É forte o homem que dispõe de alguns milhões. Mas é temível o homem que não tem necessidades, que não tem compromissos, que não tem medo, e que mantém o ânimo firme, o pensamento lúcido, o olhar justo e a mão desembaraçada!
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
«EMINÊNCIA PARDA» - (´GREY EMINENCE`) - ALDOUS HUXLEY
«EMINÊNCIA PARDA»
A História de Père Joseph
O conselheiro de Richelieu
ALDOUS HUXLEY
TRADUÇÃO: PAULO MOREIRA DA SILVA
EDIÇÃO DA LIVRARIA DO GLOBO
PORTO ALEGRE - 1943
EDIÇÃO Nº 1379 A
TÍTULO ORIGINAL: ´GREY EMINENCE`:
A Study in Religion and Politics
1941
A PRIMEIRA BIOGRAFIA DE ALDOUS HUXLEY
Depois de cultivar, com extraordinário sucesso o romance, a novela, o ensaio e o drama, Aldous Huxley lança-se à biografia, para produzir em ´EMINÊNCIA PARDA` a sua obra mais profunda e decisiva. Feri José é um frade capuchinho que ´parece bastante afastado das nossas preocupações contemporâneas`. No entanto, olhando mais de perto a sua biografia «´verificaremos que os seus sentimentos, pensamentos e desejos estão entre as condições determinantes do universo em que temos vivido. A rota palmilhada por
aqueles pés calejados e descalços levava...a Agosto de 1914 e a Setembro de 1939, bem como a mais recentes aberrações.` Na longa cadeia de crimes e loucuras que liga o mundo actual ao seu passado, um dos elos de mais fatídica importância foi a Guerra dos Trinta Anos. Muitos foram os que contribuiram para forjar este elo; mas nenhum mais decisivo que o colaborador de Richelieu, François Leclerc de Tremblay, conhecido na vida religiosa como Frei José de Paris e na história anedótica como ´Eminence Grise`. »
«Mas é este em absoluto o único pormenor que merece a nossa atenção. Se Frei José tivesse sido apenas um dos parceiros do jôgo da política internacional, razão alguma nos compeliria a destacá-lo da vultuosa multidão de concorrentes. ´Mas o reino deste frade não era - como o dos políticos comuns - exclusivamente deste mundo. Não apenas intelectualmente, mas por intuição directa, efectiva, este homem conhecia algo do outro mundo da eternidade, e almejava apaixonadamente tornar-se cidadão do Reino dos Céus`.»
Eis em que consiste a importância, o mistério do personagem que Huxley retrata nesta biografia magnífica.
Porém, o seu livro não é apenas um retrato. Jamais um ser humano foi, ao mesmo tempo, tão profundamente compreendido como Frei José perante o verdadeiro tribunal a que preside Huxley, A existência criminosa deste monge bem intencionado e sinistro, teve apenas uma virtude: a de constituir uma lição.
Em que consiste o misticismo? Será um embuste ou um fenómeno patológico? Ilusão subjectiva ou visão sobrenatural? Porque motivo, sendo, como é, elemento de todas as grandes religiões, se recusa a servilmente estar ao dispor de qualquer uma em particular, e se abstém a reconhecer qualquer dos deuses personificados? Com a gravidade e a honestidade intelectual que caracterizam o espírito poderoso, Huxley responde cuidadosamente a cada uma dessas perguntas e mostra como Frei José foi vítima inconsciente dos
teólogos que procuraram introduzir à viva força os seus deuses incarnados nas visões sobrenaturais.
Porque a Guerra do Trinta Anos durou 30 anos? Como lograram a Eminência Parda e seu diabólico senhor, Richelieu, alimentar um conflito generalizado durante um prazo tão extenso? Qual a origem da habilidade e da energia espantosa de Frei José? De que modo conseguia conciliar o maquiavelismo da sua conduta política com a perfeição da sua vida religiosa? Quais as possibilidades sociais dos místicos? Restará alguma esperança para a humanidade, a braços com tantos conflitos?...
Mais admiráveis que estas perguntas, só as respostas exactas e prudentes que recebemos da inteligência magistral que as formulou e converteu a biografia de um monge numa das obras mais profundas e decisivas
do século XX!
