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sábado, 11 de dezembro de 2010

AGOSTINHO DA SILVA E TIMOR-LESTE - Entrevista a APOLINÁRIO GUTERRES



Como conheci o Prof. Agostinho da Silva?
Conheci o Prof. Agostinho da Silva por volta do ano de 1986 através de uma professora, amiga dos timorenses, que residia em Linda-A-Velha.
Em vários fins de semana, em geral, aos sábados, o Prof. Agostinho da Silva descia com a professora até a Quinta do Balteiro, Vale do Jamor, onde viviam os refugiados timorenses desde Setembro/Outubro de 1976, para conversarmos sobre Timor e os timorenses. Como vivem, o que fazem e o que esperam do futuro.


Quem era o Prof. Agostinho da Silva?
A partir desse primeiro encontro procurei conhecer mais o Prof. Agostinho da Silva. Soube depois que tinha estado no Brasil para onde se exilara por um longo tempo durante a ditadura em Portugal, porque era uma pessoa que defendia a liberdade de pensamento e de opinião e fora afastado do ensino. Que no Brasil fundara Centros de Estudos e Universidades. Era um pensador, um sábio.
No trato era uma pessoa simples, entusiasta, transparente e amigo. No falar cadenciado, reflexivo, apresentava o seu pensamento com uma visão ampla e projectada para o futuro. Sentia-se feliz, seus olhos brilhavam na sua venerável moldura de ancião, e ria-se de satisfação, quando nas conversas os nossos pensamentos e raciocínios convergiam e se completavam.
O Prof. Agostinho da Silva falava do devir, do futuro que se deveria ir construindo do melhor jeito possível para se atingir o que se pretende. Falava do futuro de Timor, da futura era do divino Espírito Santo. O senhor Padre Jorge Barros Duarte, timorense, natural de Same e residente em Lisboa, que também o conhecia, dizia-me que o Prof. Agostinho da Silva era um poço de sabedoria. Assim, quando me era possível, ia assistir às conferências e encontros do Professor. A partir de então, regularmente, enviava-me também a mim com a um dos seus amigos as suas conhecidas cartas para deste modo partilhar as suas ideias e pensamentos. Recebia ainda dele algumas breves cartas pessoais. Gravei as conversas que com ele tive no Príncipe Real. Tenho pena de não ter agora à mão alguma documentação pessoal para este nosso encontro de homenagem ao Prof. Agostinho da Silva, na comemoração do centenário do seu nascimento.


O que o Prof. Agostinho da Silva encontrou no Vale do Jamor?
O Prof. Agostinho da Silva nas suas idas ao Vale do Jamor, aí viu e contactou com a realidade timorense. Reconheceu aí Timor e os timorenses que vira e conhecera pela primeira vez no ano de 1963, na própria terra de Santa Cruz. Descobriu, porém, algo mais de especial. Ficou a conhecer e a sentir que o Vale do Jamor, em Portugal, era um recanto de Timor, distante e sempre próximo, onde as gentes de Timor, também cidadãos portugueses, viviam esse espírito de luta de resistência contra a invasão e ocupação estrangeiras do seu território. Território e povo para os quais e para outros territórios ultramarinos a Pátria Lusa de 25 de Abril quis que, em chegado o momento, se emancipassem e se tornassem países livres e independentes.
O processo de Timor para a descolonização estava interrompido e atrasado pela invasão e ocupação indonésias do território timorense. Contra elas os timorenses lutam e resistem heroicamente com o sacrifício de centenas de milhares de vidas. A força que lhes vem de Deus em quem acreditam, a força da razão e a lembrança do espírito dos seus antepassados aswa’ins, guerreiros, os sustentam na luta desigual, certos de que mais tarde ou mais cedo hão-de conseguir a liberdade e a independência.
O Professor ficou inteirado de que os timorenses no Vale do Jamor estavam organizados para defenderem os seus interesses sociais, económicos, desportivos, políticos, culturais e religiosos. A Comissão dos Refugiados de Timor, posteriormente, institucionalizado como um IPSS (Instituto Particular de Solidariedade Social) com o nome de COMUNIDADE DOS REFUGIADOS DE TIMOR, era a interlocutora directa junto dos vários organismos oficiais, nacionais e estrangeiros, para os acima referidos interesses dos timorenses. Como tal organizava cursos de formação profissional apoiados pelo IARN (Instituto de Apoio aos Retornos Nacionais), pelo Ministério dos Assuntos Sociais, Instituto de Emprego e Formação Profissional e pelo Fundo Social Europeu. Através dos seus grupos desportivos, Kablake, Samaruça, Sporting, Académico, os timorenses não só praticavam o desporto, mas também participavam nos torneios desportivos locais e inter-grupos. Os seus grupos artísticos Tebe-Tebedai e Bidu, Coro Misto e Coro Infantil Lorosa’e, e outros, eram conhecidos e actuavam no país e no estrangeiro como em França e Espanha. O Centro de Cultura de Timor com os objectivos de estudo, divulgação e defesa da cultura timorense, reunia vários investigadores nas áreas da História, Antropologia, Sociologia e Linguística.
O Centro de Acolhimento Colectivo do Vale do Jamor para os retornados e refugiados nacionais vindos dos antigos territórios ultramarinos, assistido e apoiado nos primeiros anos da sua existência pela Cruz Vermelha Portuguesa, era para os timorenses uma frente avançada da luta no exterior. Era rai lulik, terra sagrada, um ponto estratégico de resistência, de comunicação e divulgação da Questão de Timor. Ao Vale do Jamor afluíam políticos, jornalistas nacionais e estrangeiros, amigos e benfeitores, solidariedades e personalidades, de entre os quais se contam a Princesa Grace de Mónaco, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António ribeiro, D. Hélder da Câmara do Brasil, D. Duarte Pio de Bragança, embaixadores, deputados, representantes diplomáticos estrangeiros, artistas portugueses, estudantes e professores universitários e, no número destes, o próprio Prof. Agostinho da Silva.


