este princípio, a justiça de cada acto particular de resistência reduz-se à computação do volume de perigo e protestos, de um lado, e da probabilidade e custos da reparação, de outro". Diz ele que cada um julgará esta questão por si mesmo. Mas parece que Paley nunca levou em conta os casos em que a regra da conveniência não se aplica, nos quais um povo ou um indivíduo tem que fazer justiça a qualquer custo. Se arranquei injustamente a tábua que é a salvação de um homem que se afoga, sou obrigado a devolvê-la, ainda que eu mesmo me afogue. De acordo com Paley, esta é uma circunstância inconveniente. Mas quem quiser salvar - se desta for­ma acabará perdendo a vida. O povo norte-americano tem que pôr fim à escravidão e tem que parar de guerrear com o México, mesmo que isso lhe custe a existência enquanto povo.
As nações, na sua prática, concordam com Paley, mas haverá quem considere que Massachusetts esteja agir corretamente na crise atual?

"Uma rameira de alta linhagem, um trapo de pano prateado atirado à lama,
Levanta a cauda do vestido, e arrasta no chão a sua alma"

Em termos práticos, os que se opõem à abolição em Massachusetts não são uns cem mil políticos do sul, mas uns cem mil comerciantes e fazendeiros da­qui, que se interessam mais pelos negócios e pela agricultura do que pela humanidade e que não estão dispostos a fazer justiça ao escravo e ao México, custe o que custar. Não discuto com inimigos distantes, mas com aqueles que, bem perto de mim, cooperam com a posição de homens que estão longe daqui e a defendem; estes últimos homens seriam inofensivos se não fosse por aqueles. Estamos acostumados a afirmar que os homens em geral são despreparados; mas as melhorias são lentas, porque os poucos não são substantivamente mais sábios ou melhores do que os muitos. Não é tão importante que muitos sejam tão bons quanto você, e sim que haja em algum lugar alguma porção absoluta de virtude; isso bastará para fermentar toda a massa. Há milhares de pessoas cuja opinião é contrária à escravidão e à guerra; apesar disso, nada fazem de electivo para pôr fim a ambas; dizem-se filhos de Washington e Franklin, mas ficam sentados com as mãos nos bolsos, dizendo não saber o que pode ser feito e nada fazendo; chegam a colocar a questão do livre comércio à frente da questão da liberdade, e ficam quietos lendo as cotações do dia junto com os últimos boletins militares sobre a campanha do México; é possível até que acabem por adormecer durante a leitura. Qual é hoje a cotação do dia de um homem honesto e patriota? Eles hesitam, arrependem-se e às vezes assinam petições, mas nada fazem de sério ou de eletivo. Com muito boa disposição, preferem esperar que outros remedeiem o mal, de forma que nada reste para motivar o seu arrependimento. No melhor dos casos, nada mais farão do que depositar na urna um voto insignificante, cumprimentar timidamente a atitude certa e, de passagem, desejar-lhe boa sorte. Há novecentos e noventa e nove patronos da virtude e apenas um homem virtuoso; mas é mais fácil lidar com o verdadeiro dono de algo do que com seu guardião temporário.
Toda a votação é um tipo de jogo, tal como damas ou gamão, com uma leve coloração moral, onde se brinca com o certo e o errado sobre questões morais; e é claro que há apostas neste jogo. O caráter dos eleitores não entra nas avaliações. Proclamo o meu voto - talvez - de acordo com meu critério moral; mas não tenho um interesse vital de que o certo saia vitorioso. Estou disposto a deixar essa decisão para a maioria. O compromisso de votar, desta forma, nunca vai mais longe do que as conveniências. Nem mesmo o acto de votar pelo que é certo implica fazer algo pelo que é certo. É apenas uma forma de expressar publicamente o meu anémico desejo de que o certo venha a prevalecer. Um homem sábio não deixará o que é certo nas mãos incertas do acaso e nem esperará que a sua vitória se dê através da força da maioria. Há escassa virtude nas ações de massa dos homens. Quando finalmente a maioria votar a favor da abolição da escravatura, das duas uma: ou ela será indiferente à escravidão ou então restará muito pouca escravidão a ser abolida pelo o seu voto. A essa altura, os únicos escravos serão eles, os integrantes da maio­ria. O único voto que pode apressar a abolição da escravatura é o daquele homem que afirma a própria liberdade através do seu voto.