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quinta-feira, janeiro 06, 2011
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
«A UNIÃO CONJUGAL» - (´L'UNION DES ÉPOUX`) - MARC ORAISON
«A UNIÃO CONJUGAL»
MARC ORAISON
TRADUÇÃO: Maria Isabel Tamen
CIRCULO DO HUMANISMO CRISTÃO
LIVRARIA MORAIS EDITORA
LISBOA - 1962
Título Original: ´L'UNION DES ÉPOUX`
Librairie Arthème Fayard
Paris, 1956
Como já foi referido, a Tese de Doutoramento em Teologia apresentada e defendida em 1951 por MARC ORAISON no INSTITUTO CATÓLICO DE PARIS tendo obtido a mais alta distinção, foi condenada pelo ´SANTO OFÍCIO`, ao ser publicada em 1952! Intitulava-se, ´VIDA CRISTÃ E PROBLEMAS DA SEXUALIDADE` ! Uma das razões da condenação que quase lhe acarretou a ´excomunhão` , residiu no
facto de o Autor mencionar duas vezes a famosa obra de SIMONE de BEAUVOIR ´Le deuxième sexe`.
MARC ORAISON ao apresentar a obra referida neste ´post` afirma:
«O autor apresenta ao público esta obra, em grande parte para corrigir os erros que um anterior livro poderia conter, contra sua intenção. Esse livro foi objecto duma medida da Sagrada Congregação do Santo Ofício.
Nele, o autor não tomara, com efeito, suficientemente em conta a doutrina tradicional a respeito dos actos humanos.
Certos leitores poderiam - aliás erradamente - ter tirado dele uma conclusão segundo a qual se poderia pecar formalmente por malícia, nunca por fraqueza. Esta conclusão é contrária ao pensamento do autor, e se ele pôde levar a essa interpretação errónea e contrária ao ensino tradicional, pede desculpa.
Espera ele que o presente livro irá acalmar as dúvidas que a sua outra obra poderia ter suscitado.»
E na INTRODUÇÃO, continua a sua ´auto-crítica` (estou a pensar na similitude com ´O Zero e o Infinito`:
...
«Existe, em primeiro lugar, uma tomada de consciência, impulsionada pelo Magistério da Igreja, da importância moral de que o exercício da sexualidade se reveste. Parece, na verdade, que o fim do séc. XIX
e o princípio do séc. XX tinham mais ou menos perdido de vista esta importância. Sob a capa da ´boa educação` e da ´reserva`, o pensamento médio vulgar evitava olhar de frente para certos problemas e não
reflectia suficientemente sobre eles. Erros de juízo, por vezes grosseiros, tinham-se instalado como verdades
indiscutíveis (´deve gozar-se a juventude`, ´o homem deve ter feito várias experiência antes de se casar`, etc.). De resto e simultaneamente, uma determinada concepção da mulher - contra a qual protesta muito
mal, embora com razão, Simone de Beauvoir - dirigia, mais ou menos secretamente, as relações conjugais e sociais.» ...
...
Sou de opinião que MARC ORAISON agiu bem, tal como GALILEU...desta vez frente a outros
Cardeais, OTTAVIANI e PIZZARDO, pois assim o Médico, Psicólogo, Teólogo e Padre, pôde
continuar a sua obra e, finalmente, com a extinção do ´INDEX` pelo ´CONCÍLIO do VATICANO II`
conseguir entrar num novo patamar do modo como a IGREJA pensa as ´REALIDADES TERRESTRES`!
http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,836269-1,00.html
Le deuxième sexe de Simone de Beauvoir - Resultado da pesquisa de livros do Google
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sexta-feira, dezembro 31, 2010
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
«JESUS CRISTO, O MORTO VIVO» - Marc Oraison
«JESUS CRISTO, O MORTO VIVO»
Marc Oraison
Tradução de Armando Puga,
revista pelos Serviços Editoriais Arcádia
Revisão Tipográfica: José Luis Torres
Colecção: Biblioteca Arcádia / Religião
Capa e Plano Gráfico: Manuel Dias / Atelier Arcádia
Editora Arcádia S. A. R. L.