O que o Prof. Agostinho da Silva queria para os timorenses no Vale do Jamor?
O Prof. Agostinho da Silva queria ter um pequeno grupo com quem pudesse encontrar-se regularmente para falar de Fernando Pessoa, de Portugal de Orlando Ribeiro, de Timor e de outras coisas mais. Não se realizou esta ideia no Vale do Jamor, mas sabendo que os timorenses tinham uma organização cultural, denominada CENTRO DE CULTURA DE TIMOR, cujos objectivos eram o estudo, a divulgação e a defesa da identidade cultural timorense no seu contexto geocultural e histórico e do qual eu era o presidente, o Prof. Agostinho da Silva escreveu-me a pedir a sua admissão no referido Centro. Foi com muita honra e satisfação que o admitimos como membro do mesmo Centro de Cultura de Timor. Assim, o Professor já tinha de facto um espaço onde pudesse falar para um grupo de amigos de Timor e timorenses que procuram estudar e reflectir juntos sobre a realidade social e cultural do povo timorense no momento dramático da sua história, frente a um genocídio físico e cultural, então, em curso.


Qual a visão, de então, do Prof. Agostinho da Silva sobre o futuro de Timor?
Não me lembro, nem durante as nossas conversas no Vale do Jamor, nem no encontro propositado que com ele tive na sua residência no Príncipe Real, de alguma opinião negativa ou pessimista do Prof. Agostinho da Silva em relação ao futuro de Timor, então, invadido, ocupado e martirizado pelas Forças Armadas da Indonésia. Antes pelo contrário, falava de Timor como sendo, uma realidade na sua visão, um futuro país livre e independente, por que, então, os timorenses ainda lutavam denodadamente e Portugal, cumprindo as suas obrigações morais, constitucionais e históricas, se esforçava nos areópagos internacionais para encontrar uma solução digna, justa e honrosa para a Questão de Timor. Assim, numa das últimas comemorações do aniversário do Centro de Cultura de Timor em Pedrouços, Belém, na sua intervenção nessa sessão comemorativa perante os membros e convidados reunidos, o Prof. Agostinho da Silva disse que no futuro Timor seria o ponto de convergência onde se encontrariam os falantes da língua portuguesa e castelhana, pois foi da Península Ibérica que os os povos iberos se expandiram para os oceanos e iniciaram e realizaram através da Epopeia dos Descobrimentos o estabelecimento do contacto de culturas e as ligações entre os povos de além-mar. E na imensidão das ilhas e oceanos do Pacífico e da Oceânia, Timor de facto é esse ponto único de convergência. O Prof. Agostinho da Silva, um profeta? Olhemos agora para o nosso Timor-Leste, país soberano, livre e independente, a construir-se com os apoios necessários vindos de vários países, inclusive, Portugal, apoios financeiros e de recursos humanos internacionais, e tiremos as nossas conclusões, anotando que ainda é apenas o início de uma caminhada.


O que era Timor para o Prof. Agostinho da Silva?
O Prof. Agostinho da Silva contara-me que tinha conhecido Timor nos anos sessenta e sentira-se muito ligado a Timor e às suas gentes. E o seu maior desejo era voltar a Timor, ir viver para Tutuala e lá depois morrer. Morreu, porém, em Lisboa no dia 3 de Abril de 1994. Quando ia para visitá-lo ao hospital, faleceu. Concelebrei na Missa Exequial do seu funeral e com mais outro colega sacerdote realizámos o seu enterro no Cemitério do Alto de São João. Paz à sua alma, ora liberta das limitações e contingências que ele no seu viver, agir e pensar quis sempre superar.


Conclusão.
Como se afirma na Lusa de 13 de Fevereiro de 2006, o Prof. Agostinho da Silva continua a ser um pensador controverso e enigmático, ou no dizer do ensaista Eduardo Lourenço, ele ‘não era parecido com ninguém, excepto com ele próprio’ e o mesmo lamentou que a sua obra ainda esteja ‘pouco estudada’. Estudando a sua obra conhecê-lo-emos mais e melhor e descobriremos os percursos da riqueza do seu pensamento.
O Prof. Agostinho da Silva não regressou a Timor para viver em Tutuala e lá morrer. É verdade. Mas, o Prof. Agostinho da Silva está hoje presente em Timor e nesta sala e nesta sessão comemorativa do centenário do seu nascimento. Está presente na nossa memória e nos nossos corações e a sua profecia está a cumprir-se.


NOTA: o Dr João Aparício,adido para a educação,é irmão do Padre Apolinário Guterres

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