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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Dalila Pereira da Costa: as margens sacralizadas do Douro através vários cultos


Dalila Pereira da Costa: as margens sacralizadas do Douro através vários cultos

Escrito por Joaquim Domingues

É este mistério superior duma mitologia nacional e religião que desde os primórdios de Portugal, imersos nas sombras do passado, sustenta e alimenta viva nossa identidade e a conduz para o futuro, como fonte de sua História. Qual é a verdadeira fronteira de Portugal? A pergunta implica o pressuposto de que o conceito é equívoco ou multívoco, pois depende de saber o que se pretende, em cada caso, delimitar; assim, por exemplo, a fronteira administrativa é diferente da linguística e esta da militar ou da económica. Essa diversidade de acepções decorre, porém, da possibilidade de referi-las a algo de estável ou permanente, ainda que mais subtil ou distante da experiência corrente.

Por um feliz caso, o termo do ciclo histórico que vivemos e a consequente redefinição de fronteiras, desencadeou como que a quebra dos selos que mantinham alguns segredos guardados há muito. E, qual a voz de uma quinta sibila, num processo que une o mais fundo da terra ao mais alto do céu, como relâmpago inesperado, uma obra nos tem vindo a revelar aspectos da realidade portuguesa que permaneciam invisíveis ou indecifrados, secretos. O mais recente volume dessa obra veneranda, quais livros sibilinos que no espelho do passado nos deixam adivinhar o futuro, acaba de ser dado a lume sob o título "As Margens Sacralizadas do Douro através de vários cultos" (Lello editores, Porto, 2006).

O que, em suma, se revela nessa evocação de uma realidade remotíssima, mas sempre actual ou actuante, é a existência de um veio, qual fonte de vida inexaurível a que, desde que há memória, o homem deste extremo eurasiático tem recorrido para recuperar as energias perdidas, para restabelecer os equilíbrios ameaçados, para se lançar nas aventuras sobre-humanas. Assim, a arqueologia praticada pela Dr.a Dalila Pereira da Costa vem-nos esclarecer acerca do significado, que tem passado quase despercebido entre discussões marginais, das inscrições rupestres do vale do rio Coa, as quais, integradas na geografia sagrada do Douro, permitem definir a fronteira a partir da qual, como linha axial, se tem organizado o tempo/espaço português. Na certeza de que, mais do que um povo autocentrado, qual Império do Meio, o Português é um povo de fronteira ou de fronteiras.

Ao insistir no poder oracular das águas, que está na génese dos rituais praticados nas margens do rio, a Dr.a Dalila Pereira da Costa afasta a ilusão alimentada pelo culto das imagens. Para dar a voz ao que está mudo, como aquela figura de orante que ilustra a sobrecapa do volume, importa, antes de mais, descobrir as palavras perdidas e achadas na corografia, nas lendas e nas tradições populares. Só assim a descontinuidade dos monumentos e dos documentos se anima pela continuidade da tradição que, apesar da nossa surdez, continua a transmitir as chaves.

O que há de extraordinário nesta pesquisa, a partir das mais antigas populações que confluíram para as zonas adjacentes ao rio fecundo e temível, é a forma como a autora liga as informações mais díspares e aparentemente insignificantes para identificar os traços de uma religiosidade que vem desde as práticas xamânicas até às manifestações do cristianismo. Uma reiteração da presença do sagrado que ao homem apenas cabe reconhecer, tal é a sua força, traduzida nos rituais, ora de feição ctónica e lunar, ora celeste e solar, mas sempre associados à magia da água, de onde brota a vida e se toca o limiar do além. Pelo seu curso, de montante a jusante, se cumpre também o percurso que conduz desde o mais recôndito e misterioso, por vezes selvático, até àquela passagem terminal, entre arribas a pique sobre o abismo, que deu o carácter à cidade do Porto.