Estou informado de que haverá em Baltimore, ou em outro lugar qualquer, uma convenção para escolher um candidato à presidência; essa convenção é composta principalmente por editores de jornais e políticos profissionais; mas que importância terá a possível decisão desta reunião para um homem independente, inteligente e respeitável? No fim das contas, ainda poderemos contar com as vantagens da sua sabedoria e da sua honestidade, não é mesmo? Será que não poderemos prever alguns votos independentes? Não haverá muitas pessoas neste país que não frequentam convenções? Mas não é isso o que ocorre: percebo que o homem considerado respeitável logo abandona a sua posição e passa a não ter mais esperanças no seu país, quando o mais certo seria que seu país desesperasse dele. A partir disso ele adere a um dos candidatos assim selecionados por ser o único disponível, apenas para provar que ele mesmo está disponível para todos os planos do demagogo. O voto de um homem desses não vale mais do que o voto eventualmente comprado de um estrangeiro inescrupuloso ou do nativo venal. Oh! É preciso um homem que seja um homem e que tenha, como diz um vizinho meu, uma coluna dorsal que não se dobre aos poderosos! As nossas estatísticas estão erradas: contou-se gente demais. Quantos homens existem em cada mil milhas quadradas deste país? Dificilmente se contará um. A América oferece ou não incentivos para a imigração de homens? Os homens norte-americanos foram rareando até à dimensão de uma irmandade secreta como a dos Odd Fellows, cujo integrante típico pode ser identifica­do pelo seu descomunal caráter gregário, pela manifesta falta de inteligência e de jovial autoconfiança; a sua preocupação primeira e maior ao dar entrada neste mundo é a de verificar se os asilos estão em boas condições de funcionamento; antes mesmo de ter direito a envergar roupas de adulto ele organiza uma colecta de fundos para as viúvas e órfãos que porventura existam; em poucas palavras, é um homem que só ousa viver com a ajuda da Companhia de Seguros Mútuos, que lhe prometeu um enterro decente.
De fato, nenhum homem tem o dever de se dedicar à erradicação de qualquer mal, mesmo o maior dos males; ele pode muito bem ter outras preocupações que o mobilizem. Mas ele tem no mínimo a obrigação de lavar as mãos frente à questão e, no caso de não mais se ocupar dela, de não dar qualquer apoio prático à injustiça. Se me dedico a outras metas e considerações, preciso ao menos verificar se não estou fazendo isso à custa de alguém em cujos ombros esteja sentado. É preciso que eu saia de cima dele para que ele também possa estar livre para fazer as suas considerações. Vejam como se tolera uma inconsistência das mais grosseiras. Já ouvi alguns dos meus conterrâneos dizerem: "Queria que eles me convocassem para ir combater um levante de escravos ou para atacar o México - pois eu não iria"; no entanto, cada um destes homens possibilitou o envio de um substituto, fazendo isso diretamente pela sua fidelidade ao governo, ou pelo menos indirectamente através do seu dinheiro. O soldado que se recusa a participar de uma guerra injusta é aplaudido por aqueles que não recusam apoio ao governo injusto que faz a guerra; é aplaudido por aqueles cuja acção e autoridade ele despreza e desvaloriza; tudo funciona como se o Estado estivesse suficiente­mente arrependido para contratar um crítico dos seus pecados, mas insuficientemente arrependido para interromper por um instante sequer os seus atos pecaminosos. Estamos todos, desta forma, de conformidade com a ordem e o governo civil, reunidos para homenagear e dar apoio à nossa própria crueldade. Se ruborizamos ante o nosso primeiro pecado, logo depois se instala a indiferença. Passamos do imoral ao não-moral, e isso não é tão desnecessário assim para o tipo de vida que construímos.
O mais amplo e comum dos erros exige a virtude mais generosa para se manter. São os nobres os mais passíveis de proferir os moderados ataques a que comumente está sujeita a virtude do patriotismo. Sem dúvida, os maiores baluartes conscienciosos do governo, e muito frequentemente os maiores opositores das reformas, são aqueles que desaprovam o carácter e as medidas de um governo, sem no entanto lhe retirar a sua lealdade e apoio. Há gente colectando assinaturas para fazer petições ao Estado de Massachusetts no sentido de dissolver a União e de desprezar as recomendações do presidente. Ora, por que eles mesmos não dissolvem essa união entre eles e o Estado e se recusam a pagar a sua cota de impostos? Não estão eles na mesma relação com o Estado que a que este mantém com a União? E não são as mesmas as razões que evitaram a resistência do Esta­do à União e a resistência deles ao Estado?
