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terça-feira, 13 de julho de 2010

´Os sinais de fadiga` - ADRIANO MOREIRA - DN OPINIÃO

É vulgar que os grandes precursores dos movimentos significativos para a melhoria da segurança humana sejam progressivamente remetidos para um esquecimento discreto em favor dos deslumbramentos progressivos do Estado espectáculo. Não é por isso excepção, embora seja de lamentar, que o pensamento de Coudenhove-Kalergi, um dos pensadores mais brilhantes para que o sentido da unidade europeia encontrasse visibilidade e rumo já depois da guerra de 1914-1918, seja esquecido.

Todavia, a discreta mas activa European Society Coudenhove-Kalergi não desiste de manter o seu observatório sobre a evolução do problema e das respostas que vão sendo encontradas, em função da mudança da conjuntura. Esta tem sido veloz e mostra hoje uma configuração bem diferente daquela que rodeou o I Congresso Pan-Europeu, que se reuniu em Viena de 3 a 6 de Outubro de 1926, na sequência do seu apelo intitulado "A questão europeia, de 21 de Julho de 1922". A intervenção da sociedade que consagra o nome da sua figura tutelar, na chamada Carta Europeia que usa distribuir, esta de 16 de Junho do ano corrente, ao mesmo tempo que mais uma vez sustenta que o Tratado de Lisboa é uma oportunidade para a Europa, que a análise dos resultados das sondagens mostra um aumento do consentimento para o progresso da União, também sublinha que "a baixa da participação eleitoral verificada na média europeia, não apenas ao nível das eleições para o Parlamento Europeu mas também ao nível das eleições nacionais e regionais, mostra uma espécie de fadiga da vida democrática".

Não são verificações absolutamente contraditórias, no sentido de que, segundo a análise publicada, a adesão ao projecto é sobretudo assumida por critérios de conforto e qualidade de vida, e o cansaço tem que ver com "um certo desinteresse político, o que se explica pela ausência de grandes visões, pela versatilidade da vida política que cria frequentemente a impressão de que ela age e reage unicamente em função das sondagens e da opinião pública, e também pela ausência de grandes personalidades políticas".

Não é tranquilizante verificar estas duas tendências simultâneas, porque a sua definição respectiva não prognostica uma convergência para o progresso do projecto europeu, antes sugere o risco sério de um alheamento que afaste a sociedade civil dos governos. O que aconselharia a observar as sociedades civis estaduais, e a eventual tendência para resistir à evolução para uma sociedade civil europeia, e até para enfraquecer as responsabilidades dos seus governos. O Tratado de Lisboa coloca o Parlamento Europeu num plano mais igual com a Comissão e com o Conselho, a co-decisão fortalece o processo decisório, a nomeação dos comissários tem possibilidades de vir a ter mais em vista o interesse da União do que as particularidades das origens, e assim por diante. Mas a crise foi uma rotura severa das esperanças e perspectivas, a política furtiva que preenche muita da narrativa do passado europeu está a ser escrutinizada com angústia, o Fórum Cívico Europa 2020, destinado a mobilizar as forças europeias, que convergem no projecto comum, enfrenta uma circunstância de desastre.

O facto é que, como a Carta lembra, sem todavia dar uma oportunidade ao descaso, nas primeiras eleições para o Parlamento Europeu, em 1979, então com nove Estados, a participação eleitoral foi de 61,99%, mas em 2009, com 27 membros, teve uma participação de 43,30%. A conclusão timidamente referida na Carta é que "a baixa de participação eleitoral constatada pelos media europeus, não apenas ao nível das eleições para o Parlamento europeu mas também ao nível das eleições nacionais e regionais, torna visível uma espécie de fadiga da vida democrática". Alguns resultados eleitorais dos Estados membros apoiam a inquietação, e uma das causas, além da crise, está certamente na violação da confiança de algumas sociedades civis europeias nas respectivas lideranças, projectada na erosão do projecto de unidade europeia.

http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1617050&seccao=Adriano%20Moreira&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco


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