Lisboa - 1975
178 págs.
Nº de edição - 620
Título original:
´Jésus Christ, ce Mort Vivant
Éditions Grasset & Fasquelle
Paris- 1973
Certos movimentos ´hippies` , ´Godspel` , ´Jesus Christ SuperStar` são algumas das manifestações de um fenómeno novo, inesperado: neste mundo em crise, que o homem tenta compreender fora dos quadros tradicionais das ´Igrejas` , ressuscita-se Jesus de Nazaré.
Mas será ainda possível libertar de superstruturas, mais ou menos míticas, essa figura histórica e o fundamental da sua mensagem?
MARC ORAISON - sacerdote, médico e psicólogo - tenta uma resposta. Numa perspectiva crítica, independente de ´teologias`, sem concessões a mitologias fáceis. Com clareza e vivacidade.
Desde o início das manifestações juvenis de protesto, o que interessava nos protestos
dos ´hippies` era a afirmação de um certo estilo. Cabelos compridos, barba, vestuário
pobre e sujo, essa ´moda` ultrapassou as fronteiras da América. Os ´provos`da Holanda, levaram-na ao exagero. Qualquer que seja o aspecto utópico, ou até quimérico, destas atitudes, elas existiram e numa larga escala; o seu verdadeiro significado reside no facto mesmo de ter existido!
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quarta-feira, dezembro 29, 2010
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010
MARC ORAISON, médico e padre católico - um Homem de grande coerência e coragem!
Autor de imensa e polémica obra, MARC ORAISON, nascido em 1914 em Ambarès, doutorado em Medicina e antigo interno dos hospitais de Bordéus, decidiu matricular-se no Instituto Católico de Paris, onde alcançou em 1951 o Doutoramento em Teologia, com uma ousada Tese!
Este francês foi ordenado Presbítero e a ele se aplica a célebre frase de G. K. Chesterton: ´A Igreja pede-me para tirar o chapéu à entrada do Templo, mas posso manter a cabeça!
Teólogo interessado pelas questões que dizem respeito ao homem e à sociedade, por pouco conseguiu não ser ´excomungado` por PIO XII, em virtude das suas posições arrojadas; conseguiu escapar devido à intervenção de muitos teólogos de nomeada que acorreram em sua defesa!
A quando da promulgação da Encíclica ´HUMANAE VITAE` , em 1968, pelo Eminente PAPA PAULO VI e dado se querer dar ao seu conteúdo contra a contracepção um carácter de ´Infalibilidade` , opôs-se com tenacidade ao que seria um ´Dogma`, defendendo o direito à prevenção da natalidade através do uso da pílula!
Deixou imensa obra, alguma em colaboração com outros autores e faleceu em 1979, vitimado por um cancro!
Quer em Portugal, quer no Brasil, muitos dos seus livros foram traduzidos e publicados!