Como pode um homem satisfazer -se com a mera posse de uma opinião e de fato usufruí-la? Pode haver algum usufruto da opinião quando o dono dela a vê ofendida? Se o seu vizinho o vigariza e lhe sub­trai um mero dólar, você não se satisfaz com a descoberta da vigarice, com a proclamação de que foi vigarizado e nem mesmo com as suas gestões no sentido de ser devidamente reembolsado; o que você faz é tomar medidas efetivas e imediatas para ter o seu dinheiro de volta e cuidar de nunca mais ser enganado. Ações baseadas em princípios - a percepção e a execução do que é certo - modificam coisas e relações; a ação deste gênero é essencialmente revolucionária e não se reduz integralmente a qualquer coisa preexistente. Ela cinde não apenas Estados e Igrejas; divide famílias; e também divide o «indivíduo» separando nele o diabólico do divino.
Existem leis injustas; devemos submeter-nos a elas e cumpri-las, ou devemos tentar emendá-las e obedecer a elas até à sua reforma, ou devemos transgredi-las imediatamente? Numa sociedade com um governo como o nosso, os homens em geral pensam que devem esperar até que tenham convencido a maioria a alterar essas leis. A sua opinião é de que a hipótese da resistência pode vir a ser um remédio pior do que o mal a ser combatido. Mas é precisa­mente o governo o culpado pela circunstância de o remédio ser de fato pior do que o mal. É o governo que faz tudo ficar pior. Por que o governo não é mais capaz e se antecipa para lutar pela reforma? Por que ele não sabe valorizar a sua sábia minoria? Por- que ele chora e resiste antes de ser atacado? Por que ele não estimula a participação altiva dos cidadãos para que eles lhe mostrem as suas falhas e para conseguir um desempenho melhor do que eles lhe exigem? Por que eles lhe exigem? Por que ele sempre crucifica Jesus Cristo, e excomunga Copérnico e Lutero e qualifica Washington e Franklin de rebeldes?
Não é absurdo pensar que o único tipo de transgressão que o governo nunca previu foi a negação deliberada e prática de sua autoridade; se não fosse assim, por que então não teria ele estabelecido a penalidade clara, cabível e proporcional? Se um homem sem propriedade se recusa pela primeira vez a recolher nove xelins aos cofres do Estado, é preso por prazo cujo limite não é estabelecido por qualquer lei que eu conheça; esse prazo é determinado exclusivamente pelo arbítrio dos que o enviam à prisão. Mas se ele resolver roubar noventa vezes nove xelins do Estado, em breve estará novamente em liberdade.
Se a injustiça é parte do inevitável atrito no funcionamento da máquina governamental, que seja assim: talvez ela acabe suavizando-se com o desgaste - certamente a máquina ficará desajustada. Se a injustiça for uma peça dotada de uma mola exclusiva - ou roldana, ou corda, ou manivela -, aí então talvez seja válido julgar se o remédio não será pior do que o mal; mas se ela for de tal natureza que exija que você seja o agente de uma injustiça para outros, digo, então, que se transgrida a lei. Faça da sua vida um contra-atrito que pare a máquina. O que preciso fazer é cuidar para que de modo algum eu participe das misérias que condeno.
No que diz respeito às vias pelas quais o Esta­do espera que os males sejam remediados, devo dizer que não as conheço. Elas são muito demoradas, e a vida de um homem pode chegar ao fim antes que elas produzam algum efeito. Tenho outras coisas para fazer. Não vim a este mundo com o objetivo principal de fazer dele um bom lugar para morar, mas apenas para morar nele, seja bom ou mão. Um homem não carrega a obrigação de fazer tudo, mas apenas alguma coisa; e só porque não pode fazer tudo não é necessário que faça alguma coisa errada. Não está dentro das minhas incumbências apresentar petições ao governador e à Assembléia Legislativa, da mesma forma que eles nada precisam fazer de semelhante em relação a mim. Suponhamos que eles não dêem atenção a um pedido meu; que devo fazer então? Mas nesse caso o Estado não forneceu outra via: o mal está na sua própria Constituição. Isto pode parecer grosseria, teimosia e intransigência, mas só quem merece ou pode apreciar a mais fina bondade e consideração deve receber este tipo de tratamento. Todas as mudanças para melhor são assim, tais como o nascimento e a morte, que produzem convulsões nos corpos.