Importa registar, a propósito, que na opulenta bibliografia atinente à cidade de que «houve nome Portugal» nenhuma outra, desde Bruno, foi tão longe e tão alto na hermenêutica do segredo que nela está inscrito. E se é certo que a cidade já foi palco de um colóquio em torno da sua obra, ainda não manifestou à Dr.a Dalila Pereira da Costa o reconhecimento a que tem jus quem lhe tem revelado feições e riquezas sem comparação possível ao que consta dos planos e relatórios de quantas instituições a deveriam servir, quando a não descaracterizam e lhe delapidam o património. Nem tenho dúvida de que muito mais vale esse labor discreto mas incansável de quem vai sondando a sua alma secreta, do que de quantos projectos saem das mãos dos que não compreendem, porque não amam, a cidade ímpar.

Se o sagrado se define pelo limiar que estabelece a fronteira com o profano, o Douro constitui essa extrema propícia a desencadear aquela mudança na alma que dispõe o homem para acolher a moção que vem do alto. E o volume dá-nos admiráveis exemplos de como a geografia humana é tributária da geografia sagrada; tal o caso da ocupação de alguns territórios hoje densamente povoados ter sido precedida pela presença dos eremitas e das comunidades conventuais que, arrostando com os medos e as agruras, como que domaram os elementos adversos. Assim, os primeiros franciscanos estabelecidos em Matosinhos, mais tarde terra de vilegiatura e hoje local de veraneio, enfrentaram condições tão inclementes que se viram forçados a recuar o convento para a zona mais abrigada da quinta da Conceição.

Digno de nota também é o destaque dado à Galiza nesta sondagem dos princípios sagrados – a verdadeira arqueologia – que têm presidido ao evoluir dessa realidade ainda por definir que é Portugal. Na perspectiva da Dr.a Dalila Pereira da Costa esse veio energético e organizador do vale do Douro liga-se à definição de um espaço comum à Galiza e ao Norte de Portugal, que os testemunhos históricos confirmam. Por isso, o facto de essa fronteira do Douro, a Extrema Durii, com o decurso dos séculos ter passado a designar outra fronteira deste Extremo Ocidente, a Estremadura, no vale do Tejo, alguma relação poderá ter com o sacrifício ou a separação da Galiza em relação ao Condado Portucalense ou – quem sabe? – com a sua futura reintegração.

Uma última observação, nesta rápida notícia, para assinalar o paradoxo ilustrado por este livro notável de que, dir-se-ia, quanto mais nos distanciamos do passado, melhor ele se nos patenteia, quer pela descoberta de informações e monumentos, quer em especial pela nova luz que sobre eles incide. Nem poderia passar sem menção o modo como, ao evocar os locais sagrados onde se foram sucedendo os rituais, a Dr.a Dalila Pereira da Costa se refere à religião portuguesa, a qual, sem pôr em causa as verdades da fé, tem uma raiz tão remota e tão própria, tão nossa, que não pode deixar de ser reconhecida com a reverência devida ao que transcende os nossos limites. Sendo certo que, nessa linha, se não esquece de a religar também à filosofia portuguesa, como a forma porventura mais elevada dessa consciência da missão sagrada que, desde tempos imemoriais, se liga a este território e aos homens que para aqui confluíram.


Dalila, a sensibilidade pensante
Soube pela revista «on line» Leonardo que a Dalila Lello Pereira da Costa tinha publicado mais um livro, intitulado, «As Margens Sacralisados do Douro Através do Vários Cultos».
Veio pelo correio, e ei-lo, enfim, a ser lido. Comecei pelo fim, como faço por vezes com os jornais, como quem progride do já sabido para o como se soube.
A segunda parte da obra de «pristina nostalgia» é dedicada «à irmã Galiza, com saudades».
E é sobre a saudade «essa disciplina espiritual suprema» que assina um texto, tal como escreveu, em 1975 - ano impróprio para tanto - um livro, com Pinharanda Gomes.
«A saudade vence a irreversibilidade do tempo e a distância do espaço, efectua a sintese, ou mais a união do espaço e do tempo, anulando sua aparente diferença e desunião: e anulando-os finalmente como forças terrenas».
É pela força libertadora da saudade que o homem português descobriu o céu e a terra, em busca do «mito do ser e estar paradisíaco», argonauta do mundo por haver.
Lerei tudo, este livro e todos os outros.
Ama-se esta mulher pelo que é, pelo que sabe sentir e sabe fazer-nos sentir. Obrigado por ter sido como é, essa magnífica «sensibilidade pensante». Nasceu em 1918.

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