OBRA NO ORIGINAL (Sem levar em conta obras em colaboração):
L'union des époux / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1956 (Édition postérieur corrigé)
Une morale pour notre temps / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1964Savoir aimer : pour une claire information sexuelle / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1964
Le célibat : aspect négatif, réalités positives / Marc Oraison / Paris : Ed. du Centurion - 1966
Le Mystère humain de la sexualité / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1966
Etre avec... La relation à autrui / Marc Oraison / Paris : Ed. du Centurion - 1968
La mort... et puis après? / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1968
Psychologie et sens du péché / Marc Oraison / Paris : Desclée de Brouwer - 1968
Actualités : Vietnam, Israël, Prague, l'argent, les greffes, l'amour, les groupes / Marc Oraison / Paris :
Arthème Fayard - 1969
Tête dure / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1969
Une morale pour notre temps / Marc Oraison / Paris : Arthème Fayard - 1970
Pour une éducation morale dynamique : changement d'optique nécessaire / Marc Oraison / Paris :
Arthème Fayard - 1970
La transhumance / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1970
Vocation : phénomène humain / Marc Oraison / Paris : Desclée de Brouwer – 1970
Le hasard et la vie / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1971
Dépasser la peur / Marc Oraison / Paris : Desclée De Bouwer - 1972
Vie chrétienne et problèmes de la sexualité / Marc Oraison / Paris : Lethielleux - 1972
Jésus-Christ ce mort vivant / Marc Oraison / Paris : Grasset - 1973
Le temps des alibis / Marc Oraison / Paris : Seuil - 1973
La culpabilité / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1974
La question homosexuelle / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1975
Au point où j'en suis... / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1978
La prostitution... et alors? / Marc Oraison / Paris : Ed. du Seuil - 1979
Ce qu'un homme a cru voir, mémoires posthumes / Marc Oraison / Paris : Robert Laffont - 1980
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terça-feira, dezembro 28, 2010
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
«O TEMPO DOS ALIBIS» - Marc Oraison - (´Le Temps des Alibis`)
«O TEMPO DOS ALIBIS»
MARC ORAISON
TRADUÇÃO:
ANTÓNIO CARLOS MURTEIRA
ORIENTAÇÃO GRÁFICA:
JOÃO MACHADO
LIVRARIA TELOS
PORTO-1973
TÍTULO ORIGINAL:
´LE TEMPS DES ALIBIS`
SEUIL - PARIS - 1973
Uma lenda - persistente como todas as lendas - diz que o avestruz esconde a cabeça na areia para não ver o perigo. É uma ilusão. Mas chama-se a isto a ´política de avestruz`...
O autor pergunta-se, neste ensaio sobre a sociedade moderna, se o homem de hoje não estará iludido na sua política de avestruz: iludido com as suas lendas, antigas ou modernas.
Chegou o momento em que os alibis se desfazem um após outro. Já não se pode fugir à realidade. O homem vê-se confrontado com a sua nudez essencial. Tem de aceitar a sua condição de fragilidade. Os alibis, sejam eles os do progresso, da política ou outros, cada vez se mostram menos seguros como refúgio da ´boa consciência` .
CAPA DA EDIÇÃO ORIGINAL
......
- Não, senhor Juiz, não fui eu que matei. O crime foi cometido na noite de 16 para 17; ora, nesse dia, eu estava em casa duns amigos de ... dos quais vos participei o endereço. Não podeis acusar-me do assassínio: eu estava ´noutro lado`.
Alibi...
Na realidade o alibi é isto: estar noutro lado. E está relacionado, duma maneira ou doutra com uma culpabilidade; é a fuga precipitada. O que se teme essencialmente
é ser acusado de alguma coisa que se fez. Foge-se; procura-se uma justificação. Busca-se exorcizar a todo o custo essa angústia fundamental e sempre a despontar que caracteriza o mais profundo da interrogação humana: a culpabilidade. Há momentos em que se impõe a necessidade de de fazer acreditar, ou de se acreditar que se está noutro lado, e não ´aí onde a questão se põe.`
Mas é insuportável que não haja culpado quando se dá um drama! É a contradição mais insuportável!...
Mas chega o momento em que a segurança do alibi se quebra. Apertando o inquérito,
o juiz de instrução demonstra ao réu que ele cometeu na realidade o crime de que se suspeita, conseguindo que a morte se desse no momento em que ele podia provar que estava noutro lado.
Se tentarmos tomar consciência de como vive a sociedade do nosso tempo, podemos perguntar se não se tratará do momento dramático em que o alibi de toda uma civilização está prestes a ruir, provocando a busca desesperada e incoerente de tudo que possa enganar, camuflar, ignorar esse abismo que se abre sob os seus passos.
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segunda-feira, dezembro 27, 2010
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sábado, 11 de dezembro de 2010
AGOSTINHO DA SILVA E TIMOR-LESTE - Entrevista a APOLINÁRIO GUTERRES
Como conheci o Prof. Agostinho da Silva?
Conheci o Prof. Agostinho da Silva por volta do ano de 1986 através de uma professora, amiga dos timorenses, que residia em Linda-A-Velha.
Em vários fins de semana, em geral, aos sábados, o Prof. Agostinho da Silva descia com a professora até a Quinta do Balteiro, Vale do Jamor, onde viviam os refugiados timorenses desde Setembro/Outubro de 1976, para conversarmos sobre Timor e os timorenses. Como vivem, o que fazem e o que esperam do futuro.