Não hesito em afirmar que todos os que se intitulam abolicionistas devem imediata e efetivamente retirar o seu apoio - em termos pessoais e de propriedade - ao governo do Estado de Massachusetts, e não ficar esperando até que consigam formar a mais estreita das maiorias para só então alcançar o sofrido direito de vencer através dela. Creio que basta saber que Deus está do seu lado, o que vale mais do que o último votante a fazer majoritárias as suas fileiras. E, além de tudo, qualquer homem mais correto do que os seus vizinhos já constitui uma maioria apertada.
É apenas uma vez por ano, e não mais do que isso, que me encontro cara a cara com este governo norte-americano, ou com o governo estadual que o representa: é quando sou procurado pelo coletor de impostos; essa é a única instância em que um homem na minha situação não pode deixar de se encontrar com esse governo; e ele aproveita a oportunidade e diz claramente: "Reconheça-me". E não há outra forma mais simples, mais efetiva e, na conjuntura atual, mais indispensável de lidar com o governo neste particular, de expressar a sua pouca satisfação ou seu pouco amor em relação a ele: é preciso negá-lo, naquele local e momento. O coletor de impostos é meu vizinho e concidadão, e é com ele que tenho de lidar porque afinal de contas estou lutando contra homens, e não contra o pergaminho das leis, e sei que ele voluntariamente optou por ser um agente governamental. Haverá outro modo de ele ficar sabendo claramente o que é e o que fiz enquanto agente do governo, ou enquanto homem, a não ser quando forçado a decidir que tratamento vai dar a mim, o vizinho que ele respeita como tal e como homem de boa índole, ou que ele considera um maníaco e desordeiro? Será ele capaz de superar esse obstáculo à sua sociabilidade sem um pensamento ou uma palavra mais rudes ou mais impetuosos a acompanhar a sua ação? Disso estou certo: se mil, ou cem, se dez homens que conheço - apenas dez homens honestos ou até um único homem honesto do Estado de Massachusetts, não mais sendo dono de escravos, decidisse pôr fim ao seu vínculo com o Estado, para logo em seguida ser trancado na cadeia municipal, estaria ocorrendo nada menos do que a abolição da escravatura nos Estados Unidos da América. Pois não importa que os primeiros passos pareçam peque­nos: o que se faz bem feito faz-se para sempre. Mas preferimos debater o assunto: essa é nossa missão, dizemos. Há dezenas de jornais nas fileiras do abolicionismo, mas não há um único homem. O meu querido vizinho, que desempenhou o papel de embaixador de Massachusetts e que sempre se dedica à resolução das questões dos direitos humanos na Câmara do Conselho, esteve ameaçado de amargar uma prisão na Carolina do Sul; no entanto, se tivesse sido prisioneiro do Estado de Massachusetts, esse Estado que ansiosamente lança à Carolina do Sul a acusação de pecar com a escravidão (embora atualmente não encontre nada além de uma atitude pouco hospitaleira como motivo para brigar com ela), o nosso Legislativo não seria capaz de adiar liminarmente o assunto da escravidão até ao próximo inverno.
Sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é também a prisão. Hoje em dia, o lugar próprio, o único lugar que Massachusetts reserva para os seus habitantes mais livres e menos desalentados são as suas prisões, nas quais serão confinados e tranca­dos longe do Estado, por um ato do próprio Estado pois os que vão para a prisão já antes tinham se confinado nos seus princípios. E aí que devem ser encontrados quando forem procurados pelos escravos fugidos, pelo prisioneiro mexicano em liberdade condicional e pelos indígenas, para ouvir as denúncias sobre as humilhações impostas aos seus povos; é aí, nesse chão discriminado, mas tão mais livre e honroso, onde o Estado planta os que não estão com ele mas sim contra ele - a única casa num Estado-senzala na qual um homem livre pode perseverar com honra. Se há alguém que pense ser a prisão um lugar de onde não mais se pode influir, no qual a sua voz deixa de atormentar os ouvidos do Estado, no qual não conseguiria ser tão hostil a ele, esse alguém ignora o quanto a verdade é mais forte que o erro e também não sabe como a injustiça pode ser combatida com muito mais eloqüência e efetividade por aqueles que já sofreram na carne um pouco dela. Manifeste integralmente o seu voto e exerça toda a sua influência; não se deixe confinar por um pedaço de papel. Uma minoria é indefesa quando se conforma à maioria; não chega nem a ser uma minoria numa situação dessas; mas ela é irresistível quando intervém com todo o seu peso. Se a alternativa ficar entre manter todos os homens justos na prisão ou desistir da guerra e da escravidão, o Estado não hesitará na escolha. Se no ano corrente mil homens não pagas­sem os seus impostos, isso não seria uma iniciativa tão violenta e sanguinária quanto o próprio pagamento, pois neste caso o Estado fica capacitado para come­ter violências e para derramar o sangue dos inocentes. Esta é, na verdade, a definição de uma revolução pacífica, se é que é possível uma coisa dessas. Se, como já ouvi um deles me perguntar, o colector de impostos ou outro funcionário público qualquer indagar: "Mas o que devo fazer agora?", a minha resposta é: "Se de facto quiser fazer alguma coisa, então renuncie ao seu cargo". Quando o súbdito negou a lealdade e o funcionário renunciou ao seu cargo, então a revolução completou-se. Mas vamos supor que há violência. Não poderíamos considerar que uma agres­são à consciência também provoca um tipo de ferimento grave? Um ferimento desses provoca a perda da autêntica humanidade e da imortalidade de um homem, e ele sangra até uma morte eterna. Posso ver esse sangue a correr, agora.
Especulei sobre a prisão do infractor, e não sobre o confisco dos seus bens - embora ambas as medidas sirvam ao mesmo fim -, porque os que afirmam o certo e que, por isso, são os seres mais perigosos para um Estado corrupto, em geral não gastam muito do seu tempo na acumulação de propriedades. Para homens assim o Estado presta serviços relativamente pequenos e um imposto bem leve tende a ser considerado exorbitante, particularmente quando são obrigados a realizar um trabalho especial para conseguir a quantia cobrada. Se houvesse quem vivesse inteiramente sem usar o dinheiro, o próprio Estado hesitaria em exigir que ele lhe entregasse uma quantia. O homem rico, no entanto - e não pretendo estabelecer uma comparação invejosa -, é sempre um ser vendido à instituição que o enriquece. Falando em termos absolutos, quanto mais dinheiro, me­nos virtude; pois o dinheiro interpõe-se entre um homem e os seus objectivos e permite que ele os compre; obter alguma coisa dessa forma não é uma grande virtude. O dinheiro acalma muitas perguntas que de outra forma ele se veria pressionado a fazer; de outro lado, a única pergunta nova que o dinheiro suscita é difícil, embora supérflua: "Como gastá-lo?" Um homem assim fica, portanto, sem base para uma moralidade. As oportunidades de viver diminuem proporcionalmente ao acúmulo daquilo que se chama de "meios". A melhor coisa a ser feita em prol da cultura do seu tempo por um homem rico é realizar os planos que tinha quando ainda era pobre. Cristo respondeu aos seguidores de Herodes de acordo com a situação deles. "Mostrem-me o dinheiro dos tributos", disse ele; e um deles tirou do bolso uma moeda. Disse então Jesus Cristo: "Se vocês usam o dinheiro com a imagem de César, dinheiro que ele colocou em circulação e ao qual ele deu valor, ou seja, se vocês são homens do Estado e estão felizes de se aproveitar das vantagens do governo de César, então paguem-no por isso quando ele o exigir. Por­tanto, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"; Cristo não lhes disse nada sobre como distinguir um do outro; eles não queriam saber isso.
