É forte o homem que dispõe de alguns milhões.
Mas é temível o homem que não tem necessidades,
que não tem compromissos, que não tem medo, e que
mantém o ânimo firme, o pensamento lúcido, o olhar
justo e a mão desembaraçada!
Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.
ALBERT EINSTEIN - ALDOUS HUXLEY - ANTONIO GRAMCI - BENEDETTO CROCE
EDUARDO SPRANGER - ERICH FROMM - FIDELINO DE FIGUEIREDO -GABRIEL MARCEL
H. G. WELLS - H. OVERSTREET - HENRI LEFEBVRE -JEAN-PAUL SARTRE - JOHN DEWEY
JOSÉ ORTEGA Y GASSET - KEYSERLING -LEWIS MUMFORD - MALDONADO DENIS
OSWALD SPENGLER - RAYMOND ARON - WRIGHT MILLS
TRADUÇÃO DOS TEXTOS:
MANUEL FRAZÃO
CAPA: A. DIAS
COLECÇÃO PERSPECTIVAS - 5
EDITORIAL PRESENÇA
LISBOA - 1964
O presente volume constitui uma síntese das diversas expressões do pensamento do século XX, ROMEU DE MELO, o organizador desta antologia, situa a questão através de um prefácio que abre o volume. Seguem-se, depois, depoimentos vários de pensadores da época, que abordam segundo ópticas diferentes e. por vezes, diversas o problema proposto. O critério da selecção dos textos é igualmente definido na nota prefacial.
Estamos, pois, perante uma obra que condensa, dentro de plano restrito da questão proposta, as declarações de personalidades eminentes dentro de vários campos do conhecimento - sociólogos, filósofos, escritores, psicólogos, historiadores; tais declarações permitirão ao leitor uma visão crítica do problema, na medida em que, embora não deixe de subsistir uma óptica dominante, a do ´organizador` - o que acontece com qualquer obra de síntese ou feição antológica, por mais que pese o intuito de objectividade - , existe um diálogo subjacente na diversidade das posiçõesaqui expressas.
Nietzsche, Ingenieros, Karl Jaspers. Oertega y Gasset,
Ellimere Zolla, Fidelino de Figueiredo.
Lewis Mumford e Aldous Huxley
Capa: A. Dias
Colecção Perspectiva - 10
Editorial Presença - 1965
273 págs.
«O que nenhum homem poderá ignorar é a quem deve, em primeiro lugar, a sua solidariedade. Esta é uma advertência que tem de dirigir-se aos intelectuais, e precisamente aos chamados ´comprometidos`. A cultura não conhece barreiras, a cultura tem todo o ´direito`, e não pode eximir-se ao dever de intervir na ´Civitas Diaboli`.
Antes de mais a cultura tem de lutar pela sua sobrevivência. Não pode portanto ser iludida, nem comprometer-se em sacrifícios que impliquem a recusa da sua essência e o desrespeito dos seus valores cardiais. O intelectual não hipoteca a sua liberdade crítica e criadora, não aceita qualquer forma de dogmatismo, não sacrifica a solidariedade que deve aos valores culturais; em suma, não se amarra, não é domesticável e não pode ser detido na via que espontânea e vocacionalmente escolheu.»
Romeu de Melo, prematuramente desaparecido, foi um dos principais autores da Editorial Presença, tendo escrito ou reunido antologias de textos de autores importantes da primeira metade do século XX, tendo conseguido um numeroso público de leitores fieis. Tal facto deveu-se não só ao profundo interesse e actualidade dos temas sobre que se debruçou, mas também à forma vigorosa e desassombrada como os abordava.
Efectivamente o autor de «A Evolução Humana» revela-nos com rara felicidade uma estrutura de pensador dotado de estilo vivo, directo e brilhante, a servir uma análise dos mais candentes problemas do homem e do mundo. Em «O Homem Contemporâneo», o tema central é uma caracterização, no plano da antropologia filosófica e social, dos homens que constituem a sociedade do seu tempo.
Apoiado numa larga teorização que inclui nomes como os de Jaspers. Ortega y Gasset, Aldous Huxley e outros, Romeu de Melo formula a sua própria posição neste contexto de grandes figuras do pensamento do século XX. Estamos assim, em presença de um livro que remete os jovens hodiernos para a problemática dessa época, ainda próxima, numa obra plena de actualidade para o tempo em que foi publicada, não só pelo nível a que se situa, mas também pela profunda relevância da matéria que trata.