Quem era o Prof. Agostinho da Silva?
A partir desse primeiro encontro procurei conhecer mais o Prof. Agostinho da Silva. Soube depois que tinha estado no Brasil para onde se exilara por um longo tempo durante a ditadura em Portugal, porque era uma pessoa que defendia a liberdade de pensamento e de opinião e fora afastado do ensino. Que no Brasil fundara Centros de Estudos e Universidades. Era um pensador, um sábio.
No trato era uma pessoa simples, entusiasta, transparente e amigo. No falar cadenciado, reflexivo, apresentava o seu pensamento com uma visão ampla e projectada para o futuro. Sentia-se feliz, seus olhos brilhavam na sua venerável moldura de ancião, e ria-se de satisfação, quando nas conversas os nossos pensamentos e raciocínios convergiam e se completavam.
O Prof. Agostinho da Silva falava do devir, do futuro que se deveria ir construindo do melhor jeito possível para se atingir o que se pretende. Falava do futuro de Timor, da futura era do divino Espírito Santo. O senhor Padre Jorge Barros Duarte, timorense, natural de Same e residente em Lisboa, que também o conhecia, dizia-me que o Prof. Agostinho da Silva era um poço de sabedoria. Assim, quando me era possível, ia assistir às conferências e encontros do Professor. A partir de então, regularmente, enviava-me também a mim com a um dos seus amigos as suas conhecidas cartas para deste modo partilhar as suas ideias e pensamentos. Recebia ainda dele algumas breves cartas pessoais. Gravei as conversas que com ele tive no Príncipe Real. Tenho pena de não ter agora à mão alguma documentação pessoal para este nosso encontro de homenagem ao Prof. Agostinho da Silva, na comemoração do centenário do seu nascimento.
O que o Prof. Agostinho da Silva encontrou no Vale do Jamor?
O Prof. Agostinho da Silva nas suas idas ao Vale do Jamor, aí viu e contactou com a realidade timorense. Reconheceu aí Timor e os timorenses que vira e conhecera pela primeira vez no ano de 1963, na própria terra de Santa Cruz. Descobriu, porém, algo mais de especial. Ficou a conhecer e a sentir que o Vale do Jamor, em Portugal, era um recanto de Timor, distante e sempre próximo, onde as gentes de Timor, também cidadãos portugueses, viviam esse espírito de luta de resistência contra a invasão e ocupação estrangeiras do seu território. Território e povo para os quais e para outros territórios ultramarinos a Pátria Lusa de 25 de Abril quis que, em chegado o momento, se emancipassem e se tornassem países livres e independentes.
O processo de Timor para a descolonização estava interrompido e atrasado pela invasão e ocupação indonésias do território timorense. Contra elas os timorenses lutam e resistem heroicamente com o sacrifício de centenas de milhares de vidas. A força que lhes vem de Deus em quem acreditam, a força da razão e a lembrança do espírito dos seus antepassados aswa’ins, guerreiros, os sustentam na luta desigual, certos de que mais tarde ou mais cedo hão-de conseguir a liberdade e a independência.
O Professor ficou inteirado de que os timorenses no Vale do Jamor estavam organizados para defenderem os seus interesses sociais, económicos, desportivos, políticos, culturais e religiosos. A Comissão dos Refugiados de Timor, posteriormente, institucionalizado como um IPSS (Instituto Particular de Solidariedade Social) com o nome de COMUNIDADE DOS REFUGIADOS DE TIMOR, era a interlocutora directa junto dos vários organismos oficiais, nacionais e estrangeiros, para os acima referidos interesses dos timorenses. Como tal organizava cursos de formação profissional apoiados pelo IARN (Instituto de Apoio aos Retornos Nacionais), pelo Ministério dos Assuntos Sociais, Instituto de Emprego e Formação Profissional e pelo Fundo Social Europeu. Através dos seus grupos desportivos, Kablake, Samaruça, Sporting, Académico, os timorenses não só praticavam o desporto, mas também participavam nos torneios desportivos locais e inter-grupos. Os seus grupos artísticos Tebe-Tebedai e Bidu, Coro Misto e Coro Infantil Lorosa’e, e outros, eram conhecidos e actuavam no país e no estrangeiro como em França e Espanha. O Centro de Cultura de Timor com os objectivos de estudo, divulgação e defesa da cultura timorense, reunia vários investigadores nas áreas da História, Antropologia, Sociologia e Linguística.