Quando converso com os mais livres dentre os meus vizinhos, percebo que, independentemente do que digam a respeito da grandeza e da seriedade do problema e de sua preocupação com a tranquilidade pública, no fim das contas tudo se reduz ao seguinte: eles não podem abrir mão da protecção do governo actual e temem as conseqüências que a sua rebeldia provocaria nas suas propriedades e famílias. Da minha parte, não gosto de imaginar que possa vir algum dia a depender da protecção do Estado. Mas se eu negar a autoridade do Estado quando ele apresenta a minha conta de impostos, ele logo confiscará e dissipará a minha propriedade e tratará de me hostilizar e à minha família para sempre. Essa é uma perspectiva muito dura. Isso torna impossível uma vida que seja simultaneamente honesta e confortável em aspectos exteriores. Não valeria a pena acumular propriedade; ela certamente se perderia de novo. O que se tem a fazer é arrendar alguns alqueires ou ocupar uma terra devoluta, cultivar em pequena escala e consumir logo toda a sua produção. Você tem que viver dentro de si mesmo e depender de si mesmo, sempre de mala feita e pronto para recomeçar; você não deve desenvolver muitos vínculos. Até mesmo na Turquia você pode ficar rico, se em tudo for um bom súbdito do governo turco. Confúcio disse: «Se um Estado é governado pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria são fatos acabrunhantes; se um Estado não é governado pelos princípios da razão, a riqueza e as honrarias são os fatos acabrunhantes". Não! Até que eu solicite um remoto porto sulino, que a proteção do Estado de Massachusetts me seja estendida com o fim de preservar a minha liberdade, ou até que eu me dedique apenas a construir pacificamente um património aqui no meu Estado, posso negar a minha lealdade ao governo local e negar o seu direito à minha propriedade e à minha vida. Sai mais barato, em todos os sentidos, sofrer a penalidade pela desobediência do que obedecer. Obedecer faria com que eu me sentisse diminuído.
Há alguns anos o Estado procurou-me em nome de uma organização religiosa e intimou-me a pagar uma certa quantia destinada a sustentar um pregador que o meu pai costumava frequentar; eu nunca o tinha visto. "Pague ou será trancado na cadeia", disse o Estado. Eu recusei-me a pagar. Infelizmente, no entanto, outro homem achou melhor fazer o pagamento em meu nome. Não consegui descobrir por que o mestre-escola deveria pagar imposto para sustentar o clérigo e não o clérigo contribuir para o sustento do mestre-escola; pois eu não era mestre-escola do Estado, e sustentava-me com subscrições voluntárias. Não vi o motivo pelo qual o liceu não devesse apresentar a sua conta de impostos e fazer com que o Estado apoiasse, junto com a organização religiosa, essa sua pretensão. No entanto, os conselheiros municipais pediram-me e eu concordei em fazer uma declaração por escrito cuja redação ficou mais ou menos assim: "Saibam todos quantos esta declaração lerem que eu, Henry Thoreau, não desejo ser considerado integrante de qualquer sociedade organizada à qual não tenha aderido". Entreguei o texto ao secretário da municipalidade. Deve estar com ele até hoje. Sabendo portanto que eu não queria ser considerado membro daquela organização religiosa, o Estado nunca mais me fez uma exigência parecida; ele considerava, no entanto, que estava certo e que deveria continuar a operar a partir dos pressupostos originais com que me abordou. Se fosse possível saber os seus nomes, eu ter-me-ia desligado minuciosamente, na mesma ocasião, de todas as organizações das quais não era membro; mas não soube onde encontrar uma lista completa delas.
Há seis anos que não pago o imposto per capita. Fui encarcerado certa vez por causa disso, e passei uma noite preso; enquanto o tempo passava, fui observando as paredes de pedra sólida com dois ou três pés de espessura, a porta de madeira e ferro com um pé de espessura e as grades de ferro que dificultam a entrada da luz, e não pude deixar de perceber a idiotice de uma instituição que me tratava como se eu fosse apenas carne e sangue e ossos a serem trancafiados. Fiquei especulando que ela devia ter concluído, finalmente, que aquela era a melhor forma de me usar e, também, que ela jamais cogitara de se aproveitar dos meus serviços de alguma outra maneira. Vi que apesar da grossa parede de pedra entre mim e os meus concidadãos, eles tinham uma mu­ralha muito mais difícil de vencer antes de conseguirem ser tão livres quanto eu. Nem por um momento me senti confinado, e as paredes pareceram-me um desperdício descomunal de pedras e argamassa. O meu sentimento era de que eu tinha sido o único dos meus concidadãos a pagar o imposto. Estava claro que eles não sabiam como lidar comigo e que se comportavam como pessoas pouco educadas. Havia um erro crasso em cada ameaça e em cada saudação, pois eles pensavam que o meu maior desejo era o de estar do outro lado daquela parede de pedra. Não pude deixar de sorrir perante os cuidados com que fecharam a porta e trancaram as minhas reflexões - que os acompanhavam porta afora sem delongas ou dificuldade; e o perigo estava de facto contido nelas. Como eu estava fora do seu alcance, resolveram punir o meu corpo; agi­ram como meninos incapazes de enfrentar uma pessoa de quem sentem raiva e que então dão um chuto no cachorro do seu desafecto. Percebi que o Estado era um idiota, tímido como uma solteirona às voltas com a sua prataria, incapaz de distinguir os seus amigos dos inimigos; perdi todo o respeito que ainda tinha por ele e passei a considerá-lo apenas lamentável.
Portanto, o Estado nunca confronta intencionalmente o sentimento intelectual ou moral de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus sentidos. Ele não é dotado de génio superior ou de honestidade, apenas de mais força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar da forma que eu mesmo escolher. Veremos quem é mais forte. Que força tem uma multidão? Os únicos que podem coagir-me são os que obedecem a uma lei mais alta do que a minha. Eles obrigam-me a ser como eles. Nunca ouvi falar de homens que tenham sido obrigados por multidões a viver desta ou daquela forma. Que tipo de vida seria essa? Quando defronto um governo que me diz "A bolsa ou a vida!", por que deveria apressar-me em lhe entregar o meu dinheiro? Ele talvez esteja passando por um grande apêrto, sem saber o que fazer. Não posso ajudá-lo. Ele deve cuidar de si mesmo; deve agir como eu ajo. Não vale a pena choramingar sobre o assunto. Não sou individualmente responsável pelo bom funcionamento da máquina da sociedade. Não sou o filho do maquinista. No meu modo de ver quando sementes de carvalho e de castanheira caem lado a lado, uma delas não se retrai para dar vez à outra; pelo contrário, cada uma segue as suas próprias leis, e brotam, crescem e florescem da melhor manei­ra possível, até que uma por acaso acaba superando e destruindo a outra. Se uma planta não pode viver de acordo com a sua natureza, então ela morre; o mesmo acontece com um homem.

A noite que passei na prisão, além de uma novidade, foi também bem interessante. Os prisioneiros, em mangas de camisa, distraíam-se conversando na entrada, aproveitando o vento fresco da noite; assim estavam quando me viram chegar. Mas o carcereiro disse-lhes: "Venham, rapazes, já é hora de trancar as portas"; ouvi o barulho dos seus passos enquanto caminhavam para os seus compartimentos vazios. O carcereiro apresentou-me o meu companheiro de cela, qualificando-o como "um sujeito de primeira e um homem esperto”. Trancada a porta, ele mostrou-me o cabide onde deveria pendurar o meu chapéu e explicou-me como administrava as coisas por ali. As celas eram caiadas uma vez por mês; a nossa cela, pelo menos, era o apartamento mais branco, de mobiliário mais simples e provavelmente o mais limpo de toda a cidade. Naturalmente ele quis saber de onde eu vinha e por que eu tinha ido parar ali; quando lhe contei a minha história, foi minha a vez de lhe perguntar a sua, na suposição evidente de que ele era um homem honesto; e, da maneira que as coisas estão, acredito que ele de facto era um homem honesto. Ele disse: «Ora, acusam-me de ter incendiado um celeiro; mas não fui eu". Pelo que pude perceber, ele provavelmente fora deitar-se, bêbado, para dormir num celeiro, não sem antes fumar o seu cachimbo; e assim perdeu-se no fogo um celeiro. Ele tinha a fama de ser um homem esperto, e ali aguardava havia três meses o seu julgamento; tinha outros três meses a esperar ainda; mas estava bem cordato e contente, já que não pagava pela casa e comida e se considerava bem tratado.
Ele ficava ao lado de uma janela, e eu junto à outra; percebi que se alguém ficasse por ali por mui­to tempo acabaria tendo por atividade principal olhar pela janela. Em pouco tempo eu tinha lido os folhetos que encontrara, e fiquei observando os locais por onde antigos prisioneiros tinham fugido, vi onde uma grade tinha sido serrada e ouvi a história de vá­rios hóspedes anteriores daquele aposento; pois acabei descobrindo que até mesmo ali circulavam histórias e tagarelices que não conseguem atravessar as paredes da cadeia. Essa é provavelmente a única casa na cidade onde se escrevem poesias que são publica­das em forma de circular, mas que não chegam a tornar-se livros. Mostraram-me uma grande quantidade de poesias feitas por alguns jovens cuja tentativa de fuga tinha sido frustrada; eles vingavam-se declamando os seus versos.