O Centro de Acolhimento Colectivo do Vale do Jamor para os retornados e refugiados nacionais vindos dos antigos territórios ultramarinos, assistido e apoiado nos primeiros anos da sua existência pela Cruz Vermelha Portuguesa, era para os timorenses uma frente avançada da luta no exterior. Era rai lulik, terra sagrada, um ponto estratégico de resistência, de comunicação e divulgação da Questão de Timor. Ao Vale do Jamor afluíam políticos, jornalistas nacionais e estrangeiros, amigos e benfeitores, solidariedades e personalidades, de entre os quais se contam a Princesa Grace de Mónaco, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António ribeiro, D. Hélder da Câmara do Brasil, D. Duarte Pio de Bragança, embaixadores, deputados, representantes diplomáticos estrangeiros, artistas portugueses, estudantes e professores universitários e, no número destes, o próprio Prof. Agostinho da Silva.
O que o Prof. Agostinho da Silva queria para os timorenses no Vale do Jamor?
O Prof. Agostinho da Silva queria ter um pequeno grupo com quem pudesse encontrar-se regularmente para falar de Fernando Pessoa, de Portugal de Orlando Ribeiro, de Timor e de outras coisas mais. Não se realizou esta ideia no Vale do Jamor, mas sabendo que os timorenses tinham uma organização cultural, denominada CENTRO DE CULTURA DE TIMOR, cujos objectivos eram o estudo, a divulgação e a defesa da identidade cultural timorense no seu contexto geocultural e histórico e do qual eu era o presidente, o Prof. Agostinho da Silva escreveu-me a pedir a sua admissão no referido Centro. Foi com muita honra e satisfação que o admitimos como membro do mesmo Centro de Cultura de Timor. Assim, o Professor já tinha de facto um espaço onde pudesse falar para um grupo de amigos de Timor e timorenses que procuram estudar e reflectir juntos sobre a realidade social e cultural do povo timorense no momento dramático da sua história, frente a um genocídio físico e cultural, então, em curso.
Qual a visão, de então, do Prof. Agostinho da Silva sobre o futuro de Timor?
Não me lembro, nem durante as nossas conversas no Vale do Jamor, nem no encontro propositado que com ele tive na sua residência no Príncipe Real, de alguma opinião negativa ou pessimista do Prof. Agostinho da Silva em relação ao futuro de Timor, então, invadido, ocupado e martirizado pelas Forças Armadas da Indonésia. Antes pelo contrário, falava de Timor como sendo, uma realidade na sua visão, um futuro país livre e independente, por que, então, os timorenses ainda lutavam denodadamente e Portugal, cumprindo as suas obrigações morais, constitucionais e históricas, se esforçava nos areópagos internacionais para encontrar uma solução digna, justa e honrosa para a Questão de Timor. Assim, numa das últimas comemorações do aniversário do Centro de Cultura de Timor em Pedrouços, Belém, na sua intervenção nessa sessão comemorativa perante os membros e convidados reunidos, o Prof. Agostinho da Silva disse que no futuro Timor seria o ponto de convergência onde se encontrariam os falantes da língua portuguesa e castelhana, pois foi da Península Ibérica que os os povos iberos se expandiram para os oceanos e iniciaram e realizaram através da Epopeia dos Descobrimentos o estabelecimento do contacto de culturas e as ligações entre os povos de além-mar. E na imensidão das ilhas e oceanos do Pacífico e da Oceânia, Timor de facto é esse ponto único de convergência. O Prof. Agostinho da Silva, um profeta? Olhemos agora para o nosso Timor-Leste, país soberano, livre e independente, a construir-se com os apoios necessários vindos de vários países, inclusive, Portugal, apoios financeiros e de recursos humanos internacionais, e tiremos as nossas conclusões, anotando que ainda é apenas o início de uma caminhada.
O que era Timor para o Prof. Agostinho da Silva?
O Prof. Agostinho da Silva contara-me que tinha conhecido Timor nos anos sessenta e sentira-se muito ligado a Timor e às suas gentes. E o seu maior desejo era voltar a Timor, ir viver para Tutuala e lá depois morrer. Morreu, porém, em Lisboa no dia 3 de Abril de 1994. Quando ia para visitá-lo ao hospital, faleceu. Concelebrei na Missa Exequial do seu funeral e com mais outro colega sacerdote realizámos o seu enterro no Cemitério do Alto de São João. Paz à sua alma, ora liberta das limitações e contingências que ele no seu viver, agir e pensar quis sempre superar.
Conclusão.
Como se afirma na Lusa de 13 de Fevereiro de 2006, o Prof. Agostinho da Silva continua a ser um pensador controverso e enigmático, ou no dizer do ensaista Eduardo Lourenço, ele ‘não era parecido com ninguém, excepto com ele próprio’ e o mesmo lamentou que a sua obra ainda esteja ‘pouco estudada’. Estudando a sua obra conhecê-lo-emos mais e melhor e descobriremos os percursos da riqueza do seu pensamento.
O Prof. Agostinho da Silva não regressou a Timor para viver em Tutuala e lá morrer. É verdade. Mas, o Prof. Agostinho da Silva está hoje presente em Timor e nesta sala e nesta sessão comemorativa do centenário do seu nascimento. Está presente na nossa memória e nos nossos corações e a sua profecia está a cumprir-se.
NOTA: o Dr João Aparício,adido para a educação,é irmão do Padre Apolinário Guterres
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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
«A DEMOCRACIA AMERICANA» - ´Teoria e Prática` - Arthur A. Ekirch Jr. (´The American Democratic Tradition: A History`)
«A DEMOCRACIA AMERICANA»
´TEORIA E PRÁTICA`
ARTHUR A. EKIRCH Jr. (1915-2000)
Tradução de Álvaro Cabral e Constantino Paleólogo
da 1ª edição, 1963.
ZAHAR EDITORES
RIO DE JANEIRO - 1965
Título original:
´THE AMERICAN DEMOCRATIC TRADITION: A HISTORY`
The Macmillan Company
NEW YORK
USA (1963)
O credo democrático, formulado pela primeira vez em Atenas, há quase três mil anos, continua sendo um artigo de fé moderno, constantemente revitalizado por novas interpretações, redefinições e críticas.
Não é necessário salientar a importância da democracia americana no mundo actual, havendo a respeito uma extensa literatura publicada, que vai dos manuais escolares às eruditas indagações sobre teoria e filosofia política.
Contudo até à publicação da presente obra, nenhuma outra havia ainda tentado investigar e analisar tanto a ideia quanto a prática da democracia em toda a extensão da história americana. Destinou-se esta obra a satisfazer a necessidade de uma história da democracia americana considerada em termos de teoria e ideias sociais bem como de prática e realidade políticas.
A despeito das suas limitadas proporções, este livro apresenta um sumário razoavelmente completo (e por que não ´premonitório` ?) da história da tradição democrática americana. Essa tradição não tem sido estática, mas, antes, dinâmica, afirmação que talvez seja ainda mais verdadeira no que concerne à relação com os
anos recentes, com o realce crescente dado até há poucos anos à democracia social e económica.
Apesar do indiscutível progresso da democracia, muitos problemas - alguns já seculares - permanecem sem solução. A dificuldade de realizar a democracia na prática em sua plenitude não deve, contudo, implicar a nossa renúncia quer no que respeita ao passado, quer às esperanças no futuro.
ARTHUR A. EKRICH Jr. , escreveu dez livros, dezenas de artigos, e mais de cem resenhas de livros!
http://skocky-alcyone.blogspot.com/2010/07/reflexoes-sobre-revolucao-de-nossa.html
http://www.independent.org/aboutus/person_detail.asp?id=1373
http://www.historians.org/perspectives/issues/2000/0005/0005mem1.cfm
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