Tirei tudo o que pude do meu companheiro de cela, pois temia nunca mais tornar a encontrá-lo; mas finalmente ele indicou-me a minha cama e deixou para mim a tarefa de apagar a lamparina. Ficar ali deitado por uma única noite foi como viajar a um país distante, um país que eu nunca teria imaginado visitar. Pareceu-me que nunca antes ouvira o relógio da cidade dar as horas ou os ruídos nocturnos da aldeia; isso porque dormíamos com as janelas abertas, janelas estas instaladas por dentro das grades. Era como contemplar a minha aldeia natal à luz da Idade Média, e o nosso familiar rio Concord transformou-se na torrente de um Reno; à minha frente desfilaram visões de cavaleiros e castelos. As vozes que ouvia nas ruas eram dos antigos burgueses. Fui espectador e testemunha involuntária de tudo o que se fazia e dizia na cozinha da vizinha hospedaria local - uma experiência inteiramente nova e rara para mim. Tive uma visão bem mais íntima da minha cidade natal. Eu estava razoavelmente perto da sua alma. Nunca antes vira as suas instituições. Essa cadeia é uma das suas instituições peculiares, pois Concord é a sede do condado. Comecei a compreender o que preocupa os seus habitantes.
Quando chegou a manhã, o nosso desjejum foi empurrado para dentro da cela através de um buraco na porta; era servido numa vasilha de estanho ajustada ao tamanho do buraco e consistia numa porção de chocolate com pão preto; junto vinha uma colher de ferro. Quando do lado de fora pediram a devolução das vasilhas, a minha inexperiência foi tanta que co­loquei de volta o pão que não comera; mas o meu companheiro pegou o pão e aconselhou-me a guardá-lo para o almoço ou para o jantar. Pouco depois, deixaram que ele saísse para trabalhar num campo de feno das vizinhanças, para onde se deslocava todos os dias; não voltaria antes do meio-dia; ele então deu-me bom-dia e disse que duvidava que nos víssemos de novo.
Quando saí da prisão - pois alguém interferiu e pagou o meu imposto -, percebi diferenças, não as grandes mudanças no dia-a-dia notadas por aqueles aprisionados ainda jovens e devolvidos já trôpegos e grisalhos. Ainda assim uma nova perspectiva tinha-se instalado no meu modo de ver a cidade, o Estado e o país, representando uma mudança maior do que se fosse causada pela mera passagem do tempo. Vi com clareza ainda maior o Estado que habitava. Vi até que ponto podia confiar nos meus conterrâneos como bons vizinhos e amigos; e percebi que a sua amizade era apenas para os momentos de tranqüilidade; senti que eles não têm grandes intenções de proceder corretamente; descobri que, tal como os chineses e malaios, eles formam uma raça diferente da minha, por causa dos seus preconceitos e superstições; constatei que eles não arriscam a si mesmos ou a sua propriedade nos seus atos de sacrifício pela humanidade; vi que, no fim das contas, eles não são tão nobres a ponto de conseguir tratar o ladrão de forma diferente do que este os trata; e que só querem sal­var as suas almas, através de acções de efeito, de algumas orações e da eventual observação dos limites particularmente estreitos e inúteis de um caminho de rectidão. É possível que esteja proferindo um julga­mento duro sobre os meus vizinhos, pois acredito que a maioria deles não sabe que existe na sua cidade uma instituição tal como a cadeia.
Antigamente, na nossa aldeia, havia o costume de saúdar os pobres endividados que saíam da cadeia olhando-os através dos dedos dispostos em forma das barras de uma janela de prisão; e perguntava-se ao recém-liberto: “Como vai?" Não recebi essa saudação dos meus conhecidos, que primeiro me encaravam e depois entreolhavam-se, como se eu acabas­se de voltar de uma longa viagem. Eu tinha sido preso quando me dirigia ao sapateiro para buscar uma bota consertada. Quando fui solto na manhã seguinte, resolvi retomar o que estava fazendo e, depois de calçar a tal bota, juntei-me a um grupo que pretendia colher frutas silvestres e me queria como guia. E em pouco mais de meia hora - pois logo recebi um cavalo arreado - chegamos ao topo de um dos nossos mais altos morros, onde abundavam frutas silvestres, a três quilômetros da cidade; e dali não se podia ver o Estado em lugar nenhum.
Esta é a história completa das “Minhas prisões''.

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